quarta-feira, 19 de setembro de 2012

...e hoje na imprensa


1) Uma reportagem do Hoje Macau fala das lojas de alimentos de luxo, onde uma bexiga de peixe, utilizada numa deliciosa sopa, pode custar até 600 mil patacas o quilo! Isto é tão surpreendente como esquisito. Na lista das comidas mais caras do mundo continua a liderar o caviar da Beluga, que custa a "módica" quantia de 50 mil patacas o quilo. Mas não vale a pena discutir com os chineses quando se trata de ninhos de andorinha, barbatanas de tubarão, escalopes, pepinos do mar, chifres de veado ou pilas de tigre. Isto é um negócio muito local, muito cosanostra, e as "propriedades medicinais" são deveras reconhecidas. Ai vocês não sabiam? Quem tem dinheiro para comprar estas coisas e papá-las torna-se imortal, e tem a potência sexual de um cavalo garanhão. E nem duvidem da cultura milenar chinesa, nem dos seus milionários que se dispõem a pagar pequenas fortunas pela banha da cobra. Olha, banha de cobra, aqui está um produto que ia ter muita procura nessas lojas de alimentos de luxo...

2) Ainda no Hoje, ficamos a saber que um dos deputados mais ausentes da AL é Victor Cheung Lap Kwan, eleito pela obscura via indirecta, uma coisa que ninguém entende muito bem como funciona. Acontece que o sr. deputado tem mais que fazer, não lhe apetece aparecer na Assembleia para exercer essa coisa que lhe causa asco, que é o "serviço público". Também para quê? Para ele isto é "aturar os democratas", como uma vez disse, e quem sabe se os negócios dão mais dinheiro? Se aparece na AL é porque se calhar se vai votar qualquer coisa que lhe aperta os calos, então ele vai lá e vota contra. Mesmo assim é bom que não apareça. Assim diz menos disparates. Aliás a ele deviam juntar-se os deputados Fong Chi Keong, Tsui Wai Kwan e Chan Chak Mo - todos eleitos indirectamente - e poupavam-nos ao seu chorrilho de disparates. Se calhar deviam formar um barbershop quartet, um ou tecto vocal, e assim dedicavam-se a outra coisa que não fosse política.

3) No Ponto Final - e a isto achei imensa graça - um grupo de carolas de câmera de vídeo na mão vai filmar "mansões fantasma" em Macau. Ora, para isto nem era preciso fazer um filme. Os chineses pelam-se de medo por mansões ou castelos. Aliás, os gajos só devem aceitar viver em prédios de 40 andares em apartamentos completamente novos, pois qualquer casa que "pertenceu a alguém há muito tempo", está, ora pois, "assombrada". Já se sabe que os chineses não compram casas onde alguém tenha morrido (mesmo de causas naturais), e o mercado tem mesmo um tabelamento para este tipo de moradias. Mas olha, se quiserem mesmo fazer um filme de terror com isso das "casa fantasmas", basta filmar algumas moradias abandonadas (normalmente lojas), onde se acumula o lixo e as contas da luz e da água nas caixas de correio. E se querem "fantasmas" como protagonistas, vão atrás do proprietários destas porcarias, que são piores que vampiros.

PS: Ums nota final para o tal Conselho das Comunidades Portuguesas, que não vai realizar não-sei-o-quê por falta de verba. Ó meus amigos, se em Portugal não há dinheiro nem para fazer cantar um ceguinho, vocês queriam massa para reuniões e bolinhos? Tenham juízo, pá!

Porto entra com o pé direito


O FC Porto entrou com o pé direito na Liga dos Campeões, ao bater na Croácia o Dinamo Zagreb por duas bolas a zero. Os dragões ainda passaram por alguns sustos, mas inauguraram o marcador a meio da segunda parte por Lucho Gonzalez, que tinha perdido o pai essa tarde, mas mesmo assim alinhou pelos azuis e brancos. O Dinamo ainda tentou reagir, mas o Porto matou o jogo já no último minuto, com um golo do belga Defour. No o outro jogo do Grupo A o PSG goleou o Dinamo Kiev por 4-1. Os franceses vão visitar o Estádio do Dragão na próxima jornada.


Noutras partidas destaque óbvio para a vitória do Real Madrid no Bernabéu sobre o Manchester City. O campeão espanhol viu-se e desejou-se para bater o campeão inglês, e só um golo de C. Ronaldo no último minuto garantiu a vitória aos "merengues". José Mourinho consegue mais uma "lifeline" depois do terrível início de época. Entretanto e também em Espanha, o Málaga, dos portugueses Duda e Eliseu, goleou os milionários russos do Zenit, por três bolas a zero. O ex-benfiquista Javier Saviola voltou a marcar pelos malaguenhos.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Macau: o tubo de ensaio


Macau pode mesmo vir a ser um tubo de ensaio para as experiências da RP China no grande plano para a integração das regiões administrativas especiais no grande regaço da pátria-mãe. Esta manhã o politólogo Martin Chung defendia que uma vez que a ideia da educação patriótica não foi bem recebida em Hong Kong, poderá ser implementada em Macau, para dar a entender à RAE viinha "que não é assim tão má", como já tinha acontecido com a legislação do artº 23 da Lei Básica, que como se sabe originou protestos em Hong Kong, mas foi acolhida quase sem oposição na RAEM. Até hoje ninguém foi indiciado por crimes de lesa-pátria no território, pelo que custa a entender a urgência em legislar nesse sentido, para "proteger" os interesses da nação.

Ainda ontem cerca de 30 estudantes do ensino superior da RAEM juntaram-se aos seus coleguinhas de Hong Kong e manifestaram o seu apoio à oposição àquilo a que chamam "lavagem cerebral". Tarde e a más horas, diria eu. Se Hong Kong é mesmo aqui ao lado e as aulas no ensino superior tiveram início há mais de 3 semanas, porque demoraram tanto tempo estes jovens a reagir? E o que pensam alunos e encarregados de educação sobre esta ideia da educação patriótica? Inquiri alguns dos meus colegas, que se opõem veemente a esta iniciativa, mas será isto suficiente para impedir que chegue às nossas escolas? Terá esta educação patriótica alguma oposição, por exemplo, na Assembleia Legislativa? Duvido e faço pouco.

Pode-se esperar que as inúmeras associações de "patriotas" do território venham buscar estórias da carochinha de que "é importante defender a nação", e ir buscar mais uma meia dúzia de inimigos invisíveis, e vasculhar o passado alegando que "muitas mulheres chinesas foram violadas", e que "bebés foram mortos", ou ainda que "faltou água, luz e gás" para deixar o pobre povo ignorante e deprimido simpatético com noções de que é preciso "dar a vida pela pátria", ou que é preciso apoiar a nação "mesmo que não tenha razão". É como um clube de futebol: mesmo que faça merda, não se muda. Muda-se de mulher, de casa, de cidade, de sexo, mas nunca se muda de clube...ou de pátria.

Não surpreende que em Macau exista tanta boa vontade, portanto. Basta perceber como a China nos presenteia com o maná dos vistos individuais que produzem os resultados do jogo e enchem os cofres do erário público, e é quase verbotten irritar os meninos, senão temos que desmontar estas tendas todas que tanto trabalho deram a montar. Por isso toca a aceitar tudo o que seja "integração" e miscigenação, seja na forma de incentivos para obter residência através do investimento ou de casamentos falsos, ou na forma o artº 23, ora na forma de educação patriótica. É que nós em Macau somos os bons meninos,e tudo o que vem de cima são bons exemplos. E já gora, as Diaoyu vão ser nossas outra vez! Shi lai!

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Tensões


1) O fim-de-semana foi marcado por uma onda de protestos por várias cidades da China contra a aquisição pelo Japão das ilhas Diaoyu, uma espécie de novo desígnio patriótico. Curioso observar alguns manifestantes que muito provavelmente nunca tinham ouvidoo falar daquelas ilhas até há meia dúzia de anos, e agora dizem que "são parte inalienável da China", como se se estivesse aqui a falar do Tibete ou de Taiwan. A mesma bitola serve para qualquer um dos casos. A intensidade com que as manifestações decorreram em algumas cidades tem uma leitura muito ampla. Entre os manifestantes que estavam mesmo preocupados com aquilo das ilhas misturaram-se outros que aproveitaram ora para protestar contra outra coisa qualquer, ora para cometer saques. Algumas das lojas alegadamente vítimas desta animosidade anti-nipónica foram "limpinhas" sem que se tivesse arrombado uma única porta ou partido uma única janela. Em Macau contudo no pasa nada, com os restaurantes de sushi e as lojas da Daiso completamente cheias, como sempre, enquanto os Hondas e os Toyotas circulavam pacificamente nas ruas. Brandos costumes, dirão alguns, mas eu pessoalmente acho que é antes um exemplo de civismo. Ao governo chinês pode-lhe até agradar este furor com que o seu povo defende a integridade do território nacional, mas continua a torcer o nariz a turbas, reuniões e levantamentos populares. Quem sabe se com razão. Quem tem telhados de vidro...

2) Também em Portugal o povo saíu à rua, mas manifestações mais concorridas desde o 25 de Abril, imagine-se. Em causa estão as medidas de austeridade que fazem com que os nossos compatriotas apertem cada vez mais o cinto. Só em Lisboa terão sido perto de meio milhão de portugueses a manifestarem-se contra a troika e contra o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho. Num dos serviços noticiosos de ontem assisiti a uma cena triste: um senhor já com bastante idade para ter juízo gritva "O povo unido jamais será vencido" (imbecil, néscio, demagogo), e acrescentava um bem audível "Passos Coelho vai pró c...". Isto é deveras lamentável. Tenho a certeza que o chefe do governo - apesar de estar a fazer um trabalho que deixa muito a desejar numa altura de crise como esta - não tira nenhum prazer sádico da situação de caristia em que os portugueses vivem. Não merece ser assim insultado. E os insultos não se ficam pelo primeiro-ministro, e estendem-se a toda a sua família. Quer dizer, somos um povo divertido, com um humor revisteiro e tal, mas o que seria da nossa "democracia" se toda a gente com quem discordamos fosse mandada para o c...? Haja um pouco de bom senso, e tentemos ser mais construtivos e menos ordinários. Ah sim, e para o próximo fim-de-semana estão marcadas novas manifestações para as principais cidades do país. Isto de certeza que será um óptimo negócio para os vendedores de febras, coiratos, pão com chouriço e imperiais. E viva a liberdade!

