sábado, 31 de maio de 2014

Verão quente


Não, não se assustem que não foi o zombie Vasco Gonçalves nem o zombie Cunhal que regressaram para acabar com o que ficou a meio vai agora para 39 anos. Este é apenas o artigo desta semana do jornal Hoje Macau. Não é arte, mas é o melhor que se pode arranjar, e pelo menos não é censurada. Não liguem, que eu sou um idiota que não entende nada de arte. Bom fim-de-semana prolongado!


I

Em Macau o povo saíu à rua, disse presente, mostrou que está vivo, que se mexe, que respira. Nem o dia mais quente do ano impediu que vinte mil residentes se fizessem à estrada no último domingo para demonstrar a sua insatisfação por uma lei que consideram injusta, desadequada e despropositada: o regime de garantias dos titulares dos principais cargos públicos. As gentes de Macau podem ser cordatas, pacíficas, por vezes demasiado permissivas, mas sabem perfeitamente que estes “nobres servidores do interesse público” não precisam de se inscrever no fundo de desemprego quando abandonam o seus cargos – nem aqui nem em lugar nenhum do mundo. Achei adorável que se vissem na manifestação cartazes escritos num português absolutamente encantador, onde se lia “Tem vergonha”, “Querem roubar o cofre do povo” ou “Ali Bábá e os 40 ladrões” – foi simpático lembrarem-se da outra língua oficial. Ao mesmo tempo que decorria este verdadeiro despertar das consciências adormecidas, realizava-se outra manifestação, organizada por um grupo de conterrâneos lá de não-se-sabe-de-onde-nem-interessa, que de tão fingida e coreografada que era fez os seus participantes cair no ridículo, e veio dar ainda mais razão à primeira, a genuina, a original. É que o amor assim, quando é pago, deixa de ser amor e passa a ser outra coisa. O quê? Penso que nem é preciso responder a essa pergunta.

II

Outras manifestações têm lugar do outro lado do mundo, no Brasil, onde dentro de duas semanas se dá o pontapé de saída de mais um campeonato do mundo de futebol. O povo brasileiro, orgulhoso e amante do desporto-rei, rejubilou quando a 30 de Outubro de 2007, vai portanto para sete anos, a FIFA anunciou que o país do samba organizaria a sua maior competição entre selecções, mais de trinta anos depois da festa do futebol ter passado pela última vez pela América do Sul, aquando do mundial da Argentina, de 1978. Terminada a festa, é hora de deitar mãos à obra, que isto dos mundiais não se faz na praia de graça, nem se prepara uma semana antes. A pouco mais de um ano da realização do evento, e com as obras suspeitamente atrasadas, eis que a opinião pública se lembra que a brincadeira sai cara, e toca de sair à rua recordando que há coisas mais importantes que estádios de futebol: faltam hospitais, as escolas não chegam, as estradas têm buracos, a criminalidade aumenta, tal como a pobreza, enfim, tudo serve de desculpa para semear o caos. Permitam-me um pouco de cinismo, mas se a FIFA tivesse retirado a organização do mundial ao Brasil por todos esses motivos, os protestos seriam contra essa decisão, e não como chamada de atenção para os problemas internos do país, que são comuns a todos, enfim, mesmo aos Estados Unidos, ao Japão, à França ou à Alemanha – quatro países que organizaram a competição nos últimos vinte anos, coincidentemente. Agora gostaria de saber o seguinte: quem disse que receber um mundial é uma panaceia para resolver todos os problemas sociais do país que o organiza? É uma honra, sem dúvida, mas ao mesmo tempo uma responsabilidade, e na prática um investimento que poderá acabar com um balanço positivo em termos de retorno. Não me posso esquecer de apontar o dedo à própria FIFA, que por vezes promete aquilo que nunca poderia cumprir. Ficava-lhes melhor que se limitassem ao papel que lhes compete: organizar e gerir o futebol mundial. Deixem-se de quimeras, e deixem as promessas para os políticos.

III

Gostaria finalmente de dar os parabéns à Teledifusão de Macau, a TDM, pela passagem do seu 30º aniversário. A “nossa” TDM pode não ser um poço de virtudes, mas só lhe posso estar grata por me ter servido de farol durante os mais de vinte anos que já levo de Macau, orientando-me numa direcção que me levou a saber mais e a perceber melhor certos aspectos da vida do território. A TDM tem o mérito de ter sobrevivido durante três décadas numa verdadeira “selva”, e os louros vão sobretudo para os seus profissionais, quer os actuais, quer os do passado, quer os do canal em português, quer dos “pangyaos” do canal em língua chinesa. Não deve ser nada fácil dar o nosso melhor debaixo de pressões que vão desde a interferência da política e de diversos outros grupos nos conteúdos, ou das constantes e fatalistas previsões que apontam para o fim da estação, assim sem mais nem menos. É verdade que podia melhorar aqui e ali, todos temos a nossa colher para meter nesse tema, do que podia ser feito, ou de que devia ser evitado, mas a verdade é que Macau não seria a mesma coisa sem a estação da Xavier Pereira. A todos um bem haja, e que continuem a fazer o melhor que sabem, que falando apenas por mim, chega muito bem. E sobra.

Vídeo da semana


Mais uma vez não me arrependo de ter deixado esta rubrica para mais tarde. Este episódio do "Mixórdia de Temáticas" é imperdível. Divirtam-se!

Com que então, censura...


Eu diria que a notícia "caíu como uma bomba", caso tivesse importância, mas não tem. Podia ter, mas...nah. Bem, não deixa de ser interessante. Uma curiosidade, vá lá, um "fait-divers". Antes de mais, confesso que esta notícia que abriu hoje o Telejornal me deixou um pouco baralhado, uma vez que foi dito que o jornal Expresso denunciou o caso, só que fui ao Expresso a não vi nada, mas já no Público, aí sim, dá até destaque na primeira página: "Duas obras de artistas portugueses censuradas na China durante visita oficial de Cavaco Silva". Quer dizer, "primeira página" da secção de Cultura do Público, enfim. Além do Público encontrei a notícia no sítio do esquerda.net, e pode ser que esteja em mais algum média, sei lá, toda a gente diz que está no Expresso então deve ser verdade, pouco importa, até porque estou quase a cair de sono por causa de um "hipnótico" que tomei ainda agora, e já vos digo qual foi a "substância activa". Portanto, as obras de arte em questão foram "censuradas", e isto assim, sem anestesia nem nada. O que aconteceu, Romeu? O que se passou, Pierrô? Isto conta-se em poucas palavras; a exposição "Where is China?", que juntou os trabalhos de 28 artistas chineses e portugueses (deve ser por isso que se chama "Where is China?") foi inaugurada em Pequim a 16 de Maio, e depois seguiu para Lisboa onde está no Museu do Oriente desde a última quinta-feira e até à próxima quarta. Aproveitando a visita à China, o Presidente da República portuguesa assistiu à inauguração da exposição, mas uma hora antes da chegadas de Cavaco Silva, algo de extraordinário aconteceu: a organização mandou retirar da exposição duas obras, e recolheu todos os catálogos. Censura! Esperem lá...censura? Que palavra tão feia. Vamos lá ver afinal qual foi o problema com estas "obras" para merecerem levar com a moca chinesa da "censura".



Esta é a instalação (?) da autoria de Miguel Palma intitulada "Yami Chop Suey". Agora vou falar a sério - meus amigos, eu não entendo nada de arte, ponto. Se eu achar que o que está na imagem em cima não é arte, serei eu uma besta? Sim, desconfio que sim. Para mim o que está ali é comida espalhada em cima de um mapa. Ou um mapa cagado de comida, se preferirem. Se aquilo for o que a maioria das pessoas não-invisuais entende por arte, assumo já que sou um perfeito idiota. A sério, quando Dostoyevsky escreveu "O Idiota", era a mim que ele se referia, e na verdade o livro era para se chamar "O Leocardo", mas como todo a gente me conhecia por "idiota", era "idiota" para aqui e "idiota" para ali, "olha lá vai aquele idiota que em vez de arte vê comida espalhada em cima de um mapa", ficou o "O Idiota". Tudo bem, não tenho a sensibilidade artística para apreciar arte deste calibre. Se aquela obra não tivesse nome, e me pedissem para lhe dar um, eu chamava-lhe "comida em cima de um mapa". Fosse eu um génio e chamava-lhe "Yami Chop Suey". Agora a razão porque a obra foi retirada da exibição: "pode causar sentimento de desconforto e experiências sensoriais negativas no público chinês". Isto é um eufemismo, porque por "experiências sensoriais negativas" eles queriam dizer que a reacção da maioria dos visitantes seria exclamar "olha para esta javardice" ou "quem é quem deixou cair o almoço em cima daquele mapa?", e o "sentimento de desconforto" poderia levar alguém a pegar num guardanapo e limpar aquilo, e lá se ia a "arte" pró galheiro. Enfim, são todos uns idiotas.

O autor defende-se, dizendo que o mapa sujo de comida, perdão, a obra é “uma paródia, até mais em relação ao Ocidente do que ao Oriente”. Eu discordo deste ponto de vista. Para mim uma "paródia" é, sei lá assim de repente, bem, o filme "Airplane!", que é uma paródia aos filmes sobre catástrofes aéreas dos anos 70? Isto é apenas, e insisto, comida em cima de um mapa. É que nem com a maior das caras-de-pau eu seria capaz de despejar duas latas de atum em cima de uma lista telefónica, apresentar isso como arte e dizer que era "uma paródia à sociedade de consumo e à crescente dependência das redes sociais". Julgo mesmo que quando as autoridades chinesas exigiram que as obras fossem retiradas ou "caso contrário a exposição não continuava" - segundo a notícia veiculada na imprensa portuguesa - houve um mal-entendido; o que eles disseram mesmo foi "ou alguém limpa isto ou vão todos daqui para fora". Quer dizer, anda a China a investir em campanhas de sensibilização para que os turistas chineses que visitam países ocidentais se comportem civilizadamente, e depois vem um "kwai lou" qualquer dizer que deitar comida em cima de um mapa é "arte"? Haja dó. Mas pronto, o autor ironiza, dizendo que "Em Portugal, os artistas passam a vida a ser ignorados. É como estar num lugar indiferente. É bom saber que pelo menos uma pessoa na China não sentiu indiferença". Bom, aprecio o seu espírito de quem foi "fu" e mal pago, mas o que eu penso é o seguinte: não sei qual é a política da China em relação aos artistas, mas no seu caso acho que eles queriam dizer que não se brinca com a comida, ou que existem utensílios alternativos aos mapas onde se pode comer, e chamam-se "pratos". Mas tudo bem, esqueça lá isso, sou eu que sou um idiota e não entendo nada de arte.