3) O mundo muçulmano anda agitado com um filme que insulta o Islão e o profeta Maomé. O filme em questão, "Innocence of Muslims" (veja aqui um pequeno excerto de menos de dois minutos, por sua conta e risco) é pura e simplesmente um insulto a uma religião que é conhecida pela sua pouca tolerância a este tipo de coisas. O único objectivo deste "filme", que está entre aspas porque é mal representado, mal produzido e mal todo-o-resto, é chatear os maometanos. E pegou! E ninguém assume a autoria do filme, e mesmo os actores são virtuais desconhecidos. As embaixadas americanas um pouco por todo o mundo árabe têm sentido a ira dos radicais, que como se sabe facilmente mobilizam os fiéis para queimar bandeiras americanas ou assassinar diplomatas. E nem é preciso uma grande desculpa: "Ó Abdul, queres ir incendiar uma embaixada americana?" - "Bora lá, Ahmed! Eu levo a gasolina e os fósforos".

domingo, 16 de setembro de 2012

200 milhões de euros em campo


Estava eu ontem à noite num bar da Taipa a despachar umas cervejas e uns "minuins" com a família e amigos, enquanto ao mesmo tempo ia deitando um olhinho ao jogo entre o Stoke City e o Manchester City, da Preimier League inglesa, que passava no ecrã gigante. Tenho sempre curiosidade em assistir aos jogos do Manchester City, uma vez que tento sempre perceber como funciona isso de ter mais de 200 milhões de euros dentro de campo. Como se sabe o City foi comprado há alguns anos pelo xeque Mansour bin Zayed Al Nahyan, meio-irmão do actual presidente dos Emirados Árabes Unidos, que injectou uma dose massiva de capital no clube, que até andava pelas ruas da amrgura, estando apenas há cinco anos no Championship, a segunda divisão inglesa. O ano passado os "citizens" conquistaram a Premier League no último minuto do campeonato, batendo o QPR em casa por 3-2, com o golo da vitória a ser obtido já nos descontos. Custou mas foi...200 e tal milhões de euros depois.

Ontem o Stoke City - com um orçamento bnem mais modesto - obrigou os campeões a deixar lá dois pontos, o jogo acabou empatado a uma bola. Um verdadeiro David a bater o pé aos Golias de Manchester. Eu até gosto de futebol, como leitor sabe, apesar da componente homo-erótica da coisa (gajos de calções a caírem suados uns em cima dos outros, etc.), mas considero que isto é um verdadeiro insulto aos pobres. "Compram-se" jogadores por 30, 40 ou 50 milhões de euros, e depois estes recebem salários astronómicos - ganham mais num mês do que eu e o simpático e trabalhador leitor em anos. E não lhes chega! Alguns reclamam mais dinheiro, melhores contratos e sacrificam a (pouca) dignidade que têm e prostituem-se em campeonatos novos-ricos, como são os da China ou da Rússia, em clubes obscuros com nomes completamente impronunciáveis, como aquele tal Anzhi Makhachkala, onde alinha o camaronês Samuel Eto'o.

O Manchester City é um exemplo acabado de como os títulos são comprados. Bastou ir "ao mercado" buscar os argentinos, marfinenses, espanhóis e brasileiros da moda, aparecer-lhes com um camião de dinheiro à porta e eles vêm. Duvido que exista no plantel deste Manchester City um único jogador nascido em Manchester ou formado no clube (e não existe mesmo, fui verificar). E para gerir toda esta caldeirada, ainda foram buscar um mafiosi italiano que dá pelo nome de Roberto Mancini, que por acaso desprezo (lembram-se do golo que marcou nas Antas pela Sampdoria e que nos custoua Taça das Taças em 95? Eu também não...). Com aquele dinheiro todo até eu ganhava. Se não ganhasse, era só pedir mais.

Basta que exista um bilionário qualquer, seja ele árabe, americano ou russo para levantar a moral de um clube quase falido. Basta apenas investir. Isto desvirtua a verdade desportiva, não incentiva a formação (os bons saem para os clubes que lhes pagam mais ou são ostracizados perante jogadores mais caros, dependendo do caso), e enfim, o futebol deixa de ser o desporto das massas e passa a ser o desporto da massa. Os títulos passam a ser comprados, pura e simplesmente. No caso dos árabes, acho-lhes imensa graça. Compram clubes de futebol, constroem Disneylândias inteiras, hotéis, aeroportos e sanitas de ouro, diamantes, platina e marfim, tudo serve de desculpa para desbaratar os petro-dólares. Olha, que lhes faça bom proveito, e que não lhes venha a fazer falta.

Seis segundos

Jordi Bargalló (ao centro), o galego que tramou Portugal

Portugal voltou a falhar mais um título de hóquei em patins para a Espanha, o que já começa a ser um inevitável fado. A selecção lusa disputou o Europeu da modalidade em casa, em Paredes, e a conjugação de resultados permitia que se chegasse ao último jogo bastando empatar com os eternos rivais para conquistar o ceptro que já foge há 14 anos. E as coisas até corriam bem; Portugal esteve a vencer por 2-0, chegou ao intervalo a vencer por 3-2, e o encontro estava empatado a quatro bolas a poucos segundos do fim. Foi aí que surgiu o anti-herói, um tal Jordi Bargalló, capitão do Liceo da Corunha, que a seis segundos do apito final marcou o quinto golo, que nos deixou mais uma vez a ver os espanhós a fazerem a festa. Festa esta a que já estão habituados; a Espanha venceu os últimos sete europeus e os últimos quatro mundiais, e não há equipa que resista. Portugal esteve perto...faltaram seis segundos.

Todos contra a troika


Os portugueses manifestaram-se ontem contra a política do actual governo, e das imposições da troika. Em várias cidades do país milhares de cidadãos saíram à rua para demonstrar que vivem com uns poucos trocos, e não percebem muito bem onde está a saída para esta crise, que tem um plano de "anos" para a recuperação. E quem tem anos para gastar numa recuperação de uma crise? Em Macau algumas dezenas de portugueses manifestaram-se em frente ao Consulado Geral de Portugal, na Rua Pedro Nolasco da Silva, em solidariedade com os nossos irmãos que sofrem com as medidas de austeridade em Portugal - não que tenhamos muitas razões de queixa, sinceramente, mas portugueses que somos, devemos aderir ao protesto. Estão tristes, os nossos compatriotas.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O meu país também se engana


Como alguns leitores devem ter percebido, começoua colaboração deste vosso humilde servo com o diário Hoje Macau, com uma coluna que (espero) vir assinar regularmente às quintas. Gostava de agradecer ao director Carlos Morais José a oportunidade de levar o Bairro do Oriente a um público mais vasto, e ao editor Nuno G. Pereira pelo "cantinho" que me arranjou no jornal. Já agora um grande abraço à restante malta do Hoje, e uma festinha ao gato Pu Yi. O artigo pode ser visto aqui, e para memória futura vou ainda reproduzi-lo na sua íntegra aqui no blogue.


Os protestos de milhares de estudantes e pais na vizinha RAEHK contra a implementação da disciplina de Educação Patriótica nas escolas foi talvez o grande “happening” deste Verão aqui na região.

Uma tentativa frustrada do Governo central de impor uma ideologia nacionalista no seu aluno menos aplicado. O famigerado artigo 23 não pegou em Hong Kong, e daí partia uma tentativa de moldar as mentes mais frágeis e preparar a próxima geração. Alguns dos conceitos presentes no tal manual de Educação Patriótica podem parecer-nos estranhos, absurdos até, e o livrinho impunha uma série de ideias como “devemos dar a vida pelo nosso país” ou “devemos apoiar o nosso país mesmo quando está errado”.

Quando era pequeno o meu pai contava-me histórias de quando esteve na Guiné, nos tempos da Guerra Colonial. Dizia-me que o seu sargento apelava a que os seus soldados “lutassem até à última gota de sangue”. Eles sussurravam entre eles: “até à última não, até à penúltima; a última é para fugir”. E é assim mesmo, não há ideia de “pátria” ou “nação” que valha uma vida humana. Estes são conceitos ultrapassados, coisa que vigorava há uns cem anos, quando a vida humana valia menos que um saco de amendoins. Depois sempre veio a convenção de Genebra, saímos do século dos ideais e entrámos no século do indivíduo. Todos nós queremos viver mais e melhor e ninguém quer saber de conflitos armados e guerras.

Sou português dos quatro costados e orgulho-me de todos os méritos da minha nação, mas isso não significa que considere que o meu país “tem sempre razão”, mesmo quando não tem razão – e ultimamente tenho cada vez menos motivos para pensar assim, muito devido a quem anda a (des)governar o país há décadas. Orgulho-me dos feitos da minha nação, dos seus méritos, mas tenho sentido crítico e sei que o meu país também erra. Todos os países erram, e o conceito de que existe uma nação omnisciente e perfeita é risível. Somos acima de tudo cidadãos do mundo, e a nossa pátria e os seus interesses (os de poucos) não se sobrepõe ao nosso bem-estar.

É curioso que o regime chinês tente incutir este tipo de “amor” patriótico nos seus jovens. Afinal são eles os primeiros que criticam as tentativas japonesas de branquear o seu passado belicista e imperialista, e condenam as romagens de políticos japoneses ao santuário de Yasukuni, onde estão sepultados criminosos de guerra japoneses do tempo da Segunda Guerra – criminosos para as suas vítimas, claro, mas heróis para os nacionalistas japoneses. Que autoridade tem um país que quer incutir na sua juventude valores semelhantes para declarar errado que outra nação tente fazer exactamente a mesma coisa?

Numa altura em que os ânimos se exaltam no Sudeste Asiático devido à disputa de ilhotas que possuem recursos naturais importantes, parece estranho que se dê tanta importância à Educação Patriótica. É uma mistura explosiva aliar conceitos nacionalistas e disputas territoriais, e em nada ajuda a manter o frágil equilíbrio que existe nesta região nas últimas décadas. A Ásia não é exactamente conhecida por ser o continente “da paz”, e sem querer ser pessimista, pode bastar um acender de um rastilho para espoletar uma crise sem precedentes. É mesmo assim, tão frágil, esta suposta paz trazida pelos resultados da economia, quando misturados com conceitos patrioteiros.

O facto do actual Chefe do Executivo honconguense C.Y. Leung ter deixado “cair” a ideia da Educação Patriótica não significa que os cidadãos da região vizinha se tenham visto livres deste “problema”. A disciplina passou a ser facultativa, e espera-se que num futuro próximo existam incentivos (financeiros, entenda-se) para que as escolas da RAEHK incluam a cadeira nos seus currículos. Um problema que fica portanto apenas adiado. Resta aos resistentes contar as armas e prepararem-se para futuras batalhas. É preciso contudo não esquecer que provavelmente os cidadãos de Hong Kong se sentem chineses como quaisquer outros, só que não estão para deixar que os ditames do partido único da China se imiscua nas suas liberdades garantidas
pela Lei Básica. E só por isso há que lhes tirar o chapéu.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O homem que mordeu o polícia


Li uma notícia na página do “crime” no Jornal Tribuna de Macau que me deixou de cabelos em pé. Um idoso de 72 anos foi autuado por fiscais do IACM – e bem – por andar a remexer nas latas de lixo à procura de cartão. Depois de se ter recusado a identificar-se, os fiscais chamaram as autoridades. Confrontado pela polícia, o velho tornou-se violento, agrediu um agente com uma bengala e mordeu-lhe uma mão, ao ponto do polícia precisar de tratamento hospitalar. De certeza que a dentada foi feita com vontade, caso contrário o sr. agente não precisaria de recorrer aos Serviços de Urgência – a não ser que seja feito de tao fu. O idoso incorre agora de uma acusação de ofensa à integridade física.

Estes senhores e senhoras que andam “ao cartão” julgam-se os reis de Macau. Revolvem as latas de lixo, deixando o entulho espalhado pelo passeio até encontrarem algo que lhes sirva (e ainda refilam quando alguém se queixa por não poder passar pela via, que é pública), invadem os supermercados durante as horas de funcionamento para levar as caixas de cartão, pisam latas na rua, enfiam a cabeça nos latões, parecem ratos gigantes sempre prontos a poluir a rua que é de todos. Há quem sinta pena desta gente, que muitas vezes nem tem necessidade de fazer isto para sobreviver, ao contrário do que acontece noutros locais onde existe gente que tem mesmo necessidade disto para comer. O idoso alegou a seu favor que “é reformado”, e que anda ao cartão “para melhorar a sua qualidade de vida”. Ora eu também estou a pensar em começar a assaltar bancos para “melhorar a minha qualidade de vida”. Apetece-me comer lagosta, beber champanhe e contratar prostitutas de luxo todos os dias, mas infelizmente o meu rendimento não chega para tal.