A segunda obra a ser "censurada" foi a curta-metragem "Alvorada Vermelha", da autoria de João Pedro Rodrigues e João da Mata. Confesso que quando ouvi "alvorada vermelha" pensei que fosse algum filme patriótico, exacerbando as virtudes do Partido Comunista Chinês, ou em alternativa um daqueles filmes ao estilo de algumas esturchas americanas dos anos 80, quando havia a paranóia de que os soviéticos iam invadi-los, e chegavam a Long Beach de submarino, e assustavam umas tipas que estavam ali a jogar voleibol de praia às duas da manhã enquanto davam risotas parvas e abanavam as mamocas, sim, desse tipo, com títulos do tipo "Inferno Vermelho" ou "Invasão USA". Só que, helas, este "Alvorada Vermelha" é sobre o Mercado Vermelho, na Avenida Almirante Lacerda em Macau, e é filmado durante a sua abertura, de manhãzinha, portanto pela "alvorada". Assim, "Alvorada Vermelha". Ah... E que tal se lhe tivessem chamado "Alvorada no Mercado Vermelho", que assim seria menos passível de se fazer confusão com um filme? É que um "filme" - e eu não sou realizador mas já vi muitos filmes e sei o que é um filme quando vejo um - tem um enredo, personagens, diálogos (se não for um filme mudo, mas este não é o caso), uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão. O que está ali são 28 minutos de imagens do Mercado Vermelho. Sabem o que é mais interessante do que ver 28 minutos de imagens do Mercado Vermelho? Ir ao Mercado Vermelho. "Ah, mas ó Leocardo, isso é para ti que estás aí em Macau e tal, e para quem não está?". Olhem, quem não está em Macau, e gostava de vir cá um dia e conhecer o Mercado Vermelho, penso que agora perdeu a vontade.

Acho que a censura aqui teve a ver com a discussão entre os responsáveis chineses e os realizadores sobre o conceito de "filme" - estes últimos diziam que isto era um filme, e os primeiros diziam que não, e eu concordo com eles: isto não é um filme. Reparem como nos primeiro minuto e meio não se vê mais nada a não ser um sapato preto. Passamos depois a um plano do portão do Mercado. Passa um autocarro que tapa esse plano, e durante alguns segundos fica o ecrã preto. Abre o mercado, filmam-se os comerciantes a fazer a sua vida normal, a amanhar o peixe, a talhar o porco, a pendurar as carnes, as galinhas, zzzz....lembram-se daquele "hipnótico" que eu disse ter tomado no primeiro parágrafo? Era isto, mas agora que já bebi dois litros de café tão forte que acordaria um morto, estou muito melhor. Ah ia-me esquecendo, a dado momento do filme aparece uma sereia dentro dos tanques do peixe. Só isso. É um (d)efeito especial. É um bocado parecida com aquela sereia que se vê no anúncio do espectáculo "Dancing Water", ou isso, sei lá, nunca foi ver o "Dancing Water". Pode ser que tenha algum significado. Pode ser que esteja relacionado com o inexplicável sapato preto que aparece no início da tentativa de filme. Pode ser que seja apenas tudo uma grande treta. Um dos realizadores, e fico pasmado como foram precisos dois para fazer aquilo, diz "estar surpreendido que não tenha havido uma reacção oficial da parte portuguesa à censura de um vídeo que mostra os animais a serem transformados em alimento". Ah então era isso, "animais transformados em alimento". Mal posso esperar pela segunda parte, "Alumínio Algarvio", filmado na fábrica de conservas de pasta de sardinha em Olhão. Também achei estranho que as autoridades portuguesas não tenham demonstrado a sua indignação, pois afinal "Alvorada Vermelha" passou no festival de filmes "indie" de Lisboa, "p'lamordedeus". O realizador refere ainda que estas imagens de peixes estripados e galinhas degoladas "Na China, são uma banalidade. Seria como em Portugal mostrar uma embalagem de peru num supermercado". Olhe, sabe o que mais? Não é bem a "mesma coisa", mas aqui está a comparação que faltava: ver "Alvorada Vermelha" é tão emocionante como ficar a olhar meia hora para uma embalagem de peru num supermercado. Boa!

E agora penso que chegou a altura de falar a sério: não conheço nem o autor do "chow min" esparramado no mapa, nem os realizadores do "Alvorada Vermelha", e portanto falo daquilo que vejo, e digo o que penso. Não estou a pedir a ninguém que boicote a exposição, que fale mal ou que diga que não presta, ou atire tomates aos artistas quando os vir na rua. Nada disso. Mas o que vejo e o que sinto é alguém querer fazer passar banalidades por "arte", e a isto chama-se cabotinagem. Mais uma vez lamento não poder apoiar as "artes", ai que mauzinho que eu sou, e ainda por cima os artistas eram portugueses, ai que mau patriota, e se a minha experiência neste particular me ensinou alguma coisa, é que se calhar alguém vai dizer qualquer coisa como: "ah e tal, falas muito mas queria ver-te fazer melhor, falar é fácil, criticar é blá blá blá", até já parece uma cassete. E realmente são capazes de ter razão, é que ainda não atingi o nirvana artístico, e sou incapaz de despejar uma caixa de massas em cima de um mapa, ou ficar uns minutos a apontar para os vendilhões num mercado qualquer, e no fim editar digitalmente a imagem de uma sereia por cima da água de um tanque de peixes. No entanto, mesmo que fosse capaz de realizar essas mui artísticas empreitadas, não o faria, porque para mim os artistas fazem arte, e o público aprecia a arte dos artistas. E eu optei por ficar do lado do público, e portanto a minha parte é a de "apreciar" a obra dos artistas - o que neste caso foi o mesmo que ir jantar fora, pedir uma pizza, e ao fim de uma hora de espera dizerem-me que "não têm pizza". Fico assim como que...f***do? Pode ser que um dia quando fizerem arte, entendam o que o quero dizer com isto. Ah é verdade, e qual foi a reacção de Cavaco Silva a esta notícia? Não sei, mas talvez qualquer coisa deste género:


Garbage metal


Agora que o Executivo deixou cair a lei da mama, perdão, de garantias aos titulares dos principais cargos, etc, etc, é altura de tratar da legislação que realmente interessa, da que faz falta para animar a malta. Ouvi por aí que estava na forja uma lei que regulava o ruído, que a ser bem feitinha e aplicada como deve ser, ia-nos poupar os tímpanos dos ataques desses terroristas do decibel que por aí andam. Um deles, o mais descarado e "melga" de todos é aquele indivíduo que traja de vermelho e circula regularmente pelo centro da cidade, entre a Av. Almeida Ribeiro e a Av. D. João IV, castigando ainda os pavilhões auriculares de quem passa pela Praia Grande, perto das Finanças. Isto quando não se lembra de montar a tenda em frente ao Edifício Administração Pública, na Rua do Campo, para mal dos meus pecados. Será que ainda não percebeu que ninguém lhe liga nenhuma, a não ser pela poluição sonora de que é responsável? Não tenho qualquer problema que o indivíduo proteste, que bata com o pé, que se vista de palhaço e corte os braços e fique no meio do Largo do Senado esticado no chão feito um Cristo, como já aconteceu, nem tenho nada contra o que o motiva a fazer tudo isto - como podia ter eu algo contra aquilo que ignoro por completo?

O que ele podia dispensar era aquela grafonola estridente que produz o som de um coro de rãs na desova e gralhas a entoar "A Internacional", e com que anda por aí a espalhar o terror. Sim, o terror, porque quando se escuta à distância a chinfrineira que sai daquele, ahem, "equipamento sonoro", as pessoas não dizem a sorrir: "olha, é o homem de vermelho, personagem típica de Macau"; o que dizem é: "Fujam! É o maluco e a sua orquestra infernal!", enquanto tapam os ouvidos e correm sem direcção, para o mais longe possível do tenebroso sonido do rufar dos tambores do demo. O que vão pensar os turistas que aqui vêm, sim, a nossa fonte de receitas, os idolatrados turistas? Vão pensar que toleramos a vagabundagem e a arruaça, e que não temos capacidade de manter a ordem pública. Ontem à tarde, hora em que recolhi esta imagem, fazia um calor insuportável, e especado em frente ao BNU à espera que o sinal mudasse para os peões, ainda tive que levar com a banda sonora do sofrimento das almas danadas, o que ainda me deixou mais "pregado aos arames". Portanto é favor legislar, e já agora desta vez tenham cuidado e não façam disparates, e se o homem cumprir a lei e desligar aquela merda (recomendo que a jogue no lixo, simplesmente), deixem-no em paz a fazer as figuras tristes que quiser - o problema é dele, contando que não faça barulho. Acho graça quando penso nisto e me lembro dos "gimbras" que diziam (e dizem) que a música que a malta nova escuta "é barulho". Ora bolas, barulho é aquilo; "trash-metal" ainda se aguenta, agora o que o "Red Man" faz ali é inventar um novo sub-género: o "garbage metal".

Figura da semana


Depois de uma semana tão quente e agitada em Macau, pensei eleger como figura da semana alguém que não tenha nada a ver com as manifestações de Domingo e de terça-feira. Só para desenjoar um bocadinho, vá lá. Enquanto o Governo da RAEM levava "pontapés", havia quem estivesse ocupado aos pontapés na bola, que temos que reconhecer, é uma actividade bem mais saudável (e divertida, também). E de dar tantos pontapés certeiros na redondinha, a equipa de futebol da Casa de Portugal garantiu esta semana a subida à Liga de Elite do futebol de Macau, depois de bater os sub-18 por 3-1, em partida disputada na quinta-feira à noite no Estádio da M.U.S.T.. A equipa orientada por Pelé, que no ano passado garantiu a manutenção na II divisão apenas na última jornada dominou por completo e edição deste ano da prova, e ao cabo de 14 jornadas soma 38 pontos, resultantes de 12 vitórias e dois empates, e lidera com oito pontos que o 2º classificado, o Chuac Lun, e mais 12 que o terceiro, o Hong Lok. Isto significa que a quatro jornadas do fim já é possível saber que para o ano vamos ter na Liga de Elite três equipas de matriz portuguesa, juntando-se a Casa de Portugal ao Benfica e ao Sporting, que ainda por cima são os dois virtuais candidatos ao título. Parabéns a todos, e continuem a "dar o litro", mostrando do que somos feitos, e dignificando a nossa presença em terras do Oriente.

Espalha-brasas


Deparei há dois dias com uma mensagem na rede social Facebook que dá conta de uma espécie de "conluio", "compadrio" ou "favorecimento (ilícito)", não se consegue perceber bem a intenção, que por muito que tenha tentado ignorar, sinto que devo esclarecer, e denunciar como calunioso, reles e baixo. A autora desta missiva é uma conhecida espalha-brasas, com tendência para a peixeirada, e especializada em emitir juízos de valor sobre o que desconhece por completo e falar daquilo que não sabe. Neste caso particular, julgando estar a fazer o papel de "justiceira", denunciando alguma negociata suja, um acordo debaixo da mesa, mete os pés pelas mãos, como é aliás do seu timbre. O caso, que nem é caso nenhum, tem a ver com a revisão da concessão de um terreno em Coloane, com a área de 280 m2, onde se autoriza a construção de uma moradia uni-familiar, vulgo vivenda, um estacionamento e um jardim para uso exclusivo. Segundo a espalhafatosa criatura, o Governo "dá" a concessão de um terreno em Hac-Sá para construir uma vivenda com uma renda anual de onze mil patacas. Para provar a grossa injustiça que agora denuncia, ou "negociata", como lhe chama, socorre-se do...Boletim Oficial. Sim, meus amigos, o Governo da RAEM dá conta das suas "negociatas" na sua publicação oficial, e imaginem só que até o fazem ao abrigo da Lei de Terras. Que nojo...é de fartar vilanagem. O despacho pode ser consultado aqui.

Vamos abrir primeiro o jogo: o concessionário em causa Mak Soi Kun, deputado da AL e presidente da Associação dos Conterrâneos de Jiangmeng em Macau, actualmente com o cargo suspenso, desde que em 2009 foi eleito para o hemiciclo. Agora para quem caíu nesta esparrela e está mesmo convencido que o Governo concedeu a um dos seus "amigos", nesta caso Mak Soi Kun, um terreno em Coloane para ele construir lá uma vivenda, aconselho que ou 1) leia em detalhe o despacho do secretário das Obras Públicas, e caso não entenda consulte a legislação ou 2) se não estiver para se chatear, não oiça os delírios de uma velha louca. A certo ponto a pobre criatura faz-se de sonsinha, e diz "eu também quero!". Oh oh oh desculpem se não me posso rir mais, pois temo ser acometido de alguma incontinência urinária, tal é a gracinha. "Também quer"? Está no seu direito, assim como qualquer outra pessoa, contando que compre o terreno em questão. Sim, porque o sr. deputado Mak Soi Kun comprou o terreno juntamente com a esposa, cujo nome consta igualmente do referido despacho, corria o ano de 1995. Uh? Esperem lá...1995? Deixa cá ver, isso foi antes de 1999, portanto se o senhor adquiriu o direito sobre aquele imóvel através de algum "esquema", como refere a tresloucada senhora, esse direito foi-lhe transmitido pela antiga administração portuguesa.

Quando comprou, repito comprou, com o seu dinheiro, sem que houvesse qualquer doação, usucapião ou permuta, aquele terreno, este já estava sujeito ao regime da concessão por arrendamento por um prazo de 25 anos desde 1981, tendo sido posteriormente renovada essa concessão por mais dez anos em 2006, como é aliás prática corrente; imaginem que o prédio onde vivem, que quase com toda a certeza está afecto a este regime de concessão por arrendamento (todos os terrenos atribuídos após a transferência estão nestas condições) termina o prazo da tal concessão, e o governo quer o terreno de volta. Isto implicaria que vocês arrumassem a trouxa e fossem procurar outro lugar para morar, enquanto o prédio era demolido - mesmo que fossem vocês os legítimos proprietários de uma fracção desse prédio implantado nesse terreno. Temos que ver que isso não fazia lá muito sentido. Tudo o que o sr. deputado Mak Soi Kun pediu foi a revisão do contrato do terreno que lhe pertence, por o ter adquirido, e é isso que consta do tal despacho. Estivesse o terreno em regime de propriedade perfeita, ou seja, onde o seu proprietário tivesse a posse total, incondicional e inalienável, podia fazer com ele o que muito bem entendesse, contando que não estivesse com isso em incumprimento qualquer outra lei não relacionada com o direito sobre o imóvel. O facto do sr. deputado Mak Soi Kun estar a pagar "renda" não significa que está a "arrendar" algo que não lhe pertence, mas para entenderem isto melhor, consultem a lei que define o regime de concessão - repito, se quiserem, porque como já referi acima, o melhor é fazer orelhas moucas a palavras loucas.

Mas já que a indignação é tanta e parece partir de tanta gente, recomendo que pelo menos leiam o despacho que causou tanta celeuma - por nada, insisto. Por acaso trata-se de um contrato bastante bem elaborado, senão vejamos: prevê prazos para o aproveitamento do terreno nas condições estabelecidas pela RAEM mediante o pedido do concessionado, comprometendo-se este a cumpri-lo , e caso não o faça é sujeito a multa, e consequente agravante no caso de reincidir; a RAEM salvaguarda o direito de reaver o terreno no caso de incumprimento por parte do concessionado; este último compromete-se a "obras de tratamento paisagístico nas zonas envolventes da construção", bem como "á remoção das mesmas de todas as construções, materiais e infra-estruturas, porventura, aí existentes"; o incumprimento da cláusula referida anteriormente, bem como a falta de pagamento pontual da renda ou a alteração não consentida da finalidade ou do aproveitamento são motivo para rescindir a concessão - tudo isto mediante fiscalização regular, também prevista no referido despacho.

A propósito, se alguém acha que onze mil patacas anuais (montante estabelecido por lei, e não foi feito nenhum desconto especial para o sr. deputado Mak Soi Kun), é pouco, remeto-vos para a clásula oitava do contrato, que estabelece que o sr. deputado Mak Soi Kun pagou à RAEM "(...) a título de prémio do contrato, o montante de $ 1 266 194,00 (um milhão, duzentas e sessenta e seis mil, cento e noventa e quatro patacas), integralmente e de uma só vez, aquando da aceitação das condições do presente contrato (...)". Se ainda acham que este montante por uma concessão é injusto, recomendo a leitura deste despacho, onde são concessionados a uma tal Sociedade Venetian Cotai, S.A. três lotes de terreno situados num sítio chamado COTAI. Se gostam de ir directamente para os números, vejam isto:

2. Após a conclusão da obra de aproveitamento do terreno o segundo outorgante passa a pagar para cada um dos três lotes as seguintes rendas anuais:

1) $ 14 900 660,00 (catorze milhões, novecentas mil, seiscentas e sessenta patacas) para o lote I;

2) $ 4 411 765,00 (quatro milhões, quatrocentas e onze mil, setecentas e sessenta e cinco patacas) para o lote II;

3) $ 4 069 818,00 (quatro milhões, sessenta e nove mil, oitocentas e dezoito patacas) para o lote III,


Agora vejamos o que esses tipos da Sociedade Venetian Cotai, S.A. construíram, por exemplo, no tal lote II, e pelo qual pagam anualmente a renda de 4,4 milhões:

Lote II:

(1) Hotel de 5 estrelas:
112 167 m2 x $ 15,00/m2 $ 1 682 505,00;
(2) Hotel - apartamento de 4 estrelas:
101 028 m2 x $ 15,00/m2 $ 1 515 420,00;
(3) Comércio:
35 218 m2 x $ 15,00/m2 $ 528 270,00;
(4) Estacionamento:
31 469 m2 x $ 10,00/m2 $ 314 690,00;
(5) Área livre:
37 088 m2 x $ 10,00/m2 $ 370 880,00;


Aí está, continhas feitas e tudo. Com que então quatro milhõezitos e mais uns trocos por ano pela renda de um terreno onde foi implantado aquele mastodonte, com hotel de cinco estrelas, casinos, lojas de produtos de luxo, canais e o camano? Quatro milhões faz o casino numa hora - ou menos.

Portanto meus amigos, vamos ter um pouco de contenção e não cair na verborreia de pessoas que sofrem de evidente iliteracia crónica, e apresentam por vezes sintomas de histeria e retardação mental profunda. Podia dizer que dá pena, isto, mas não consigo. É que por muito desprezível que possa ser a figura do sr. deputado Mak Soi Kun, de que também não gosto, isso não invalida que faça o que muito bem lhe apetecer com aquilo que é seu. E acaba por ter muita sorte, a autora desta fantochada, pois fosse o deputado saber disto, e tinha matéria para procedimento judicial, pelos crimes de Difamação (artº 174 do Código Penal) e de Publicidade e Calúnia (artº 177 do C.P.). No lugar dele, era o que eu fazia, e assim podia ser que certas pessoas aprendessem a ler as coisas do princípio ao fim, e caso não entendessem, que pedissem para lhes explicar. Só que há gente que não vai lá nem com um desenho. Enfim...