É tudo mesmo uma questão de dignidade. Isto são normalmente velhos desocupados que têm uma pensão que lhes chega para viver, mas como não têm nada para fazer, então entretêm-se com actividades que “dêem dinheiro”, mesmo que isso implique enfiar a cachola no lixo dos outros e ver o que se aproveita e que possa vender, nem que seja por cinquenta avos ao quilo. Chegam mesmo a andar ao estalo uns com os outros por causa de algum latão de lixo mais recheado. São o arquétipo da avareza e da sujidade. E faz favor de sair do caminho, ou arriscam-se a actos de semi-canibalismo, como aconteceu com o sr. polícia, coitado, que provavelmente precisou de levar uma vacina contra a raiva.

É interessante que independente da quantidade de cheques, subsídios, auxílios e outras vantagens que são dados a quem tenha um BIR – mesmo que seja velho, sujo, carunchoso ou moribundo – não chegue para satisfazer a ambição de alguns. Como podemos ter uma cidade limpa e decente se pela calada da noite temos estes agentes da reciclagem que deixam merda por todo o lado, quando alguns dos nossos simpáticos cidadãos até se dão ao trabalho de acertar nas latas do lixo quando despejam os sacos? Não há narinas que resistam, nem sapatos que não se arrisquem a dar um pontapé na porcaria que estes gajos deixam pelo caminho.

Lulas fritas


Aprendi uma expessão local muito curiosa hoje. Diz-se quando alguém é despedido que vai chao yao yu (炒魷魚), ou "fritar lulas". Mas porquê fritar lulas? O que tem isto a ver com o facto de se perder o emprego? As origens desta expressão são profundas e obscuras.

Há muitos anos chegavam à região trabalhadores originários do norte da província de Cantão para fazerr os trabalhos mais duros, os conhecidos coolies. Eram indivíduos mesmo muito pobres, e todas as suas posses resumiam-sea uma pequena esteira, que desenrolavam onde se instalavam a trabalhar. Quando eram despedidos, enrolavam a esteira e iam embora. A esteira enrolava-se da mesma forma que as lulas se enrolam quando são fritas!

Fantástica alegoria, e aposto que nem imaginavam a origem desta expressão. Mas já agora deixo uma recomendação: quando fritar lulas, corte-as às rodelas. Assim não se enrolam e não se arrisca a perder o emprego. Por falar em lulas fritas, agora até marchavam...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Deficiências


1) Terminaram no último Domingo os 14ºs Jogos Paralímpicos, realizados em Londres, onde algumas semanas antes se tinham realizado os jogos "normais". Tenho escutado e lido algumas críticas à pouca cobertura que é dada a esta competição, com uma transmissão televisiva internacional que se cifra apenas numa mísera fracção dos Jogos de Verão. Permitam-me fazer aqui de advogado do Diabo, mas não faz lá muito sentido que se dê uma cobertura mais mediática aos Paralímpicos. Talvez um pouco mais que o nada com o que somos brindados, certo, mas dificilmente se poderia entender se o destaque fosse o mesmo. Não tem nada de comercial ou sequer de competitivo ou emocionante ver nadadores sem braços, corredores cegos ou sem pernas, ou desportos adaptados a indivíduos que sofrem de deficiência mental profunda evidente. É preciso estômago para assistir a tudo isto. Existe ainda uma grande dose de comiseração que impede que estes jogos sejam levados a sério. Ninguém conhece os atletas Paralímpicos, talvez com excepção dos mais mediáticos (Pistorius, Zanardi), e os verdadeiroa heróis, os que batem recordes, os que vendem sapatilhas, camisolas e bebidas isotónicas, estão nos outros Jogos. Mas o que se retira destes Jogos Paralímpicos? Uma grande dose de esperança, sem dúvida. Olhemos para o exemplo de Macau, que levou dois atletas. Fosse Macau membro de pleno direito do COI, e dificilmente levaria um atleta que fosse aos Jogos Olímpicos (talvez a Paula Carion, apenas). Foram dois atletas, e outros há em Macau que trabalham no duro para atingir os mínimos que os permitam levar à competição mais importante para os deficientes (eu próprio conheço alguns). E é bom que haja quem leve o desporto em Macau a sério e de uma forma pelo menos semi-profissional. A mensagem que estes jogos transmitem é que existe esperança apesar de todas as adversidades, e é bom que as pessoas com deficiência se dediquem ao desporto, e que queiram competir e obter resultados. De nada adianta o tom paternalista de quem diz que "os resultados são o que menos importa". De certeza que os resultados importam para quem compete nestes jogos, mesmo que os outros considerem-nos apenas os "jogos dos coitadinhos".

2) Outra "deficiência" prende-se com a capacidade do regime chinês comunicar com o resto do mundo. O vice-presidente chinês Xi Jinping não é visto em público há 11 dias, e muito se especula sobre o que se passa com o homem que supostamente tomará as rédeas do país depois do 18º congresso do PC chinês a realizar no próximo mês. A passagem de testemunho de Hu Jintao para Xi parecia mais que certa há alguns dias, mas o desaparecimento do vice levanta uma onda de especulação preocupante. Alguma imprensa regional fala de um eventual problema de saúde, enquanto a imprensa ocidental especula sobre um volte-face súbito nos bastidores dos jogos de poder em Pequim, que terão virado a mesa contra Xi Jinping. Não são despiciendas as teorias da conspiração, uma vez que o cargo de líder máximo da RP China tem muito mais importância hoje do que tinha há 20 ou 30 anos. É claro que se estivesse tudo bem com o senhor ele já tinha dado a cara, até para acabar com este "diz-que-disse" que tem enchido a imprensa um pouco por todo o mundo. O planeta quer mesmo saber com quem negociar nos próximos dez anos, no que toca a uma das maiores potências económicas e militares do mundo. Em qualquer grande potência a informação corre a milhares de quilómetros por segundo, e neste aspecto a China ainda está a dar os primeiros passos. Ou quem sabe somos nós que estamos enganados, com esta nossa mania da "mentalidade ocidental"...

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Educação precisa-se


1) Arrancou mais um ano lectivo na Escola Portuguesa de Macau, e ao contrário da tendência dos últimos dez anos, o número de alunos aumentou. E o número de professores também. São agora perto de 500 os jovens que adquirem a sua educação no edifício da antiga Escola Comercial, alguns originários de sítios tão díspares como o Reino Unido, Colômbia, Filipinas ou Guatemala. O ano preparatório - introduzido há 3 anos para ambientar alunos cuja língua materna não é o português - tem sido um caso de sucesso, e a EPM ganha vantagem em relação às escolas internacionais do território pelos preços bastante mais acessíveis - e pela qualidade do ensino, porque não? É de salutar que a EPM esteja em alta, e talvez aqueles que tenham previsto o seu fatídico encerrar possam agora arrumar a viola no saco e ir pregar para outra freguesia.

2) A mão-de-obra em Macau não tem formação superior, e existem 78 chefias na Administração que não têm um curso universitário. Há quem diga que a competência está acima de tudo, mas isso é conversa para boi dormir. Quem exerce cargos de chefia na RAEM e não tem formação superior só se pode ter encostado à figueira, uma vez que os níveis de exigência actuais são (ou deviam ser) muito maiores. Já que os empregos na administração são agora os mais apetecíveis, é apenas normal que sejam reservados aos melhores, aos mais bem preparados, àqueles que estudaram, e não aos preguiçosos e aos nepotes. Quem não quer investir na sua própria educação não pode esperar um futuro equiparável a quem passa mais anos na escola e adquire mais elasticidade mental. Esta é uma diferença que se nota nos pequenos detalhes, e não vamos querer ter sapateiros a fazer-noa operações à vesícula, pois não? E este exemplo serve para qualquer outro caso.

3) Um estudo da Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM) revela que a população de Macau não está preparada para lidar com incêndios, revela o Hoje Macau na sua edição de hoje. Isto não é nenhuma novidade, a meu ver, e tem a ver com a natureza egoísta da nossa população. Basta ver a reacção dos indígenas cada vez que um elevador encrava, ou quando qualquer coisa rebenta: é um salve-se quem puder. Não existe preparação para casos de emergência, é claro, pois Macau não é conhecido por um local onde as tragédias são normais. Mesmo os exercícios de incêndio são autênticas pakhaçadas onde a maior parte dos intervenientes se diverte em vez de tomar consciência de que uma tragédia deste tipo pode mesmo acontecer. Enfim, mais educação é mesmo necessária.

sábado, 8 de setembro de 2012

Burriquito


Lembrei-me disto, de quando era pequenino. É bom recordar.

Dar o braço a torcer


1) O Gabinete para as Infra-Estruturas e Transportes (GIT) está debaixo de fogo, depois de relatórios que apontam graves falhas e derrapagens nas obras do metro-ligeiro, o tal que qualquer dia vai aparecer aqui pela RAEM. As derrapagens são apontadas pelo Comissariado de Auditoria (CA), que só não e percebe porque fica tão quietinho noutras situações que talvem mereçam um olhar mais atento, enquanto que as irregularidades, lá está, são apontadas pelo Comissariado Contra a Corrupção (CCAC). O aspecto mais mediático desta notícia prende-se com a putativa passagem do metro ligeiro pela Rua de Londres, no NAPE, onde há anos que os moradores se queixam: não querem ter o metro a passar perto da sua janela. Surpreendem-me os conhecimentos técnicos do CCAC, que basicamente dizem que o GIT "fez mal" em alterar o percurso original da Av. Dr. Sun Yat-Sen, alegando "critérios pouco claros e falta de rigor científico". Isto vale por dizer que os agentes do CCAC percebem mais disto que os engenheiros do GIT. Uma vitória para os moradores da Rua e Londres e Rua da Cidade do Porto, que assim poderão dormir mais descansados. O GIT coça a nuca, e muito provavelmente acatará as recomendações do Comissariado.

2) Quem também deu o braço a torcer foi o Executivo da RAE de Hong Kong, aqui ao lado, que depois de semanas de protestos não vai avançar com a ideia da Educação Patriótica nas escolas. Apenas seis escolas da RAEHK incluíram esta disciplina nos seus currículos, algumas aproveitaram o adiamento de um ano inicialmente proposto pelo Governo, enquanto as escolas baptistas deixaram bem claro: "nem daqui a um ano, nem nunca". A esmagadora maioria da população da RAEHK está contra esta iniciativa, que consideram uma intromissão nas liberdades garantidas pela Basic Law honconguense e uma tentativa de "lavagem cerebral" por parte do continente aos jovens da ex-colónia britânica. O chefe do executivo da RAEHK, CY Leung, cancelou mesmo uma reunião da APEC em Vladivostok, na Rússia, temendo uma escalada dos protestos, que incluiram greves de fome por parte de alguns estudantes. Assim a Educação Patriótica fica para as calendas gregas, e o executivo da RAEHK terá de encontrar outras formas de agradar aos patrões em Pequim. Parece que ao contrário do que aconteceu em Macau, os britânicos deixaram a lição bem estudada em Hong Kong. Sejam vós próprios e não aquilo que vos impõem. Uma bofetada de luva branca para aqueles que são mais papistas que o papa.