A caminho do Brasil: o país do "soccer"


Hoje vou falar de uma selecção de um país onde o futebol não é o desporto mais popular. Nem o segundo. Nem o terceiro, nem provalmente o quarto ou o quinto - claro que já perceberam que estou a falar dos Estados Unidos da América, onde na lista das preferências do público o "soccer" fica atrás de outros desportos colectivos como o futebol americano, o basebol, o basquetebol e o hóquei no gelo. Julgo até que muita gente não se arriscaria a dizer que o "soccer" é mais popular entre os americanos do que o voleibol, mas em alguns casos tudo depende da região; na Califórnia, onde se há gelo será apenas nas arcas frigoríficas ou no topo das montes Whitney e Williamson e residem milhões de hispânicos, o nosso futebol é com toda a certeza mais popular que o hóquei no gelo. E é mesmo assim, pois apesar de actualmente existir uma quantidade considerável de fãs de futebol nos EUA, até há 20 anos era considerado um desporto dos imigrantes hispânicos e europeus, e um jogo para "mulheres" - isto explica talvez o sucesso da selecção feminina, duas vezes campeã mundial e quatro vezes campeã olímpica.


A equipa no New York Cosmos, campeã da North American Soccer League em 1977. Pelé é o quarto a contar da esquerda, na fila de baixo.

Na primeira metade do século XX, mormente nos primeiros vinte ou trinta, o futebol tinha alguma implantação nos Estados Unidos, muito por culpa da vaga de imigração vinda da Europa, nomeadamente da Itália, Irlanda e Grécia, mas à medida que estes imigrantes se foram integrando, as gerações seguintes começaram a gostar mais dos desportos "americanos", e o futebol foi ficando para trás, quase completamente esquecido. Nos anos 70 houve uma tentativa de reavivar o futebol, trazendo para os maiores clubes jogadores europeus em final de carreira, casos de Pelé, Carlos Alberto ou Beckenbauer, do New York Cosmos; Johann Cruyff e George Best, dos Los Angeles Aztecs, e até o nosso Eusébio representou quatro emblemas da defunta North-American Soccer League, que viria a terminar em 1984, depois de apenas 16 anos de existência. O problema era cativar o grande público americano, que não entendia um desporto onde não se podia usar as mãos ou que podia terminar empatado sem golos - e se o objectivo era marcar golos, porque jogavam para trás?


A primeira equipa dos Estados Unidos a participar de um mundial, em 1930.

Apenas com a organização do mundial de 1994 e a criação da MLS (Major League Soccer) os norte-americanos "despertaram" para o "soccer". E já agora, porque lhes chamam "soccer", ao nosso futebol? Sim, para distingui-lo do "gridiron" - nome derivado das linhas paralelas verticais de demarcam o campo - desporto que para eles é conhecido por "football" e para nós "futebol americano", mas qual é a origem da palavra "soccer", que tanto irrita os ingleses? Se os irrita, talvez não a devessem ter popularizado, pois foi na Inglaterra que nasceu esta designação, quando um estudante de Oxford resolveu abreviar o que era conhecido então por "Association Football", tirando as terceira, quarta e quinta letras de "asSOCiation", e juntando-lhe mais um "c" andtes do sufixo "-er". Agora que está satisfeita esta curiosidade, vamos olhar para a história da participação dos Estados Unidos em campeonatos do mundo de "soccer", perdão, futebol.


Bert Patenaude, o autor do primeiro "hat-trick" em mundiais de futebol.

Sendo um dos países onde o futebol estava já implantado, e com uma federação completamente fucnional, os Estados Unidos foram um dos países convidados pela FIFA para participar do primeiro torneio mundial em 1930, no Uruguai. A equipa era composta pelos jogadores que haviam participado no torneio olímpico de Amesterdão dois anos antes, e onde tinham sido eliminados na primeira ronda pela Argentina, com um expressivo resultado de 11-2 (!). Contudo no Uruguai as coiss correram um pouco melhor, e os americanos venciam as duas partidas do grupo 3, ambas por 3-0, frente à Bélgica e Paraguai. Na partida contra os sul-americanos, Bert Patenaude fez história ao marcar os três golos, assinando assim o primeiro "hat-trick" em campeonatos do mundo. Nas meias-finais encontrariam o "carrasco" de Amesterdão, a Argentina, e seriam novamente goleados, desta feita por 6-1, terminando o mundial em 3º lugar ex-aequo com a Jugoslávia, que se mantém até hoje a sua melhor classificação de sempre. Em 1934 foi necessário passar pela qualificação para atingir a fase final, e depois de baterem por 4-2 o México, os americanos ganharam o direito de estar na Itália, mas por azar apanharam a equipa da casa na primeira ronda, e foram prematuramente afastados, perdendo por 7-1. Em 1938 não participaram.


Os heróis de Belo Horizonte, que protagonizaram uma das maiores surpresas da história dos campeonatos do mundo.

Nos finais da década de 40, o futebol nos Estados Unidos já tinha perdido terreno para outras modalidades, mas como o primeiro mundial do pós-guerra se realizava esse ano no Brasil, existiam seis vagas do continente americano, e as duas da América do Norte foram decididas no North American Football Confederation Championship, ou NAFC, de 1949, disputado no México, e onde os norte-americanos terminaram no 2º lugar. Apesar de sofrerem pesadas goleadas contra os mexicanos, por 6-0 e 6-2, terminariam à frente de Cuba, com um empate 1-1 e uma vitória por 5-2. No Brasil os Estados Unidos partiam como uma das selecções mais fracas, composta na maioria por amadores, e onde 12 dos 22 jogadores selecionados não tinham qualquer experiência internacional. Integrados no grupo 2 com a Espanha, a Inglaterra e o Chile, previa-se que saissem com derrotas no três jogos da primeira fase, podendo eventualmente dar alguma luta aos chilenos. No entanto na primeira partida começam por pregar um susto à Espanha, marcando aos 17 minutos, e mantendo a vantagem durante uma larga parte do encontro. Seria apenas nos últimos dez minutos que quebrariam, e a Espanha aproveitava para marcar três golos, vencendo por 3-1.


O adversário seguinte era a Inglaterra, que tinha vencido o Chile por 2-0 na primeira ronda, e era claramente favorita para derrotar os americanos, com a lógica a ditar que seria por goleada. Só que nesse dia 29 de Junho de 1950 em Belo Horizonte a lógica foi a banhos na praia, e no Estádio Independência a história foi outra completamente diferente. Os ingleses entraram "a matar", encostando o adversário ao seu último reduto, e aos 12 minutos já tinham desperdiçado seis ocasiões de golo, ora por displicência, ora pela braveza do guardião Frank Borghi, que fez uma defesa quase impossível logo no início do jogo. O tempo ia passando, os ingleses iam dominando a seu bel-prazer, e os americanos pareciam apenas estar a adiar o inevitável. Só que aos 37 minutos aconteceu o impensável; sem qualquer hipótese de chegar perto da área dos ingleses, o médio Walter Bahr decide arriscar, e disfere um remate a 30 metros da baliza do guardião Bert Williams. O remate nem levava muita força, e era denunciado, mas no momento em que o guarda-redes inglês se atira para o seu lado direito para segurar tranquilamente a bola, o avançado Joe Gaetjens, um americano de origem haitiana, mergulha junto da marca de "penalty" e acerta de cabeça no esférico, desviando a sua direcção para o fundo da baliza. Ficava tudo de boca aberta pensando como seria possível a profissionalizada e favorita Inglaterra estar a perder com uns "yankees", mas era verdade. Mas acontece, e depois, se a Espanha também esteve em desvantagem? Só que ao contrário do jogo contra os espanhóis, aqui as pernas dos norte-americanos não cederam, e à medida que o tempo ia passando na etapa complementar, iam ficando mais motivados, ao ponto de disporem da última grande oportunidade de golo: aos 85 minutos o avançado Frank Wallace passa pelo guarda-redes Williams e remata para a baliza deserta, valendo a intervenção do defesa Alf Ramsey, que tirou a bola já em cima da linha de golo. Seria a primeira vez que Ramsey salvaria a honra dos ingleses; dezasseis anos depois, já como treinador, conquistava a única taça do mundo para a Inglaterra. No final foi a festa, com um desfecho digno de "David contra Golias", que deixava o mundo incrédulo. No dia seguinte os jornais no Reino Unido colocavam na capa "Estados Unidos-1 Inglaterra-0", e os ingleses julgavam tratar-se de um erro de impressão, e que o resultado teria sido de 1-10 a seu favor. Tansos, pois uma vez que o treinador dos americanos era William Jeffrey, um escocês, já deviam ficar à espera de algo assim. Em 1996 o autor norte-americano Geoffrey Douglas, que tinha apenas seis anos na altura dos acontecimentos, transpôs para livro este feito da equipa de futebol do seu país, que ficou com o título "O jogo das suas vidas", que seis anos depois daria um filme com o mesmo nome. Os Estados Unidos perderiam a última partida por 5-2 frente ao Chile, mas regressariam a casa com o seu nome inscrito na história dos mundiais de futebol.


A equipa dos Estados Unidos de 1990, que participou no mundial de Itália. Tudo bons rapazes.

Depois da epopeia vivida em terras do Brasil, o "soccer" entrou num longo período de hibernação, regressando apenas ao grande palco dos mundiais em 1990 na Itália. A organização do mundial de 1994 tinha sido atribuída aos Estados Unidos em 1987, pelo que era fundamental ter uma equipa competitiva. Assim o treinador Bob Gansler foi indigitado com a missão de levar uma geração de jogadores de futebol ao mundial de 90, com a finalidade de adquirir alguma experiência, e depois de uma qualificação complicada, que terminaria com uma vitória por 1-0 em Porto de Espanha, em Trinidad e Tobago, lá estavam os "yankees" em Itália. Com uma equipa jovem, composta totalmente por jogadores desconhecidos a alinhar no campeonato amador dos Estados Unidos e divisões secundárias de campeonatos europeus, ficariam no Grupo A, com a Itália, Áustria e Checoslováquia. Os nomes não diziam muito: Eric Wynalda, Peter Vermes, Paul Caligiuri, Tab Ramos, John Harkes, Bruce Murray e Marcelo Balboa, com um tal Tony Meola entre os postes a fazer de capitão aos 21 anos, mantendo ainda hoje o título de capitão mais jovem de uma equipa em mundiais de futebol. Tal como se previa, perderam as três partidas da fase de grupos, mas foram demonstando alguma evolução, e perdendo a timidez. Depois da derrota por 5-1 no jogo inicial frente aos checos, com Caligiuri a fazer história como autor do primeiro golo em mundiais da "era moderna" dos americanos, perdiam por apenas 1-0 com a anfitriã Itália, que foi bastante assobiada pelo público no Estádio Olímpico de Roma, que esperava uma vitória mais folgada. Na despedida frente à Ásutria perdiam por 2-1, e conseguiam provar que quatro anos depois, no seu próprio ambiente, poderiam discutir o resultado fosse contra quem fosse. Ainda me recordo do comentário que o meu pai fez sobre esta equipa dos Estados Unidos após o jogo com os italianos: "não são maus, no campeonato português não desciam". Penso que isto ilustra na perfeição o que era esta selecção americana em termos de qualidade.


"Bora" Milutinovic: um "globetrotter" do futebol.

Em 1994 a festa do "soccer" chega aos Estados Unidos, e se a organização de um mundial de futebol é algo que não deixa ninguém indiferente, este caso é uma excepção - enquanto os adeptos do desporto-rei terão ficado para lá de entusiasmados, é bem possível que alguns americanos nem soubessem que decorria ali aquela competição. A selecção norte-americana apostava na mesma base que tinha ido ganhar experiência ao mundial de Itália quatro anos antes, e algumas novidades: o guardião Brad Friedel e o médio Cobi Jones, que alinhavam na Premier League inglesa, o avançado Earnie Stewart, dos holandeses do Willem II, da divisão principal, e Alexi Lalas, um defesa central de ascendência grega que alinhava nos italianos do Pádova, e que seria uma das boas surpresas desta prova. O treinador era Velibor Milutinovic, conhecido por "Bora", um sérvio que nos anos 70, ainda enquanto jogador, adquiriu cidadania mexicana depois de ter jogado quatro anos nos Pumas UNAM, clube que viria depois a treinar, e cujo sucesso o levou ao cargo de selecionador mexicano em 1983, e orientou a equipa que chegou aos quartos-de-final em 1986. Esse seria apenas o primeiro mundial de "Bora", que atingiu um feito extraordinário; em 1990 era o selecionador da Costa Rica no mundial de Itália, em 94 dos Estados Unidos, em 1998 da Nigéria, no mundial de França, e em 2002 da China, no mundial da Coreia e do Japão, que seria a única selecção que não conseguiu fazer passar da fase de grupos. Cinco mundiais consecutivos por cinco países diferentes, e nenhum deles o seu país de origem. De se lhe tirar o chapéu.


Inseridos no Grupo A, com Roménia, Suíça e Colômbia, a estreia seria contra os suíços no Pontiac Silverdome em Pontiac, Michigan. A Suíça, que participava pela primeira vez num mundial desde 1966, tinha mesmo assim o favoritismo, e adiantou-se no marcador aos 39 minutos por Georges Bregy, só que ainda antes do intervalo os norte-americanos empatavam, através de Wynalda, na conversão de um livre - uma conversão irrepreensível, diga-se de passagem. O jogo terminaria empatado a um golo, o primeiro ponto para os norte-americanos desde a épica vitória frente aos ingleses em 1950, e dias depois no Rose Bowl em Pasadena, Califórnia, voltariam a sentir o doce sabor da vitória, ao bater a Colômbia por 2-1, e nem a derrota por 0-1 frente aos romenos os impediu de passar aos oitavos-de-final como um dos melhores terceiros classificados. A meta estabelecida tinha sido cumprida: passar da fase de grupos. Qualquer que viesse a seguir, seria um acréscimo.


E podiam ter ido mais longe, os Estados Unidos, que tinham uma equipa bem maneirinha, só que nos oitavos-de-final tiveram pela frente um peso pesado: o Brasil. Os brasileiros, que viriam a ser vencedores do torneio, eram naturalmente favoritos à vitória no Estádio de Stanford, na Califórnia, mas a equipa da casa vendeu cara a derrota, perdendo apenas graças a um golo de Bebeto, apontado no minuto 72. A partida ficaria marcada pela agressão do brasileiro Leonardo, que atinge intencionalmente com o cotovelo o rosto o americano Tab Ramos, nos minutos finais do primeiro tempo. Ramos ficaria com um maxilar fracturado, e o mundial acabava para o médio da "canarinha", que seria suspenso por quatro jogos. Mais tarde Leonardo visitou Ramos no hospital, onde lhe pediu desculpas, lavado em lágrimas. Este é um daqueles casos em que se pode dizer que "desculpa não tira a dor".


Bruce Arena: um treinador de má memória para a selecção portuguesa.

Para o mundial de 1998 em França, a FIFA decidi alargar o número de participantes de 24 para 32, de modo a incluir mais países das confederações menos representativas, e acabar com o monopólio dos países europeus, que chegavam a ter três selecções num grupo de 4 equipas em cada mundial. Com isto a CONCACAF passou a ter direito a três vagas, e o acesso a um "play-off" continental que lhe podia valer uma quarta. Assim passou a ser mais fácil aos Estados Unidos passar a qualificação, pois apenas México e Costa Rica estariam ao seu nível na zona da América do Norte, Central e Caraíbas. Foi com uma equipa em renovação que se qualificaram para o mundial de França, em 1998, e isto ficou evidente após perderem todos os jogos da fase de grupos, a começar com uma derrota por 0-2 com a Alemanha, acabando com outra por 0-1 frente à Jugoslávia. Pelo meio ficou um momento algo embaraçoso: uma derrota por 1-2 com o Irão, país que fora dos relvados de futebol é efectivamente inimigo dos americanos, e ainda por cima foi a primeira vitória - e até agora única - dos iranianos em fases finais do campeonato do mundo. Já com a equipa renovada, regressam em 2002 para o seu quarto mundial consecutivo, e para a Coreia e Japão o treinador Bruce Arena, que sucederia a Steve Sampson, responsável pela má campanha em França, podia contar com jogadores da qualidade de Landon Donovan ou DeMarcus Beasley, ambos com apenas 20 anos na altura, John O'Brien ou Claudio Reyna. O único "sobrevivente" de 1990 era Tony Meola, agora com 33 anos, mas a titularidade na baliza pertencia a Brad Friedel. Na primeira partida os norte-americanos surpreendaram ao vencerem Portugal por 3-2, e chegaram a estar em vantagem por 3-0. Depois de um empate a um golo com a Coreia do Sul, equipa da casa, perderiam por 1-3 com a Polónia, um pouco contra as previsões, mas passariam à fase seguinte em detrimento da selecção portuguesa. Nos oitavos-de-final venceram por 2-0 o México, vizinhos e eternos rivais, que depois dessa derrota passariam a "piar fininho" durante alguns tempos sobre a sua superioridade futebolística em relação aos "gringos". Os americanos só seriam travados pela Alemanha, com o guardião Oliver Kahn e evitar que os "yankees" fizessem história, segurando a vantagem de 1-0 para a "mannschaft". Se não contarmos com o mundial de 1930, onde não se pode dizer que estivesse presente a "nata" do futebol, esta foi a melhor classificação de sempre dos norte-americanos em mundiais.


Bruce Arena levaria os americanos ao mundial seguinte, na Alemanha, mas desta vez as coisas não correram tão bem, com a equipa a ficar pela primeira fase após derrotas por 3-0 com a Rep. Checa, empate a um golo com a Itália, e nova derrota por 1-2 frente ao Gana. Ficou de uma vez provado que os americanos não se davam bem com os ares da Europa; em 1934 em Itália ficaram pela primeira ronda, em 90 novamente em Itália pela fase de grupos, só com derrotas, a mesma sorte em 98 em França, e desta vez na Alemanha salvou-se apenas o empate com os italianos, que viriam a sagrar-se campeões mundiais. Em 2010, já com ares de África, Bob Bradley voltaria a levar os americanos aos oitavos-de-final. Depois de um empate a um golo com a Inglaterra, com o célebre "frango" do gaurdião Robert Green, seguiu-se outro empate a dois golos com a Eslovénia, e no último jogo com a super-defensiva Argélia, dá-se um desfecho verdadeiramente dramático, com Landon Donovan a marcar o único golo dos americanos no primeiro minuto dos descontos, que valeu não só o apuramento, como o 1º lugar do grupo. Nos oitavos novamente o Gana, e desta feira os africanos precisaram de prolongamento para vencer novamente por 2-1. Este ano, com o ex-internacional alemão Jürgen Klinsmann no comando, vão encontrar três velhos conhecidos na fase de grupos: Alemanha, Portugal e Gana. A melhor sorte para eles na "vingança" contra alemães e ganeses, e já agora que nós nos consigamos vingar deles, também.



sexta-feira, 30 de maio de 2014

Se o bochechas disse, está dito


António José Seguro tem os dias contados no PS. Se os amigos chuchalistas são especialmente apreciadores do estilo betinho de Seguro, com aquele ar muito sério da treta, de dedo espetado para cima e para baixo, a prometer o que não pode nem tem o engenho para cumprir, pode começar a esquecê-lo: passou à história. Sim, pois apesar do PS ter vencido as eleições europeias, a margem da vitória não convenceu o Grande Estrumpfe chuchalista, Mário Bochechas Senil Soares, que não se revê em Seguro e quer que ele vá chuchar noutra mama, que aquela agora é do Presidente da Câmara de Lisboa, António Costa. Num artigo que o bochechudo cacique dos chuchas assina no jornal Público, intitulado "Resposta ao Povo", Bochechas I, Eterno Presidente dos chuchalistas, apela à tribo que se una, e que derruba este Seguro inseguro, que acusa de "fulanizar o partido" e de ter "falta de ambição". Reparem neste contrasenso: nem os chuchalistas têm congresso marcado para breve para eleger nova liderança, nem o povo perguntou nada ali aos "Chechas". Não leio o Público, aliás, nem leio quase jornal nenhum de Portugal a não ser os desportivos (porque aí os "resultados" têm implicações reais, entenderam?), e desses generalistas dou uma olhadela de vez em quando no Expresso e no JN - passo a publicidade - e não entendo como é que este média se sujeita a colaborar com viperina baba do quasi-nonagenário camelo das Arábias chuchalistas.