Portugal sofre para vencer no Luxemburgo


Luxembourg 1-2 Portugal 发布人 simaotvgolo12
Portugal entrou a ganhar no Grupo F da zona de qualificação europeia para o mundial de 2014, no Brasil, ao vencer no Luxemburgo por duas bolas a uma. Uma vitória arrancada a ferros e uma exibição pobre, falta do tal empenho que Paulo Bento prometeu. Portugal esteve mesmo em desvantagem, quando David da Mota colocou a equipa da casa a ganhar, aos 13 minutos. Um grande remate do jogador de origem portuguesa. Portugal reagiu, e C. Ronaldo empataria aos 27, num lance precedido de falta sobre um jogador luxemburguês, e Postiga deu a vitória aos lusos no início da segunda parte, com um belo gesto técnico e remate, isolado em frente à baliza do Luxemburgo. Nos outros jogos do Grupo F a Rússia bateu a Irlanda do Norte em casa por 2-0, enquanto Israel não foi além de um empate a uma bola no Azerbeijão. Portugal defornta os azeris na próxina terça-feira, em Bragança.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Anda comigo ver os aviões

É provavelmente o maior escândalo no ramo do imobliário desde a criação da RAEM: o governo anulou a revisão da concessão dos oito lotes de terreno onde ia ser construído o La Scala, mais um projecto de habitação de luxo, localizado perto do aeroporto internacional de Macau. A primeira concessão, de cinco lotes, tinha sido feita pelo ex-secretário Ao Man Long, que como se sabe apanhou anos de cadeia suficientes para contar todos os seus (poucos) cabelos várias vezes, a para tal recebeu subornos de dois empresários de Hong Kong, ainda a contas com a justiça. O despacho agora anulado foi assinado pelo actual secretário, Lau Sio Io. Se os primeiros cinco lotes eram "sujos", é natural que estes três que o actual responsável das OP validou fossem também "arrastados pela lama" em que tudo isto se transformou.

O La Scala, que retirou o nome da sala de ópera de Milão, é um projecto ambicioso; 26 edifícios que incluem apartamentos, áreas de lazer, espaços comerciais e uma área ajardinada. A concessionária responsável pela obra chama-se "Moon Ocean", outro nome cativante. Parece bonito, sem dúvida. Escusado será dizer que cada "tirinha" do La Scala ficaria à volta de dez milhões de patacas, ou mais. Chama-se em chinês Hoi Nam, ou seja, "mar do sul". Ali não se vê praticamente nenhum mar, quanto muito aterros, fica localizado mesmo junto do aeroporto, pelo que será possível ouvir o barulho dos aviões, e próximo da central de incineração da Taipa. Se fosse habitação económica que estivesse ali a ser construída, toda a gente lhe cuspia em cima, mas como é caro, só pode ser bom.

Este é mais uma daquelas coisas difíceis de perceber. Apesar de estar muito longe de concluído, o La Scala já tem compradores, que já fizeram entrar nos cofres da RAEM as avultadas quantias respeitantes ao imposto de selo, que agora pensam em ver devolvidas. Quem compra algo que custa milhões e nunca sequer viu? Mais um negócio "à Macau", o local que lava mais branco. Mas pronto, olha, se no futuro tivessem algum problema com a justiça, pelo menos sempre têm o aeroporto ali à mão.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O Toni é o meu treinador! Hic!


Imagens que nos chegam do país dos ayatolas, onde Toni, o irredutível do bigode, treina agora um tal de Tractor Sazi, de Tabriz. O ex-treinador do Benfica "passou-se" durante uma conferência de imprensa e mandou os jornalistas todos para o c... . Não sei se eles perceberam, mas de certeza que ficaram esclarecidos sobre com quem se metiam. Já dizia o Manel Viva-o-vinho, ex-presidente da agremiação do bairro de Benfica: "O Todi é o beu treinador!". E a propósito, que pomadinha têm eles lá no Irão?

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A ditadura das telecomunicações


Queria hoje falar da CTM, mas isto depois de lá ter ido esta tarde, ter sido bem atendido e em menos de meia-hora, e ter saído satisfeito. Só assim posso falar da Companhia de Telecomunicações de Macau sem recorrer ao uso de palavrões. Quer dizer, num dia em que tenha sido mal-tratado, não é nada conveniente escrever, uma vez que se está de cabeça quente. Assim, de cabeça fresquinha, continuo a dizer que estamos a cair num grande engodo. O monopólio das telecomunicações exercido pela CTM foi longe demais, e é preciso encontrar alternativas. Em mais nenhum lugar civilizado no mundo existe uma (1) companhia de telecomunicações em regime de monopólio. E aqui aplica-se aquela máxima que nos deixa sempre lixados: não gosta, não coma.

Já fui feliz sem a CTM. nos primórdios da internet em Macau. Não sei se estão lembrados, mas por volta de 1996 era grátis entrar na internet ao fim-de-semana, e era quase impossível obter ligação. Quando se conseguia, deixava-se ligada o fim-de-semana todo, e era uma sorte quando não "caía". Fui cliente daquela companhia meio pirata que exisitia por trás do Leal Senado, e cujo nom não me recordo (seria Unitel?), que era mais barata e oferecia "unlimited usage", que era um conceito estrangeiro para a CTM naquele tempo. Mesmo agora uma ligação sem tempo de usagem limitado custa por volta de 300 patacas mensais, que digas-se de passagem, é um roubo - pelo menos pela qualidade de serviço que oferece.

Mas helas, a tal companhia pisgou-se, a CTM reforçou o seu monopólio e lá acabei por aderir. Antes de casar vivia sozinho, e cheguei a ter rede fixa, internet e telemóvel, todos a pagar na CTM. Uma vez atrasei-me no pagamento da rede fixa (puro desleixo), e cortaram-me tudo! Aí está uma belíssima estratégia ara obrigar as pessoas a pagar as contas: isolá-las do mundo. Afinal tinha as contas do telemóvel e da internet pagas a tempo e horas, e é difícil aceitar que nos cortem serviços que estão pagos. Este monopólio é perigoso e não resulta. É um "1984" ao contrário, em que os cidadãos se deixam escravizar pelo "Big Brother", que nem precisa de impôr a sua força: não tem concorrência. É preciso aceitar, ou então mudar para a rede de telemóveis da Hutchinson ou da SamrTone, ambas subsidiárias da CTM. É ser tratado abaixo de cão na mesma, só por outros gajos "novos" e mais "giros".

E do serviço, é melhor nem falar. Não percebo porque é que as lojas da CTM misturam clientes que querem comprar um aparelho de telemóvel com outros que apenas querem mudar de pacote ou pedir informações. Os que vão comprar telemóveis são normalmente chineses, compram os aparelhos mais caros, e como é um "grande investimento", um "momento especial", é preciso levar a família toda. Claro que como é uma compra cara, os senhores não saem de lá sem aprender como trabalhar com o telemóvel: é um curso instantâneo, às vezes de "apenas" uma hora e meia. Quem se desloca a uma das lojas da CTM e tira, digamos, o nº 40 e estão a atender o nº 33, são pelo menos duas horas de espera. Para quem deseja mesmo comprar um telemóvel é uma maravilha. Fica ali a tarde toda a conversar com o simpático rapaz/rapariga do balcão, que lhe vai passando os recibos e abrindo os pacotes, oferecendo isto e aquilo, que depois vai-se a ver e é uma autêntica bosta.

Claro que muita gente não está satisfeita com a CTM, há os apagões, a velocidade (ou falta dela) e tudo mais, mas fazer o quê? É a única opção! Não adianta os plankings ou os abaixo-assinados e demais protestos. Vós tendes o que a senhora vos dá. E vamos não esquecer que isto é Macau, um misto de escolas de economia, desde os negócios do tipo familiar ao liberalismo e capitalismo desenfreados. E é preciso não esquecer que a CTM é uma empresa "tradicional" do território (tal como a CEM, SAAM, etc.), emprega muita gente (mesmo muita), e "lixar-lhes"a vida era mandar gente para o desemprego, e isso ia causar "instabilidade social". que vai contra a "harmonia", que como se sabe é essencial para que contiemos aqui, uns a encher os bolsos, e outros vivendo como podem. Porque acreditem, a vida lá fora também não anda nada fácil. Mesmo com muitas mais opções e preços mais convidativos nas telecomunicações.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Primeiras notas de Setembro


- Leio na página do "crime" do JTM que Macau está cada vez menos seguro. Depois de na sexta-feira passada ter lido sobre o pai que esfaqueou acidentalmente a filha por causa de uma discussão sobre dinheiro do jogo, hoje foi um carro arrombado e uma casa assaltada, com prejuízos significativos para as vítimas. A taxa de suicídios é também "preocupante", segundo o presidente da Cáritas, Paulo Pun. Isto está cada vez pior, e não devia ser assim. Então não é macau um oásis de segurança e de prosperidade? Então porquê tanta gente desesperada e tantos amigos do alehio? Ah sim, e há cada vez mais condutores bêbados também.

- Com a chegada de Setembro, dá-ae o regresso às aulas, e com este a confusão do costume, especialmente durante os primeiros dias. A DSAT esteve debaixo de fogo devido a problemas tão díspares como sejam o escoamento do trânsito ou a falta de autocarros - como se isso fosse inteiramente da responsabilidade deles. Outro problema de Macau que se agrava cada vez mais. Há mais alunos, há mais famílias, há mais carros, e há cada vez mais condutores irresponsáveis e incompetentes. Mais das tais cartas "tiradas na farinha Amparo". E como Macau é, como se sabe, muito apertadinho, este novo fluxo rodoviário vai eventualmente entupir o ralo do trânsito. E como tarda o metro-ligeiro, não se espera que apareça uma solução milagrosa para aliviar a asfixia. Adaptando aqui as doutas palavras daquele pequeno gigante evisionário, Deng Xiaoping: "ter carro é glorioso".

- Foi com alguma surpresa que li a entrevista de Ivo Carneiro de Sousa ao Ponto FInal. O agora ex-vice-reitor da Universidade de São José (USJ), dá com a boca no trombone, e admite que existiam mesmo alunos daquela instituição de ensino que não tinham qualidade para passar, e passavam na mesma. De recordar que a USJ esteve debaixo de fogo há uns anos quando recaíram sobre ela suspeitas de facilitismo. Recordo-me também nesta altura este mesmo senhor (ou seria outro?) explicar que isto era normal, e que havia alunos que apesar de serem fraqunhos davam o litro e tal. Ora agora ficamos completamente esclarecidos.

- Três estudantes que protestavam contra a cadeira de Educação Patriótica em Hong Kong interromperam uma greve de fome depois de três dias "por motivos de saúde". Ora, não se pense mal destes pequenos Gandhis, nem duvidem da força das suas convicções. Foram só fazer uma pausa para almoçar...

Como é importante o contexto...


Sem dúvida que fora de contexto, dá azo a mal-entendidos. Leia aqui do que se trara.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Os amigos orientais de Baco

Porca de Murça, um nome bestial para um vinho.

O vinho português tem tido um enorme sucesso na China, e em Macau também, por tabela. Aí está uma mina de ouro: os chineses tornaram-se refinados, ouviram dizer que beber vinho é “chique”, que é “bom gosto”, que “faz bem”. Ora, eu até bebo, mas para mim é tudo igual. Não sei se o vinho português é melhor que o francês (pelo menos é mais barato), e praticamente todo o vinho que bebo é no Verão em forma de 1) vinho verde geladinho e 2) sangria. Quando janto fora e um simpático turista de Hong Kong me pergunta “que vinho tinto português lhe recomendo”, respondo sempre: “o segundo mais barato”. Assim o amigo não passa por pindérico e não paga mais por praticamente a mesma pomada. Em todo o caso se fosse um “conaisseur” não me perguntava nada, então para quê gastar mais e usufruir exactamente da mesma experiência? (A bebedeira?).

Tenho uma relação estranha com o álcool; gosto do sabor, gosto do “kick”, mas sou mais uma pessoa de long-drinks, tipo Campari ou Vodka com qualquer coisita. A primeira vez que apanei uma piela tinha quinze anos, e considero que aguento bem a minha bebida. Mas isso do vinho tinto pesa-me imenso no estômago, e se beber demais arrisco-me a fazer uma feijoada, se é que me entendem. Existe mesmo uma profissão de “enólogo” (e é uma cadeira do curso de hotelaria e turismo no IFT), que é suposto ser um tipo que é pago (!) para degustar a vinhaça: cheira, põe na boca, bochecha e depois cospe! Haja dó! Aquilo é só em part-time não é? Ninguém vive de fazer só aquilo pois não? Existem mesmo confrarias do vinho. Uma óptima desculpa para se meter nos copos.

A verdade é que nos últimos dois anos ou isso aquelas herdades e adegas com nomes giríssimos têm tido encomendas…da China! Mesmo em Macau tem sido um arrepio de novos empresários em part-time que se dedicam a vender vinho português. Ainda um dia destes vi um advogado português, figura bem conhecida da nossa praça, a levar pelas próprias mãos um carrinho com caixas de um tinto qualquer “para vender aos chineses, que andam cheios de sede, porra!”. Ajuda se conhecermos o proprietário de alguma Quinta do Merdil, Herdade do Pirolito ou Adega da Zarolha, que nos mande assim umas garrafitas da última colheita, “por um preço simpático”.

Em todo o caso que as vendas lhes corram bem, apesar dos consumidores não saberem sequer o que estão a comprar. Lembro-me aqui há uns anos a moda do Cognac, o VSOP da Rèmy-Martin (ulala) que era consumido às refeições, de copo cheio. Já vi clientes a mandar para trás garrafas de vinho tinto “porque não estavam frias”. Mas quem quer saber? Mandem para cá mais garrafitas de tintol e quejandos, que negócio é negócio. Mas para mim é igual ao litro de tinto que custa 55 paus e uso para fazer sangria. E não se esqueçam de mandar mais daquela excelente marca, “Irmãos Unidos”, na sua versão branca e tinta, que pela módica quantia de 20 patacas por garrafa, tempera as caldeiradas e os bifes. Agradecido.

Vídeo da semana

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A teoria do caos (revisitada)


O deputado e presidente da ATFPM, José Pereira Coutinho, está numa peleja pela manutenção dos subsídios de férias e de Natal dos pensionistas da RAEM, que recebem o seu dinheirinho através do estado Português. Como se sabe as coisas não estão nada bem lá na Tuga, e prevê-se que hajam mais cortes no orçamento em Novembro, mais impostos, e todos esses horrores a que os nossos compatriotas estão sujeitos lá na "sede". Portanto tudo indica que vão haver cortes para os pensionistas, apesar da esforçada tentativa de Pereira Coutinho e um ano das próximas eleições (isso é só coincidência, claro).

Ora bem, eu penso que deverão haver mesmo cortes, e porque teriam de ficar estes "portugueses" também excluídos? Não existem portugueses de primeira, nem de segunda. É certo que isto são "idosos na sua esmagadora maioria de etnia chinesa", mas são portugueses també, e isso deve ser tanto para o bem como para o mal. De recordar que o Estado português comprometeu-se a pagar estas pensões depois de 1999, uma vez que os beneficiários descontaram durante o seu serviço - ou o dos seus familiares - durante a adminisração portuguesa. É pena que tenha corrido para o torto, mas é assim mesmo a vida com altos e baixos. Apenas "altos" em termos de pilim, só mesmo em Macau.

Esta situação fez-me recordar a saudosa "teoria do caos" que tanto estava na voga durante o período pré-administração portuguesa, e que consistia basicamente num cenário aterrador: iam acabar as liberdades, os chineses "iam-se vingar" e os estrangeiros que cá ficassem eram loucos. Isto levou a uma debandada geral para Portugal, onde o Governo generosamente abriu os braços a funcionários públicos que só tinham seis meses de Macau, em alguns casos. Para isto também não ajudou nada o último governo, que aconselhava a retorno. Trauma da última descolonização, que como se sabe foi uma grande trampa. O último Governador deixou um conselho aos que ficavam: "aprendam Mandarim. Pois é, iamos ficar aqui todos a falar com os mandarins, como faziam V.Exas.

Não quero que o leitor pense que fui muito inteligente em ter ficado por cá, apesar de poder ter optado, mas a verdade crua e nua é que tive medo de voltar para lá. A sério. Ou medo ou preguiça. Nasci lá e fiquei o tempo suficiente para saber que sejam quais for os intérpretes, laranjas, rosas, pretos ou azuis, o problema é "estrutural", para ser simpático. Por isso preferi ficar aqui com os pangiaos. Cheguei a estranhar que muitos dos que saíram fossem macaenses nascidos em Macau. Então eu que sou mesmo de lá não quero ir e vocês querem? A resposta saía sempre na forma da tal teoria do caos: os chineses iam pisar-nos em cima, apesar de terem garantido que não, e pronto, era isso que ia acontecer.

Mas não foi assim, nem será. Para quê, chatearem-se connsoco, que até somos uns gajos que trabalham e não fazem muitas ondas? Muitos voltaram e outros querem voltar, e fazem bem. Ninguém precisa de ficar a pagar pelos erros para o resto da vida. Agora quanto aos pensionistas...bem, coitados, mas não estÃo assim tão mal quanto isso. Citando Pereira Coutinho, recebem "entre 550 e 11000 patacas mensais". Entre 550 e 1100 euros, portanto. Não estão assim tão mal, comparando com a esmagadora maioria dos pensionistas em Portugal. Estão mesmo melhor que uma grande parte dos que ainda se esfolam a trabalhar. Pode ser que o Governo da RAEM lhes dê uma mãozinha.

For a few patacas more


O divertido deputado Fong Chi Keong volta a estar nas bocas do mundo. O empresário a construção (sobretudo isso) defendeu-se das acusações de preferencialismo por parte do Governo na realização de obras no palácio da Praia Grande por parte da sua empresa, a "Man Kan" (assim baptizada com o nome do pai de Fong, que também já era rico). Fong diz que o Governo "tem confiança nele!" (ena!), e como as obras são no palácio, sabe-se lá se outros gajos que não se conhece de lado nenhum deitem as mãos às pratas? E assim é adjudicada à Man Kan mais uma obra a realizar em duas secretarias do palácio, com um custo de 44 milhões de patacas em dois anos. Náo admira que o senhor empresário nunca se queixe de nada, basta bater a pala lá no hemiciclo e pimba! mais umas obrinhas de milhões. Depois ainda se diverte a dar conselhos parvos a quem anda mais à rasca, e opiniões ridículas sobre os vários problemas que se debatem na AL. Coisas do tipo "comam e calem-se, e toca a trabalhar". O anedotário deste senhor já dava para escrever um livro, e perto dele outros cromos como Shuen Ka Heung parecem génios. Teve imensa piada quando ele descreve os problemas do palácio...precisa de renovação, tem infiltrações, e tal. Isto vindo de um indivíduo que nunca pegou numa picareta na vida. Numa picareta propriamente dita, pois a "picareta" do disparate sabe ele manuseá-la como ninguém. Ele diz assim com um ar muito natural que "o Governo encomenda as obras e eu só mando lá ir fazê-las". O senhor manda. E assim vai Macau...temos na AL os gajos das obras, o dono dos restaurantes e mais um grupo de gente que tem qualquer coisinha para vender. E o Governo tudo compra...

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Afinal pode-se ou não?


Esta imagem foi recolhida num portão aqui perto de casa, e a mensagem é confusa: "Propriedade privada, não trespassar! A entrada não-autorizada é permitida". Que diabo, afinal pode-se entrar ou não? Será uma armadilha? Estará lá algum maluco que nos convida a entrar e depois dá-nos com a moca na cabeça e depois diz: "Eu avisei!", rindo-se tresloucadamente? Mistério. Ah sim, já me esquecia..."porque Macau sã assi, mas também sã assado". Com a devida vénia....

Liberdade para as Pussy Riot!



Ainda não tive oportunidade de comentar um dos temas do momento, as Pussy Riot (eheh, o nme dá mesmo vontade de rir), o grupo russo que tem 3 elementos detidos por "sacrilégio". Ora eu acho muito bem que tenham invadido aquela igrejola ortodoxa russa como forma de protesto pelo conluio entre aquela e o sinistro presidente Vladimir Putin. É uma forma de protesto como qualquer outra. Se Deus tivesse ficado mesmo zangado, tinha-lhes mandado um raio em cima. A cumplicidade entre Igreja e Estados-assim-não-muito-democráticos foi sempre perigosa; basta lembrar a forma leviana com que o Vaticano pactuou com o nazismo, por exemplo. As Pussy Riot são vítimas da censura e de Putin, que qual czar, quer restabelecer o Clero no país dos oligarcas. Já agora vejam o vídeo até ao fim, são menos de dois minutos e vale mesmo a pena.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Oito ou oitenta

Vão viver com os pandas, meus amigos "económicos"...

“Oito ou oitenta”…eis uma expressão que gosto de usar, e que cada vez mais se aplica a certas coisas que se passam em Macau. Serve para descrever um pouco do que se passa na nossa Administração e não só, onde o desleixo em relação a certos problemas e o cuidado exagerado com outros, que muitas vezes não se justificam. Quando acontecem as falhas (e há muitas), muda-se completamente de orientação, tomando-se posições rígidas, sem qualquer tipo de flexibilidade. É o oito ou oitenta, portanto. O que faz falta em Macau é o 44.

E de quem é a culpa de tudo isto? Dos nossos dirigentes, quadros superiores e chefias, que ainda se escudam na desculpa da “falta de experiência”? Da “juventude” da RAEM? Porque não olhar aqui para o lado para a vizinha RAEHK, apenas dois anos mais velha, e onde a “máquina” é muito mais bem oleada. De que serviram as acções de formação em Singapura e quejandos nos primórdios da criação da RAE? Não quero acreditar que seja apenas incompetência ou má vontade; existem dirigientes inteligentes, trabalhadores e competentes. O que existe por vezes é um certo autismo, uma certa falta de humildade e uma enorme falta de comunicação de cima para baixo. Que se procure melhorar o mais rapidamente possível, pois sinceramente a imagem que se tem de Macau é que não existiria se não fosse pelo “combustível” dos casinos.