É incrível como há gente, sim porque os chuchalistas também são gente, que os benza o seu Deus ateu, que ainda dê ouvidos a esta peça de museu, o (a)fundador e lider histó(é)rico do PS. Aposto que quando este Dezembro completar 90 anos ainda vão haver por aí chuchalistas que pensem que o "pai da democracia" ainda tem "uma longa vida pela frente", e apoiam a sua eventual candidatura às presidenciais de 2060 - se não for já em 2035, é prá loucura! Ai eu disse pai da democracia, foi? Pai desnaturado, este, que quando a filha veio ao mundo estava lá pelos "franciús" e teve que deixar a meio os "fromages" que estava a "manjer" com o seu "ami Miterã" para apanhar o comboio para "Lisbone" e tomar conta de nós, que somos muito pobrezinhos e ele é que sabe o que é bom para "o povo". Penso mesmo que o título tem uma gralha: devia ser "Resposta para o POLVO". Sim, porque esta animosidade toda com Seguro, que apesar de ser uma aventesma (é chuchalista, queriam o quê) não é melhor nem pior que as restantes aventesmas que passaram pelo Largo do Rato (que nome tão feliz, assenta-lhes que nem uma luva). A súbita alergia a Seguro que afecta o Bochechossauro deve ter sido causada por algum afilhado que o ainda secretário-geral pôs na "prateleira", que agora anda a pedir ao tio para ser um dos "bois" do PS. Abandonem a esperança, chuchalistas "segurenses", regozijem chuchalistas costeiros; se o bochechas diz que é, é porque é mesmo.

Niet! нет!


A imagem que vemos em baixo mostra uma lista de cantores e bandas, na sua maioria de "rock" ou "hard-rock" e de "pop", que foram proibidos na antiga União Soviética devido ao seu carácter, digamos, "subversivo". A lista andou a circular pelas redes sociais desde a semana passada e até ao início desta que agora finda, e foi amplamente divulgada e partilhada, muito por culpa do seu conteúdo, que tentando parecer sério, acaba por produzir um efeito humorístico.

Ali podemos ficar a saber, por exemplo, que os Van Halen difundiam "propaganda anti-soviete", e com aquele "Jump", queriam era dizer "saltem daí para fora". Os Talking Heads versavam sobre o "mito do perigo militar soviético", o que me leva a deduzir que "Blind" ou "Road to Nowhere" tinham uma mensagem subliminar que me escapou na altura. Os Pink Floyd não se recomendavam, devido à sua "interferência com a política externa da URSS", nomeadamente com a invasão do Afeganistão pelas tropas sovietes no início dos anos 80. Acho que a censura aqui deve ter entendido mal, pois o que Roger Waters diz é "hey, teachers, leave the kids alone", e não "hey, russians, leave Afghanistan alone". Mas para dizer a verdade, o que qualquer professor possa ter feito com um aluno em matéria de abusos não se compara certamente com aquilo que russos fizeram com os afegãos.

Já quanto a bandas ou artistas afiliados com Satanás, o senhor das Trevas (salvé, Belzebu!), os Black Sabbath são acusados de promover a violência e o "obscurantismo religioso", ou em inglês, "obskurantism", com "k". Pior ainda eram os Nazareth, que além do "misticismo religioso", incluíam nas suas músicas mensagens de "sadismo". Alice Cooper, por seu lado, era um "vândalo", e penso que ainda é, mas o maior cuidado a ter é com os Genghis Khan, aquela banda alemã de música "disco" que ficou conhecida no Festival da Eurovisão em 1978, e onde se destacava um indivíduo que se vestia com trajes mongóis e dava umas piruetas no palco enquanto outros cantavam. Pode parecer inocente, mas na verdade trata-se de "anti-comunismo" e "nacionalismo". Uma forma curiosa de nacionalismo, esta, quando um alemão se veste de mongol numa banda com o nome Genghis Khan.

Uma coisa com que os sovietes se preocupavam bastante era o "neo-fascismo", tema recorrente do reportório de artistas como os 10cc, ou Julio Iglesias. Esperam lá, Julio Iglesias? Estavam enganados, os comunas, pois o Julio Iglesias de neo-fascista não tinha nada: era fascista desde que nasceu. Quanto aos AC/DC, igualmente neo-fascistas, e os Judas Priest, esses anti-comunistas, eram ao mesmo tempo "violentos", e a violência era algo que preocupava o regime, especialmente quando se trata de bandas "punk", caso dos Sex Pistols, dos "Klesh", também conhecidos no mundo civilizado por Clash, ou ainda os B52's, essa banda "punk" como o caraças. E ser "punk" já era suficiente para levar com a moca da censura, mesmo que não implicasse violência, como no caso dos Ramones. Deve ter sido por causa do "Rocket to Russia". Já os "Scorpion", que suponho serem os Scorpions, são apenas "violentos" - "I'm still loving you", mas mesmo assim tenho que te encher de porrada primeiro.

Quem surpreendentemente apela à violência são os Village People, aquela banda "disco" norte-americana que é muito "camp", e uma das predilectas da malta "gay". Bem, violência é uma forma de interpretar a coisa. Mas desconfio que os tipos que elaboram esta lista são rabetas, mesmo. Censurar a Tina Turner com o argumento de que apela ao "sexo" ou Donna Summer por "eroticismo" é simplesmente inaceitável - qual é o problema? E são hipócrita também, ao censurar a banda de heavy-metal suíça Krokus (ou "Crocus", conforme a lista) por promover "o culto da personalidade". Ah, essa é boa! Quer dizer, se calhar escolheram o "culto da personalidade" errado, pois no caso do camarada Estaline, não ia haver qualquer problema. Das muitas coisas que ali se aprendem, uma delas é a verdadeira natureza dos Yazoo ("Jazoo" lá na parvónia), o duo composto por Vince Clarke e Alison Moyet que tinha um reportório, isto pensava eu, completamente inocente, como se quer do "pop" que se preze. Afinal são "punk" e "violentos".


Entretanto eram inúmeros os comentários no sentido de que a lista em questão era "treta", alguma piada de um daqueles desocupados ocidentais a fazer pouco da mãe Rússia. Fui investigar, e descobri a versão original do documento, em russo, que podemos ver na imagem acima. Fiquei ainda a saber que a lista foi publicada por um oficial do PC soviete numa cidade da República Socialista da Ucrânia, e era dirigida a lojas de discos e clubes, para que "evitassem" tocar as músicas destes artistas. Não era bem uma "proibição", apenas uma "recomendação", o que no fundo acaba por dar no mesmo. Era bem mais engraçado se fosse uma directiva aplicável a toda a URSS, mas no fim de contas era apenas o capricho de um qualquer camarada que não apreciava a retórica neo-fascista do Julio Iglesias.


A caminho do Brasil: feijões saltadores


O que nos vem à cabeça quando ouvimos falar de México? Speedy Gonzalez, mariachis, tequila, tacos, burritos, enchiladas, sim, por acaso a comida "tex-mex" é de se lhe tirar o "sombrero", especialmente se for regada com Corona, "la cerveza mas fina" - aproveito para mandar um grande abraço à Marisol, do Restaurante Tacos, a embaixadora mexicana não-oficial em Macau. Pois é, gostaria imenso de ficar aqui a falar de outros aspectos do México, mas esta é uma rubrica de futebol, e os mexicanos adoram futebol. Apesar do sucesso em campeonatos do mundo se resumir a duas presenças nos quartos-de-final, e apenas quando organizou por duas vezes o torneio, a selecção mexicana tem 14 (catorze) participações em fases finais, sendo apenas superada por Argentina, Itália, Alemanha e Brasil. É um facto que estando colocada na zona CONCACAF de apuramento, que engloba as federações da América Central, Norte e Caraíbas, a concorrência não é muita, e seria problemático qualificarem-se se estivessem colocados na zona sul-americana, para não dizer na Europa, o que seria irrealista. Mesmo assim, e devido a um grande investimento nos últimos 30 anos, o México é uma potência no futebol jovem, e atingiu o pique da evolução nos escalões de formação quando há dois anos venceu o torneio olímpico em Londres, derrotando na final o Brasil. A selecção principal tem beneficiado de crescente número de estrangeiros a alinhar no futebol europeu, e tem trazido dos mundiais algumas boas recordações, com uma vitória na Taça das Confederações pelo meio, no ano de 1999, realizada exactamente no México. Vamos então à resenha histórica.


Antonio Carbajal, uma lenda...dentro do género.

A selecção mexicana foi uma das convidadas pela FIFA a participar na edição de estreia do mundial, realizada no Uruguai, e demonstrou ser, a par da Bolívia, a equipa mais frágil, perdendo os três jogos que disputou por goleada: 1-4 c/França, 0-3 c/Chile e 3-6 c/Argentina. Em 1938 foi necessário passar pela qualificação, e aí perdeu a vaga para os Estados Unidos. Sem participar em 1938, regressaria em 1950 no Brasil, perdendo de novo todos os jogos da fase de grupos, e quatro anos depois na Suíça, mais do mesmo. Com oito derrotas noutros tantos jogos, os mexicanos conseguiram finalmente não perder uma partida no mundial de 1958 na Suécia, onde na fase de grupos conseguiram um empate a um golo com o País de Gales. Antes haviam perdido por 3-0 com a Suécia e a seguir perdiriam por 4-0 com a Hungria, mas foi um progresso. Em 1962 no Chile estreavam-se a perder por 0-2 com o Brasil, com golos de Zagallo e Pelé, e depois com a Espanha por 0-1, e já sem hipóteses de qualificação, acontecia algo de extraordinário: venciam a Checoslováquia por 3-1! Foi um "cinco de mayo" fora de época no país dos aztecas, pois à 14ª tentativa, lá conseguiam ganhar um jogo de um campeonato do mundo. Em 1966 Inglaterra também não estiveram mal, apesar de não conseguirem repetir o feito do mundial anterior, e empatavam com França e Uruguai, perdendo apenas por 0-2 para a equipa da casa. Estes cinco mundiais entre 1950 e 1966 tiveram algo em comum na equipa mexicana - o guarda-redes. Antonio Carbajal, que tinha 21 anos acabados de fazer quando se estreou no mundial do Brasil, e 37 quando se despediu na Inglaterra, reparte com o alemão Lothar Matthaus o recorde do jogador com mais presenças em fases finais de mundiais, mesmo tendo alinhado apenas em 11 partidas, contra as 24 de Matthaus. A título de curiosidade, o senhor ainda está vivo, e tem a bonita idade de 84 anos.