Desculpem lá o desabafo inicial, mas o que eu queria mesmo falar era das tais habitações económicas que o Governo disponibilizou em Seac Pai Van e agora (quase) ninguém quer. Muito se tem dito sobre este tema, as opiniões divergem, mas para mim o essencial é o seguinte: não querem porque é em Coloane! Isto não se faz, mandar pessoas que nasceram e sempre viveram na península de Macau para Coloane, lá para o pé dos pandas. É como os mandar para “os pandas que os pariram”. É preciso não esquecer que estas casas “económicas” não são propriamente dadas; custam à volta de um milhão de patacas, que não é dinheiro que se tem na fruteira lá de casa. Se as pessoas gastam este dinheiro e exigem continuar a viver em Macau, estão no seu pleno direito. Se concorreram à habitação económica é porque necessitam dela, certo, mas não são obrigadas a ir viver…em Coloane!

Quer dizer, se isto são pessoas sem posses (!?) não acredito que tenham um Mercedes para se deslocarem todos os dias a Macau para trabalhar. E isto são cerca 300 pessoas de que estamos aqui a falar, mais de 60 famílias. E quantos autocarros passam em Seac Pai Van, e com que frequência? Existe um mercado municipal ali perto? Olha…vão comer ao Fernando! Áreas de lazer? Vão à praia! E que escolas `volta do tal edifício Ip Heng? Vão aprender com o Hoi Hoi e a Sam Sam! Dá para ir a pé dali para algum lado? É quase como viver no deserto. Não é por acaso que o Estabelecimento Prisional de Macau fica em Coloane: é para ficar longe de tudo o que interessa. E em Macau propriamente dito? Não existem lcais para construír habitação económica? É oito ou oitenta…

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O idiota da semana


Todd Akin, congressista americano e membro do Comité de Ciência está nas bocas do mundo. Akin, que é também candidato pelo estado do Missouri às eleições de 6 de Novembro para o Senado norte-americano, afirmou basicamente que as mulheres violadas "nunca engravidam". De acordo com este senhor, que se assume contra ainterrupção voluntária da gravidez, o organismo feminino tem "meios para resolver o problema", isto se "a violação for legítima". Ou seja, o óvulo sabe muito bem se o esperma foi ou não convidado a lá entrar, e como que "repele-o" se se tratar de uma violação.

Isto é novidade para muita gente, e equivale por dizer que se uma mulher for violada e tiver engravidado, é na verdade uma badalhoca sem vergonha. Se calhar até estava a ser violada no início, mas depois gostou, a porca. Isto pode ser levado mais longe, e usado como prova em tribunal: se a magana engravidou, então nãO foi violada. É como o tal teste do algodão, que nunca se engana. Akin defende contudo que "caso alguma coisa falhe", e a mulher engravide após uma violação, quem deve ser castigado é o violador, e "nunca a criança".

Quem segue este blogue há algum tempo sabe que eu próprio so contra o aborto não-terapêutico, mas por razões completamente diferentes destas que se prendem com o conceito de que um embrião ou um feto é uma "criança", ou um ser vivo. Só que com gente desta do meu lado, ora motivada pela religião, o álcool ou a estupidez, fica difícil. Estou a pensar em mudar de partido.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Diaoyu e concurso


1) A questão das ilhas Daoyu é deveras preocupante para nós, que vivemos mesmo aqui no perímetro do problema. As ilhas cuja soberania é exercida pelo Japão e são disputadas pela China e por Taiwan foram "esquecidas de devolver" depois da derrota do Japão imperialista na segunda guerra, e agora tanto a República Popular como a ilha nacionalista as querem de volta, estes últimos com o argumento de que pertenciam à China nacionalista antes da ocupação nipónica, e ainda antes da fundação da República Popular, lá está. É claro que estas ilhas são ricas em recursos naturais, senão ninguém queria saber delas para nada, até porque nem sequer são habitadas. A detenção dos catorze activistas na semana passada terá sido um acender de um rastilho de um imenso barril de pólvora. A animosidade ficou ao rubro - principalmente do lado da China - que considera isto um "insulto". Apenas um pequeno aparte: os manifestantes foram detidos pela polícia japonesa, algemados, é certo, e depois repatriados com uma enorme rapidez. Não há notícias de terem sido maltratados, humilhados ou abusados mesmo que verbalmente por alguém. Gostava de saber o que teria acontecido numa situação homóloga. E se fosse a China a exercer a soberania das ilhas e estas fossem invadidas por manifestantes japoneses? Mas adiante. As manifestações de nacionalismo exacerbado sucederam-se um pouco por toda a China, com uma forte compnente anti-nipónica. Em Shenzhen uma fábrica de automóveis japonesa foi atacada, a até uma viatura da polícia foi virada ao contrário simplesmente por ser da marca Toyota. Foram vários os jovens entrevistados (mesmo em Macau!) a dizerem que "detestam o Japão" - apesar de muitos deles adorarem sushi e comprarem produtos japoneses. Isto não é patriotismo, daquele que se vê nos jogos de voleibol feminino ou de pingue-pongue entre os dois gigantes asiáticos. Isto é nacionalismo da pior espécie, que não augura nada de bom. Recordo-me de ver uma gorda em Pequim nas notícias na última quinta-feira a "exigir que a China declare guerra ao Japão". Isto é gente que não faz a mínima ideia do que é uma guerra, e que consequências uma guerra entre estas duas potências militares significaria. Não acredito num conflito armado entre a China e o Japão por causa das ilhass Diaoyu, mas este é um assunto que tem que ser deixado nas mãos da diplomacia. Nunca nas mãos destes meninos.

2) Terminou hoje o prazo de entrega de inscrições para o concurso centralizado para a ocupação de vagas de técnico-adjunto na Administração Pública de Macau. Desde o último dia 2 que cerca de 20 mil (!) aspirantes concorrem a cento e poucas vagas, e entregam as suas candidaturas no Edif. Administração Pública, na Rua do Campo. Como hoje era o último dia, foi uma grande azáfama naquele edifício onde, como muitos leitores sabem, este vosso servo trabalha. É interessante como apesar do maná de empregos que são os casinos, os jovens da RAEM ainda preferem um lugar à sombra da grande Lótus. Sem dúvida, porque como diz uma expressão aqui da terra "não é preciso falar mentira". Os empregos na Administração são isso mesmo: empregos. O resto é simplesmente "trabalho". Na Administração não há turnos, não se trabalha aos Sábados e Domingos, gozam-se todos os feriados na sua plenitude, ganha-se bem sem precisar de ficar muito tempo de pé, e mais importante que isso, não é preciso aturar (muita) gente parva. O "governo" não é um patrão parvo de quem depende um emprego, e além disso não se fica sujeito às oscilações da economia. Pois é, e assim foi nos últimos 19 dias: milhares de jovens a fazer fila para arranjar um emprego onde "não é preciso trabalhar". Ai mei ah?

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Brasileiros invadem Ponto Final!!!


Os brasileiros tomaram conta do Ponto Final, um dos diários em língua portuguesa do território! Eis a prova irrefutável do fato...perdão, do facto, na edição de ontem. É contagioso, mermão! Porra, mermão não...ahhhh!!!!!!

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Preparado para o Kai-Tak


Está aí mais uma tempestade tropical, desta vez baptizada de Kai-Tak, vinda direitinha das Filipinas, onde fez sete vítimas mortais. O Kai-Tak dirige-se paulatinamente para o território, tendo sido içado o sinal nº 3 esta tarde, e prevendo-se que se mude para o sinal nº 8 nas próximas horas. Eu cá estou preparado para o tufão. Não comprei uma saca de dez quilos de arroz nem dois garrafões de cinco litros de água - se tiver fome e sede basta-me ir ao 7-11 aqui perto de casa. Mas abasteci-me com uma garrafa de litro de Stolichnaya e uns quantos Red Bull para me entreter enquanto o vento sopra leve, levemente. Não tenho que me preocupar mesmo com nada, pois a minha humilde casinha fica num terceiro andar e não corro o risco de ter a água a entrar-me pela porta. Mão tenho janelas daquelas grandes e modernaças, portanto não vou ter os cacos todos espalhados por cima da cama, nem há uma grua inclinada nas vizinhanças, pelo que não vou ter a bófia aqui à porta a dizer-me para sair. Às vezes é bom ser-se pobrezinho ou apenas remediado. Dizem que este tufão "não vai ser tão forte como o Vincent", que nos visitou há mais ou menos um mês, epá, e não me levem a mal, mas espero que seja tão ou mais forte. Um grande abraço a todos e esperem que fiquem em casa amanhã, no choquinho.

Portugal bate Panamá


Portugal derrotou ontem o Panamá por duas bolas a zero, num amigável destinado a preparar os compromisssos com vista à qualificação para o mundial de 2014, no Brasil. Um jogo morno que ficou marcado pelo festival de oportunidades de golos perdidas pelos avançados portugueses, espcialmente Hugo Almeida, que esteve muito mal. Valeu a pontaria de Nélson Oliveira na primeira parte, e de Cristiano Ronaldo na segunda. Portugal defronta o Luxemburgo no dia 7 de Setembro, e o Azerbeijão no dia 11.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Astronautas, atletas e outra fauna


1) Os astronautas chineses, tripulantes da Shenzhou-9, passaram por Macau nos últimos três dias. Milhares de residentes da RAEM atropelaram-se para ver os seus "heróis", num clima de grande exultação nacionalista. Sinceramente não tenho nada contra os tais taikonautas, que parecem gente simpática, inteligente, e que para variar até vieram aqui dizer qualquer coisa de jeito. O que não se aceita é a histeria e a idolização por absolutamente nada. E curioso que a China insista num programa espacial, quando as outras duas potências da conquista do espaço - os Estados Unidos e a Rússia - desinvestem a olhos vistos. E de seguida vêm aí os atletas olímpicos medalhados nas últimos jogos em Londres, e espera-se mais uma forte adesão dos patrioteiros locais, de bandeirinha em riste e gritinhos de bajulação, numa cerimónia perfeitamente coreografada, escrutinhada, selecionada. Uma falta de espontaneidade impressionante, tudo em nome do tal "amor à Pátria", quando se sabe muito bem que tanto astronautas como atletas olímpicos, esses "he'róis", vêm cá receber "o deles". Vocês sabem muito bem do que estou a falar, parafraseando o Octávio Machado. Para quê implementar a tal educação patriótica, de que os vizinhos de Hong Kong se queixam agora, em Macau? Ela já existe, é servida em colherzinhas de chá um pouco todos os dias, e os oumunian são mesmo bons alunos. Claro que durante estas visitas só os bons meninos se aproximam dos "heróis", e as perguntas incómodas ficam de fora. Eu por acaso só gostava de perguntar uma coisa aos tais taikonautas: o que sentem quando aquilo começa a subir? Eu cá borrava-me todo...

2) Tenho notado um aumento no número de visitantes de Portugal na RAEM, o que é bom, sem dúvida. O problema é que alguns dos nossos compatriotas, provavelmente acabadinhos de sair da Aldeia da Roupa Branca pela primeira vez na vida, comportam-se como autênticos saloios nas ruas de Macau. Grunhos da pior espécie. Existe aqui perto de casa uma alfaiataria chamada "Victor Emanuel", que diz na porta, ora, "Alfaiataria Victor Emanuel". Há duas semanas deparei com dois casais da tuga a fotografar aquilo, completamente embasbacados, e a dizer "olha...está escrito em português, 'tás a ver?", com o arzinho mais idiota do mundo, um orgulho besta sabe-se lá do quê. Esta manhã ia eu a passar pela Rua da Palha e em frente de uma vendedora ambulante de chu chong fan estava uma outra turista portuguesa a dizer ao marido: "Olha o que é aquilo? Parece lulas...". Lulas? Por amor de Deus. Depois há aqueles que pensam que são muito engraçados e fazem comentários idiotas e por vezes insultuosos aos chineses (qualquer dia têm uma surpresa). Faz-me lembrar um episódio durante a noite da transferência de soberania, que assisti em directo do Largo do Senado, e onde alguns visitantes portugueses riam dos nomes dos dirigentes chineses. Quer dizer, venham cá que a gente gosta, mas respeitem um pouco a cultura dos outros. O que iam achar se um turista chinês fosse a Fátima e risse dos fiéis que atravessam o santuário de joelhos? E olhem que isso dá mesmo vontade de rir....

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Olimpíada em revista


Terminou no Domingo XXX (30ª, para quem não conhece a numeração romana) olimpíada da era modena, disputada desta vez em Londres. O que tenho eu a dizer disto, que disse tão pouco? Ora, que quem ficou a ganhar com tudo isto foi a própria cidade de Londres, que voltou a parecer aos olhos do mundo como uma das mais modernas, cosmopolitas e desenvvolvidas. Foi a terceira vez que a capital britânica organizou os jogos, e apesar da sombra do terrorismo, esse flagelo do século que atravessamos, os jogos foram disputados na paz do senhor, sem quaisquer apontaementos relevantes quanto à segurança. Desconfio que nenhum senhor de barba ou turbante suspeitos ter'sido identificado ou revistado. Nem os atletas da equipa masculina de hóquei em campo do Paquistão.

Os fait-divers que envolvem os jogos são sempre mais interessantes que os jogos em si. Começámos com o caso da errónea bandeira coreana disposta numa partida de futebol feminino, passando por alguns casos de doping, das atletas holandesas lésbicas de hóquei em campo que dormiram em quartos separados "para bem da coesão da equipa" (e que deu resultado, a Holanda ganhou a medalha de ouro), e terminando no political statement do futebolista sul-coreano que reclamou as ilhas Dokdu como suas. A polémica que mais relevo merece, a meu ver, é a da equipa de badminton da China, que "atirou" de propósito um jogo para combinar uma eventual final com uma dupla sua compatriota. Um exemplo de mau olimpismo e de falseamento da verdade que merece toda a censura. Vergonhoso, e que só prova que a China ainda tem muito que aprender no capítulo do desportivismo.

Quanto ao que conseguimos ver aqui em Macau dos jogos, e com muita pena minha, reduziu-se às disciplinas em que existiam fortes possibilidades da China ganhar medalhas. Assim fomos massacrados com o pingue-pongue, o badminton, os saltos para a água, a ginástica. Tudo uma enorme chatice, e só compreendo que tudo isto tenha uma grande audiência porque no fim a China ganha (e nem sempre...). É o nacionalismo baccoco em todo o seu esplendor. Do resto só tenho a destacar Usain Bolt, duas vezes tri-campão das maiores disciplinas da velocidade nos jogos. Umm verdadeiro herói do olimpismo. O homem mais rápido do mundo, a quem só tem que ser reconhecido todo o mérito. Depois há Michael Phelps, o tal que ganhou (quase) tantas mdlahs como Portugal, sendo a maioria ouro. Com a quantidade de disciplinas que existem nas piscinas dos Jogos, certamente outros Michael Phelps existirão no futuro.

Uma nota final para a participação portuguesa. Mais uma vez, montes de cautelas e caldos de galinha. Mais uma vez? lembro-me de um senhor prometer muitas medalhas há quatro anos em Pequim, e agora vir com uita humildade dizer que "não se epseram medalhas nenhumas". A canoagem salvou a participação lusa e fez Vicente Moura parecer um santinho, quando vem agora dizer que "em Portugal não se aposta no desporto". Este senhor já se devia ter demitido há muito tempo. É daquelas pessoas que não faz falta nenhuma ao desporto em Portugal. Se somos pequenos e não podemos aspirar a medalhas, o melhor mesmo é afirmá-lo de início e não criar expectativas. O melhor mesmo é ter algum sangue novo no COP nos próximos jogos do Brasil, e deixarmos o sr. Moura descansar.

domingo, 12 de agosto de 2012

Go to beach please - um dia em Coloane


Os aficionados do Verão na praia ou no campo têm em Macau apenas uma opção: a ilha de Coloane. Claro que alguns leitores estão já a pensar "é mentira; existem as piscinas do Estoril em Macau, e do Carmo na Taipa". Ora, isso são peanuts. Para quem quer mesmo fugir do trânsito e da selva de concreto sem sair do território, Coloane é mesmo única opção. E foi isso que fiz hoje, apesar de não ser um dos aficinados que referi acima. Foi a manhã e parte da tarde na piscina de Cheoc-Van, e um poquenique ao fim da tarde no Parque de Hac-Sá. Foi agradável, apesar de o tempo meio chuvoso - uma vergonha para o mês de Agosto.

O que me chamou mesmo a atenção foi esta simpática placa colocada mesmo no meio da Colónia (?) Balnear de Hac-Sá: "Go to beach please". Curioso. Não sei o que está escrito em chinês, e mesmo o significado em inglês é ambíguo. Será que nos estão a dizer que a praia é mesmo boa e devemos lá ir? Será que estão a implorar? Será que isto é algum aviso para que não se faça ali qualquer porcaria que se pode antes fazer na praia? Um mistério. Em todo o caso respondo "no, thanks". Ir aqui a banhos na praia, e falando em "porcaria" é quase como ir à Índia. É preciso ter o boletim das vacinas em dia. Quando passei pela praia de Cheoc-Van esta manhã fiquei surpreendido com a quantidade de banhistas que nadavam, indiferentes às toneladas de lixo visíveis à beira-mar.

A zona de piqueniques, ou na sua versão inglesa "BBQ" (barbecue), é bastante aprazível. Exitem um pouco por todo o lado em Coloane, quer em Cheoc-Van ou em Hac-Sá, como ainda em Ka-Hó. Estão lá disponíveis fogareiros completamente gratuitos, e durante a época "alta" é aconselhável chegar cedo e marcar o lugar. Depois é só levar as carnes, os garfos, o carvão, os pratos e os talheres de plástico, mais as jolas e os sumos, e depois deixar o lugar todo cagado de lixo no fim do dia. Pelo menos com as latas podemos ficar de consciência tranquila, pois o que não faltam são aqueles cidadãos desocupados que as colecionam para depois as vender ao quilo no ferro-velho. São os habituais agentes da reciclagem em Macau, que "trabalham" enquanto os outros se divertem.

Depois foi o regresso a Macau, já a cheirar a fumo, frango e peixe grelhado - nada que um bom banho não resolva. Regressei no autocarro nº 26-A, e entreti-me a escutar o roteiro à medida que as paragens se sucediam, debitado pela voz gravada daquela adolescente. É engraçado que nos avisem da "próxima paragem" em quatro línguas: cantonense, português, mandarim e inglês, por esta ordem. Só que não compreendo a necessidade do inglês. Next stop; Baía da Nossa Senhora da Esperança, Istmo? What the dickens? Pelo menos não caímos no ridículo de ter um Bay of Our Lady of Hope, isthmus. Mas yes, pá, é um serviço mesmo spectacular. De partir o coco a rir.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O lixo é lixado


As duas profissões que eu jurei nunca vir a ter na vida são as de cozinheiro de comida de cão, e homem do lixo. Deixemos o primeiro, que é só parvoíce minha, e concentremo-nos no segundo. Não que eu desrespeite os homens do lixo, mas não conheço nenhum outro ofício onde toda a gente faz cara feia por onde quer que se passe. Nem o coveiro é tão desagradável. Não deve ser nada agradável ver toda a gente enjoada a tapar o nariz e a boca ou a cobrir a cara com a camisola quando passam os homenzinhos que recolhem o entulho das latas do lixo. Depois de um dia de serviço daqueles, nem dez banhos com Dettol do mais concentrado tiram o cheiro a raposa fétida.

Se há países ou territórios onde os homens do lixo são discretos - e sei que os há - esse não é o caso de Macau. No território a recolha é feita a horas bastante aleatórias, e vastas vezes nos deparamos na rua com o camião do lixo a fazer a sua tão necessária recolha horas tão díspares como as dez da manhã, as três da tarde ou as onze e meia da noite - curiosamente a hora a que escrevo isto e oiço o camião mesmo aqui à porta a fazer aquele barulho desagradável, pior do que o de uma empilhadora, ou de um disco dos Black Eyed Peas. Será culpa do IACM? Será que a recolha do lixo devia ser limitada a altas horas da noite ou de manhã cedo. Je ne sais pa, pá. A verdade é que o cheiro a lixo em Macau é desagradáavel, e o próprio lixo em si é, infelizmente, parte do cartão postal da cidade.

Não é raro encontrar imagens como esta que a foto documenta: lixo espalhado pelo chão, pelos passeios, e lixo daquele muito feio e mal-cheiroso. Do mais asqueroso que há. A julgar pela falta de pontaria dos cidaãos, pois muitos não parecem conseguir acertar naquele metreo quadrado em que consiste o latão do lixo, o cheiro deve ser mesmo muito ruim. Tão mau que dá lugar a uma nova espécie de modalidade olímpica: o lançamento do saco de lixo. Com resultados abaixo dos mínimos, é claro. Isto para não falar de uma certa classe que revolve os caixotes do lixo, "à procutra de qualquer coisa de valor", gente que nem precisa de fazer isso, mas que o faz na mesma, e que para isso mete-se com os dois pés dentro das latas do lixo. Desta gente é mehlor não falar. São o extracto mais baixo da humanidade.

Como qualquer outro cidadão civilizado e consumidor, produzo uns dois ou três quilos de lixo por dia. Tendo em conta que em Macau existe outro meio milhão de "civilizados" como eu, isto significa toneladas de lixo por dia para recolher por aqueles tais camiões com mau hálito. No Inverno a coisa ainda passa mais ou menos despercebida, pois o frio "congela" os maus odores - como nos cadáveres. No Verão, com o calor e a humidade mais a merda dos insectos, o problema torna-se maior. O pior é que esta gentinha ainda desconhece algumas regras básicas, como, sei lá? Os molhos e os caldos devem ser fechados em sacos de plásticos? E aqueles couves pútridas? E as fraldas cagadas dos bebés? Em todo o caso que nem se fale de reciclagem por estes lados. Todo o lixo, seja ele de que natureza for, acaba em cinzas n incineradora de Coloane. E olha, aí está outro sítio onde eu não gostava mesmo nada de trabalhar.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Cona! Perdão...Canoa!


Milagre! Aleluia! Osamas nas alturas! Portugal ganhou uma medalha nos Jogos Olímpicos de Londres! Quem diria? E tinha que ser na canoagem ou qualquer coisa assim. Canoagem, remo, vela, naufrágio em jangada, qualquer coisa que seja sinónimo de fuga para a frente. Foge, foge, que deu m...! E de barquinho, de preferência.