Pode-se dizer que Carbajal nasceu demsiado cedo, pois logo no primeiro mundial após "pendurar as luvas", o "seu" México organiza o torneio final, e chega pela primeira vez à fase seguinte. Nesse ano de 1970, onde Pelé teve o "seu" mundial, os mexicanos passaram o Grupo 1 com um empate a ero com a União Soviética, e vitórias por 4-0 sobre El Salvador e 1-0 sobre a Bélgica - e só para chatear o pobre Carbajal, não consentiram qualquer golo nesta primeira ronda. Tudo mudaria de figura nos quartos-de-final, onde a poderosa Itália não lhes deu qualquer hipótese, vencendo por 4-1, apesar dos mexicanos se terem adiantado no marcador aos 13 minutos, com um golo de Jose Luis Gonzalez. Os anos 70 não seriam favoráveis à selecção mexicana, que falharia o mundial da Alemanha em 74, e em 78 na Argentina voltaria a perder todos os jogos da fase de grupos. Em 1982 também não seria capaz de se qualificar para o mundial de Espanha, perdendo para as Honduras na qualificação.


Mas nada como organizar um campeonato do mundo para deixar os mexicanos inchados de orgulho. Em 1974 a FIFA atribuíu a organização do mundial de 1986 à Colômbia, mas três anos antes do torneio, os sul-americanos alegaram razões económicas para desistir, e já que o México tinha as infra-estruturas de 70 ainda mais ou menos em condições, foi só mudar o mundial um pouco mais para o norte. Novamente como país organizador, o México tinha uma das suas melhores gerações de futebolistas de sempre, e foram estes a base para o relativo sucesso da equipa actual. A grande estrela da companhia era o avançado Hugo Sanchez, que fez história ao serviço dos espanhóis do Real Madrid, e já antes disso tinha dado provas no Atletico de Madrid. Integrados no Grupo B, com Bélgica, Paraguai e Iraque, os mexicanos arrancaram com uma vitória por 2-1 contra os belhas no Estádio Azteca, a rebentar pelas costuras, com 110 mil espectadores nas bancadas. Hugo Sanchez seria o autor do segundo golo da equipa da casa. Depois de um empate a um golo com o Paraguai, vitória por 1-0 contra o Iraque, e passagem garantida à fase seguinte, e em primeiro lugar no grupo.


Nos oitavos-de-final o México teve um adversário acessível, a Bulgária, repescada do Grupo A. O primeiro golo foi da autoria de Carlos Negrete, e que grande golo, que viria a constar da galeria dos melhores golos de sempre em mundiais de futebol. Esta vitória contra os búgaros foi a única do México em fases a eliminar dos campeonatos do mundo. Negrete passaria por Portugal, pelo Sporting, onde não teria sucesso. Nos quartos-de-final os mexicanos encontravam a Alemanha Ocidental, e apesar de terem aguentado o nulo no marcador durante os 120 minutos, pecariam pela má pontaria na lotaria dos "penalties", onde apenas Negrete conseguiu concretizar, contra a eficácia plena dos quatro remates alemães. Apesar do melhor resultado de sempre, o México ficaria de fora do mundial de Itália em 1990, pois as suas selecções foram todas banidas pela FIFA por dois anos em 1988, devido a um escândalo de falsificação da idade de jogadores durante o apuramento para o mundial de juniores de 1989.


Seria a estratégia distrair os avançados?

Em 1994 o México regressaria no mundial dos "vizinhos" Estados Unidos, e a partir daqui não mais falharia uma fase final, e sempre com o mesmo resultado. Hugo Sanchez, então ao serviço do Rayo Vallecano, regressou aos 35 anos, mas a estrela maior era o guarda-redes Jorge Campos, que em sete anos ao serviço dos Pumas tinha apontado 34 golos no campeonato mexicano - a maioria de livre ou de "penalty", mas também alguns que resultavam de jogadas de bola corrida, pois em algumas partidas jogava na posição de avançado. No entanto Campos nunca se atreveu a fazer o mesmo pelo México, ou nunca jogou noutra posição além da baliza, pois em 130 internacionalizações nunca marcou um único golo - nem de "penalty". Participou em três mundiais, entre 1994 e 2002, e nos Estados Unidos os mexicanos estavam praticamente a jogar "em casa", apesar da primeira fase ter sido passada com dificuldade. Depois de uma derrota chocante frente à Noruega por 0-1, veio uma vitória contra a Rep. Irlanda por 2-1, e um empate a um golo com a Itália dava não só o apuramento, como também a vitória no grupo. Nos oitavos-de-final o "carrasco" foi a Bulgária, que se "vingaria" de 86, e tal como contra a Alemanha Ocidental nesse ano, o México era afastado nos "penalties". Em 98 passam o grupo com a Holanda, deixando a Bélgica de fora, e nos oitavos perdem com a Alemanha por 2-1. Em 2002 vencem um grupo complicado, com Itália, Croácia e Equador, mas são surpreendidos pelos vizinhos e rivais Estados Unidos nos oitavos, por 2-0.


Em 2006 o sorteio dos grupos para o mundial da Alemanha determina que o México vá jogar pela primeira vez com a selecção portuguesa em campeonatos do mundo. Preocupante para Portugal, sabendo da tendência para os mexicanos passarem a fase de grupos, mas com o Irão e Angola como restante concorrência, era fácil prever que os portugueses passariam juntamente com os centro-americanos. E assim foi, pois após vitórias sobre Angola por 1-0 e Irão por 2-0, Portugal defrontava o México em Gelsenkirchen já com o apuramento garantido, e alinhava com uma equipa de segunda linha, bastando o empate para vencer o grupo. Os mexicanos tinham vindo de uma vitória por 3-1 frente ao Irão, e de um empate sem golos com Angola, e estavam obrigados a vencer se quisessem terminar à frente dos portugueses. Só que mesmo sem alguns habituais titulares, Portugal chegava aos 24 minutos a vencer por 2-0, com golos de Maniche e Simão, este de "penalty", mas cinco minutos depois o México reduzia por Kikin Fonseca, que passaria mais tarde pelo Benfica, mesmo que discretamente. Portugal venceria o jogo por 2-1, e o México seria afastado nos oitavos pela Argentina por 1-2, após prolongamento.


Em 2010 na África do Sul o México tinha finalmente um desafio à altura. No Grupo A com a equipa da casa, a França, finalista em 2006, e o Uruguai, ninguém se atrevia a excluir nenhuma das equipas da fase seguinte da prova. Treinados pelo ex-internacional Javier Aguirre, que já tinha comandado a selecção no mundial de 2002 e vencido em 2009 a Gold Cup, a competição continental da CONCACAF, os mexicanos contavam com jogadores da classe de Ricardo Osorio, Carlos Salcido, Gerardo Torrado, Carlos Vela ou Giovani dos Santos, a geração com mais jogadores a alinhar na Europa, e capitaneados por Rafael Marquez, que entre 2003 e 2010 representou o Barcelona, vencendo por duas vezes a Liga dos Campeões. Depois de um empate a um golo frente à África do Sul na estreia, veio a vitória por 2-0 contra a França, onde o México mostrou porque se qualifica sempre para a segunda fase dos mundiais. Os golos foram apontados por Javi Hernandez, conhecido por "Chicharito", ou "pequena ervilha", que na altura com 21 anos ganhava tanto protagonismo que assinaria pelos ingleses do Manchester United. O segundo golo foi apontado pelo veterano Cuauhtémoc Blanco. E quem é este tipo com um nome próprio tão castiço? Vejam bem:


Isso mesmo. E Blanco, que participou em três campeonatos do mundo e um sem número de torneios pela selecção mexicana, incluíndo os Jogos Olímpicos de 1996 em Atlanta, e a gloriosa campanha na Taças das Confederações em 1999. Um total de 123 internacionalizações, com a última esta quarta-feira, aos 41 anos, num particular frente a Israel, que os mexicanos venceram por 3-0. Mas de volta a 2010, o México perderia depois com o Uruguai na 3ª jornada do grupo, e nos oitavods novamente com a Argentina treinada por Maradona, por 3-1, e desta feita sem necessidade de recorrer a prolongamento. Neste mundial de 2014, e depois de um apuramento mais complicado que o habitual, estão no grupo do Brasil, a equipa da casa, Croácia e Camarões. A confirmar-se a tendência dos últimos anos, "canarinha", croatas e africanos terão que disputar a "outra" vaga de acesso aos oitavos, e nessa fase quem defrontar os mexicanos, pode começar já a pensar nos quartos-de-final. Arriba!



quinta-feira, 29 de maio de 2014

Autópsia de uma morte anunciada


A polémica da lei do Regime de Garantias aos titulares dos principais cargos públicos caíu finalmente, com o anúncio esta manhã da suspensão da votação da proposta na especialidade, mandando o diploma para consulta pública. Quem estava contra esta lei que considera justa e desadequada sente-se vitorioso, e o Executivo poderia evitado o embaraço, não fosse tanta a hesitação que o levou a esperar que as hostes se acalmassem - quando era mais que óbvio que não se isso nunca iria acontecer. A sensação que ficou no rescaldo dos protestos que se têm feito escutar contra o diploma na última semana, com os pontos altos nas manifestações de Domingo e terça-feira, quem é que saíu reluzente, e quem saíu "queimado"? Ou ainda quem podia ter ficado mais bem visto mas perdeu uma boa oportunidade, e quem se safou de boa de um "castigo" pior? Vamos ver.