Mas agora a sério, a dupla Fernando Pimenta e Emanuel Silva está de parabéns, pois conquistou um brilhante 2º lugar para Portugal na corrida dos 1000 metros da classe K2 em canoagem, atrás de uns gajos húngaros. E o ouro esteve perto! E pronto, com isto fica salva a honra do convento, a participação é mais uma vez "positiva" e colorida com medalhas, e lá vai Vicente Moura ficar no COP até aos 120 anos, senão morrer antes. Parabéns aos nossos rapazes que ninguém conhecia até hoje.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Liu Liu, quem te viu...



Liu Xiang voltou a desiludir. O campeão dos 110 metros barreiras nos jogos de Atenas em 2004 voltou a ficar pelo caminho na primeira eliminatória, depois de se ter lesionado ao tropeçar na primera (!) barreira, e ter saído a coxear do Estádio Olímpico de Londres. Liu, que tinha desisitido em Pequim há quatro anos mesmo antes da prova ter começado, alegando "indisposição", desta vez não durou dez segundos até cair feito fruta madura. Muito estranho para quem provou uma vez que não tinha adversário à altura. O que se passa contigo, rapaz?

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Bolt mais uma vez


Usain Bolt voltou a fazer das suas. Quatro anos depois do ouro e do recorde mundial em Pequim, o homem mais rápido do mundo voltou a conquistar o ouro nos 100 metros, a disciplina que prova, exacatmanete, quem é o mais rápido do mundo. O jamaicano completou a distância em 9,63 segundos, novo recorde olímpico e segundo melhor tempo de sempre. Usain Bolt é provavelmente o melhor atleta de todos os tempos, o mais completo, o mais espectacular. Fiquem com o vídeo, que foi o melhor que consegui arranjar - isto dos direitos de transmissão já se sabe...

domingo, 5 de agosto de 2012

Sex, swimming pool & rock'n'roll - crónica de um dia de Agosto em Macau

O Verão em Macau é. como se sabe, uma bela merda. O calor, a humidade, as monções, os tufões, a chuva torrencial, o mau cheiro do lixo, tudo coisas que são contra a nossa natureza lusitana. Habituados outrora ao céu azul e ao tempo seco de Portugal, às praias limpas do Algarve e da Costa, ao casaquinho de malha à noite, custa-nos muito passar o Verão na RAEM, onde nem arrancando a pele se consegue algum alívio - mesmo à noite. É chato andar sempre com o corpo pegajoso, o ar-condicionado sempre ligado em casa, e mais chato se torna ainda quando se paga uma milena por mês de electricidade. Passar o Verão em Macau é como ficar à espera de um avião durante três horas num aeroporto sem casa-de-banho: tortura sem alívio.

Contudo não me importo mesmo nada de passar o mês de Agosto em Macau. Como sou funcionário público - como muitos dos leitores que conhecem a minha identidade já sabem - o mês oito é bastante tranquilo. Os advogados estão de férias, os prazos não correm nos tribunais, é tudo tranquilo, tranquilo. Se quiaser ir a Portugal é melhor ir em Julho, enquanto não chegam as carradas de emigrantes que enchem as praias e os parques com o cheiro a sardinha assada e pimentos a os cantantes que debitam os últimos sucessos do Tony Carreira (ou sempre os mesmos). Se não é para ir a Portugal, sempre se pode esperar alguns meses e ir às Filipinas, à Indonésia ou ao Vietname, e apanhar uns dias de calor enquanto o Inverno dita as suas regras em Macau.

Ora bem, e o que fazer num fim-de-semana de Verão em Macau? Ir à discoteca na sexta ou no Sábado à noite, porque não? Em Macau as discotecas "da moda" são o D2, o D3, o Cubic ou o Sky 21, para citar algumas sem precisar de puxar muito pela moleirinha. O D2 é um lugar que frequento com alguma assiduidade, e em termos mais simples, meus amigos, é um sítio do c...! Quem chegou a Macau mesmo agora e quer abanar o capacete, o D2 é o sítio. Para os homens então, nem se fala. Cheio de boa pescaria. Quer dizer, é bocetame de primeira apanha. Não é preciso ser bonito ou bem composto, basta ter algum dinheiro. Quer dizer, convém tomar um banho antes de ir - de preferência pouco antes - e quem sofre de halitose crónica deve ter cuidados redobrados. Em conclusão: o D2 é o "place to be" numa "Saturday night" para quem procura a parte do "sex" na trindade do "sex, drugs and rock'n'roll". Quanto ao rock'n'roll, bem, aquilo é mais disco, e daquele que só se aguenta melhor depois de bem bebido.

E depois, o que fazer num Domingo à tarde? Para aliviar o calor crónico, nada como frequentar "uma das piscinas do IACM: "Estoril, Sun Yat-Sen. Hac-Sá e Cheoc-Van", como diz o anúncio da rádio apresentado pelo Jorge Vale. Pela modesta quantia de 30 patacas (é quase sempre de borla se for depois da uma). Há praias em Macau? Bem, lá haver há, mas não presta. Basicamente existem as praias de Hac-Sá e Cheoc-Van, mas não são aconselháveis aos banhistas caso não queiram nadar ao lado do lixo ou dos cagalhões flutuantes que os residentes da RAEM que não vão à praia (99% deles) ali deixam a quem ainda tem a ilusão de praia em Macau. Quanto às piscinas propriamente ditas, até são agradáveis, para quem não se importa com a miudagem que mija lá dentro. Em todo o caso parabéns ao IACM pelo esforço. Quem é mais endinheirado opta pelas piscinas dos hotéis da moda, ora a do Hard Rock Hotel, ora a do Regency da Taipa, ora a do Altira. Quem não pode, não come.

E é assim. Aguentai um Agosto em Macau que não custa mesmo nada. Conviva com os indígenas, que para eles Agosto é como outro mês qualquer: trabalhar, fazer dinheiro, "business as usual". Evite é os autocarros, frequentados pelos indivíduos mais sebosos da espécie. Cuidado com os encostões. E faça como eu: três banhos por dia, duas mudanças de camisa e de cuecas, muito pó de talco para as emergências (isto para quem tem tomates...), e de preferência fique em casa...debaixo do tal ar-condicionado. E boas férias para quem preferiu escapar a tudo isto.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Diz-me a tua rua, e digo-te quem és



Os portugueses que chegam agora a Macau - e têm sido muitos, felizmente - poderão ficar surpreendidos com o nome de alguns dos arruamentos da RAEM. Quem se demora a observar as placas toponímicas do território diverte-se a pensar na origem do baptismo destas ruas, becos, travessas e pátios. Quando cheguei a Macau há vinte anos, ouvi falar de uma tal de "Ilha Verde". Ilha Verde? - pensei eu - deve ser um sítio bestial, ideal para passar um fim-de-semana, umas férias, ou isso assim. Mas este tal Bairro da Ilha verde, "cheng chau" em chinês, não passa de um amontoado de barracas, habitações sociais e ferro-velho atirado lá para a zona norte da cidade. Tem muito pouco de verde, e nada de ilha, e populado por gente com um aspecto muito pouco saudável, que pendura as cuecas nas janelas que dão para a rua. É um engodo. Mas o que seria de esperar de um sítio que fica perto de um tal Bairro do Fai Chi Kei? (fai chi significa "pauzinhos", daqueles de comer, em chinês).

Existe ainda um tal Canal dos Patos, onde não encontramos nenhuma ave daquele tipo. Outros locais como a Travessa das Janelas Verdes ou o Pátio do Jardim apresentam-se bastante cinzentões e decepcionantes. Existe aqui perto de casa uma tal Rua do Teatro, que além de não ter nenhuma sala de espectáculos visível, tem várias lojas de armazenamento e distribuição de fruta, tornando impossível a circulação de veículos e pessoas, especialmente depois das seis horas da tarde. Devia-se chamar Rua da Fruta. As más línguas benfiquistas diriam que "é a rua favorita do Pinto da Costa". Curiosamente não existem em Macau a Rua do Chocolatinho nem a Rua do Café com Leite. Perto da Igreja de S. Lourenço existe um tal Pátio das Seis Casas. Eu já lá estive e contei pelo menos oito! Existe contudo uma Travessa Curta (na imagem), que faz jus ao nome. Não tem mais de dois metros de comprimento! Isto é que é chamar os bois pelos nomes. Existe um Coloane um tal Pátio Pequeno, mas ainda não tive oportunidade de verificar a pequenez do mesmo.

Como se sabe, os chineses não são adeptos de dar nomes de rua a personalidades históricas, figuras públicas ou beneméritos. Assim temos nomes muito simplistas, como a Travessa dos Ovos ou ou o Beco dos Óculos, o Pátio da Cadeira ou o Pátio do Banco. Outros mais românticos ficam sempre bem num cartão postal; a Rua da Esperança, Felicidade, Fortuna, Harmonia, Riqueza, Saúde, Prosperidade, Tranquilidade ou Virtudes, a Travessa da Glória ou da Paixão, o Beco da Sorte, o Pátio da Eterna Felicidade ou da Eterna União. Sempre é menos deprimente do que viver no Beco do Desprezo (em Coloane, e adivinho que será perto do Estabelecimento Prisional de Macau), no Pátio da Ameaça, do Desgosto ou da Indigência. Curiosamante não existem em Macau arruamentos com os nomes de desgraça, tragédia, miséria ou fome, mas bem podiam existir. Sem dúvida que é muito mais agradável ser abençoado e viver na Rua Alegre ou na Rua da Aleluia, do que viver na Rua da Cadeia ou na sua correspondente de calão, a Rua da Cana.

Quem é chique sempre pode morar na Travessa do Clube dos Iates, enquanto os mais pobrezinhos ficam remetidos ao Beco das Barracas ou ao Beco das Barraquinhas. Ou ainda à Travessa do Hospital dos Gatos, onde deve ser impossível dormir devido aos miados de angústia. O evento dos Jogos da Ásia Oriental, realizados na RAEM em 2005, baptizou uma série de arruamentos, incluíndo uma Avenida, Travessa e Praça, e exactamente, "dos Jogos da Ásia Oriental", uma Rua do Desporto, e uma tal Rua da Patinagem, em Coloane. Esta deve ser dedicada aos orçamentos para a realização de certos eventos na RAEM, que são conhecidos por "patinar" de vez em quando. Disse eu de vez em quando? Queria dizer: "sempre".

Ainda em Coloane, exstem novos arruamentos com nomes bastante "floridos": a Rua das Albízias, das Cássias Douradas, das Champacas Brancas, das Bauínias, das Árvores do Pagode, das Canforeiras, das Acácias Rubras, das Lichias, das Schimas, das Margoseiras ou das Mangueiras. Lindo, lindo, um deleite para os adeptos da floricultura e da botânica. Em contraste existe em Macau um Pátio do Pivete, onde deve ser impossível abrir uma janela. E celebremos com alegria a toponímia de Macau, provavelmente a mais rica do mundo!


Obituário


Foram várias as figuras públicas que nos deixaram estes últimos dias, num início de Agosto fatídico. O escritor e ensaísta norte-americano Gore Vidal, o ex-ministro da defesa e figura de proa do PSD e do cavaquismo, General Eurico de Melo, a actriz Carla Lupi, e o ex-administrador da TDM, o macaense e nosso bem conhecido Manuel Gonçalves. Estes dois últimos vítima de cancro, o flagelo que a humanidade ainda não conseguiu debelar, e que tantos amigos, familiares e gente boa nos tem custado. Para estes um até breve...