OFUSCANTE


Quem sai a cintilar de tudo isto é a população de Macau, essa entidade colectiva e anónima que teima em permanecer silenciosa nas alturas em que talvez fosse mais sensato "partir a loiça", mas desta vez disse "presente", e demonstrou que está atenta, e que não pensem em fazer dela gato-sapato. Para conseguir esta importante vitória, contaram com o auxílio das redes sociais, que também ficam fortalecidas com o desfecho dos acontecimentos dos últimos dias, e provam que através da facilidade com que fazem chegar a informação a qualquer parte, e à sua capacidade de mobilizar as massas e permitir juntar milhares de pessoas em apenas poucos minutos, ao mesmo tempo que estimula a criatividade e o espírito críticos dos seus utilizadores. Só é pena que em Macau as telecomunicações estejam na mão do poder instituído, e que tentem limitar as capacidades deste precioso e tão útil instrumento de informação e partilha, tentando instrumentizá-lo - só nos resta tentar impedir que isso aconteça, e tal como neste episódio com final feliz, bater o pé e dizer "não". Tiro a ambos, residentes de Macau e cibernautas o meu chapéu, estão de parabéns.


Sulu Sou, nesta imagem a comer algodão-doce é ainda sem a sua característica barbicha, foi um dos grandes vencedores individuais desta contenda, se é que podemos pôr as coisas nestes termos. Foi interessante vê-lo ali de megafone em punho, ou ainda de braço levantado, gritando palavras de ordem e incentivando os manifestantes, sempre de forma pacífica. Representando a Associação Consciência Macau, que fundou juntamente com Jason Chao, soube estar, não se acanhou nem se deixou levar pelo protagonismo, e parece ter também uma empatia com as câmaras - é estético, o moço. Sulu é um recém-licenciado, de 25 anos, que em de Setembro de 2013 concorreu às eleições para a AL como nº 2 da lista da Associação Novo Macau, encabeçada por Au Kam San, e já na altura tinha-se revelado uma boa surpresa. Sendo já uma promessa da política local, vamos ver se com o amadurecimento se confirmará como uma certeza. Um bom exemplo do que devia ser a juventude em Macau: mais interessada, atenta e participativa.


Dizem que "quem sabe nunca esquece", e esta máxima pode-se aplicar na perfeição ao deputado Ng Kuok Cheong, que se saíu muito bem na sua função de combate à proposta de lei dentro da própria AL. Ao recusar-se a assinar a versão final do diploma a que se opôs desde a primeira hora, ao mesmo tempo que se mostrou sempre em sintonia com o seu colega de bancada Au Kam San, passando o "vírus" da incoerência de que por vezes são acusados para outros personagens deste "filme". O veterano deputado de outras lutas mostrou ainda estar para durar, pelo menos para esta legislatura, e quem sabe para uma próxima (Ng terá 60 anos em 2017, data das próximas eleições). Sem dúvida que o Novo Macau ganhou pontos, o que vem mesmo a calhar depois da derrota nas urnas em Setembro do ano passado, onde a associação começou a acusar um certo desgaste.


Esta foi sem dúvida uma semana agitada para os politólogos, "opinion-makers" e afins, com todos a querem meter a sua colher opinativa no pudim da contestação. Gostei de alguns comentários que ouvi (pela primeira vez senti-me em sintonia com o economista Albano Martins, que esteve esta noite no Telejornal), gostei menos de outros, mas para mim que se destacou foi Eilo Yu, professor da Universidade de Macau. Apesar de ser ainda um jovem - pelo menos aparenta - mostrou uma perspicácia que não é comum ver em Macau, primando pela concisão e pela forma directa com que analisou a crise. Teve ainda o mérito de colocar o dedo na ferida, trazendo para a mesa de debate a possibilidade de Pequim reconsiderar o apoio ao Chefe do Executivo, uma hipótese que muito boa gente terá pensado, mas que ele teve a coragem de lançar na discussão. Mais uma cabecinha pensadora que devia servir de exemplo às gerações futueras da RAEM, mesmo tendo em conta que se trata de um académico.




INTERMITENTE


A metade (maior?) do grupo Consciência Macau, ao lado de Sulu Sou, Jason Chao voltou a chamar a si o protagonismo deste protesto, reclamando vitória após o Chefe do Executivo ter finalmente cedido e recuado na votação diploma. Jason Chao sai satisfeito e confiante, mas a sua imagem parece definitivamente desgastada. Muitos dos participantes nas manifestações de Domingo e de terça-feira não reconhecem nele um líder, e alguns acusam-no mesmo que querer chamar a si o protagonismo. Jason Chao, que admiro e reconheço mérito e coragem, tem como único senão o seu lado "radical", do "rebelde sem causa", que critica sem propôr alternativas, quem destrói sem fazer planos de reconstruir. Talvez um ou dois tons abaixo na sua verve contestatária e alguma participação no debate de ideias em vez de se limitar à confrontação quando toca aos temas fracturantes lhe tragam um pouco mais de carisma.


José Pereira Coutinho cantou vitória após o recuo do Executivo em votar a lei, disparou em todas as direcções, e aproveitou para atacar mais uma vez o seu ódio de estimação, a secretária Florinda Chan. Se perguntamos a Coutinho o que pensa desta proposta de lei, ele diz-nos que "não serve para cortar às tiras, metê-la num rolo e pendurá-la na sede da ATFPM". Deixou isto bem claro, e até se saiu bem no departamento da teatralidade. Agora a pergunta que se impõe: porque é que em 16 de Dezembro do ano passado, quando a lei foi votada na generalidade, Pereira Coutinho votou contra, mas o seu nº 2 Leong Veng Chai votou a favor? Penso que aqui nem sequer se pode usar como desculpa qualquer tipo de "liberdade de voto", uma vez que o deputado da Nova Esperança deixa bem claro que esta lei não presta, e que só passaria por cima do seu cadáver. Então para que serve à Nova Esperança ter lá um segundo deputado a "atrapalhar" o primeiro? Uma pergunta que deixa os eleitores de Pereira Coutinho na dúvida, e à qual só ele poderá responder.


Florinda Chan sai estranhamente imaculada de todo este processo, e por duas razões: primeiro porque qualquer tipo de legislação tem com toda a certeza o dedo da secretaria para a Administração e Justiça, que ela dirige, e diz-se por aí mais ou menos com algum grau de certeza que esta lei foi feita à medida para ela. Contudo não se viu qualquer ataque especialmente focalizado na secretária - e na hora de se "contestar" ela costuma ser habitualmente um dos alvos predilectos - e mesmo nas redes sociais escapou apenas com uma ou duas "bocas foleiras". Valeu a pena abrigar-se atrás da larga moldura do Chefe do Executivo, que levou sozinho com a "fruta podre" que estava destinada para os dois.


Uma adição de última hora ao elenco deste "filme" é Chan Hong, deputada da AL nomeada pelo Chefe do Executivo, e vice-directora da Escola Hou Kong, que é conhecida por administrar o ensino de matriz "patriótica", e que se coloca incondicionalmente do lado do poder, e acima do tudo acata com uma obediência cega qualquer directiva emanada por Pequim. A polémica com a deputada tem a ver com a manifestação da última terça-feira, onde alegadamente terão participado alguns alunos da Escola Secundária de que é responsável, e que ostentavam o uniforme escolar, além de um cartaz onde se lia "Vergonha da Hou Kong". Os alunos terão sido advertidos verbalmente, e segundo a imprensa um deles alega ter-lhe sido dito que a sua conduta teria reflexo nas notas. Chan Hong defende-se dizendo que tudo o que quis foi saber se por "Vergonha da Hou Kong" se referiam à escola, ou à cidade de Macau, uma vez que "Hou Kong" é um dos nomes pelo qual o território é conhecido entre os chineses. A deputada fica com o benefício da dúvida, pois se de facto se confirma que os alunos participaram da manifestação trajando com o uniforme da Hou Kong, agiram mal, e por outro lado o caso foi denunciado não pelos próprios alunos, mas por um ex-aluno actualmente a estudar em Taiwan. São muitas "tabelas" para se poder dizer que a bola entrou, e com os ânimos exaltados, é fácil acusar sem provas concretas.



APAGADO


Chui Sai On é quem mais fica prejudicado em termos de imagem com esta "telenovela" da lei das garantias para os titulares dos principais cargos públicos. Como já tinha dito ontem, parece-me que ao CE falta algum apoio em forma de aconselhamento que lhe permita não tomar algumas decisões, que parecem ser tomadas de forma irreflectida e impulsiva. Se isto vai afectar o resto do seu mandato? Claro que não, pois para todos os efeitos vai continuar a ser "o chefe", e afinal faltam poucos meses para o fim do mandato. Pequim poderá mesmo ponderar uma alternativa a Chui Sai On, que se assim vê em risco uma reeleição que parecia praticamente assegurada? Talvez, mas isso só Pequim poderá responder, e pode ainda depender de jogadas de bastidores, daquilo que Pequim e CE tiverem para discutir, e que só a eles diz respeito. Se a sua autoridade ficou em cheque? Isso com toda a certeza. Depois deste incidente que termina com o Executivo a dar a mão à palmatória, a posição de Chui Sai On fica fragilizada: os críticos vão ficar atentos ao mínimo dos deslizes, e não poderá mais contar com a bonomia da opinião pública. Mas pode usar isso a seu favor, porque não? É só mostrar que pode e que sabe fazer melhor.


Muito má, a imagem deixada pelo vice-presidente da AL, Lam Heong Sang, que se comportou como aquilo que hoje em dia é designado por "bully". Pior do que isso. Ao confrontar um jornalista que lhe fez uma pergunta - e estava apenas a fazer o seu trabalho, no fundo - Lam respondeu mal, e ao mesmo tempo que revelou uma enorme falta de "chá", personalizou o desconforto que se sentia entre a legislatura perante a aprovação desta lei. Se o sr. Lam Heong Sang pensa que toda a gente tem mais é que respeitar as decisões do Executivo e não tem sequer voto na matéria, porque para isso estão lá ele e os seus amigos, então nunca deveria ocupar o cargo de vice-presidente da AL. Agora ficámos a perceber porque é que o seu desempenho como deputado tem sido tão discreto.


Quem também sai desta trapalhada a "andar à caranguejo" é o deputado Chan Chak Mo, que presidiu à 2ª Comissão da AL, a tal que redigiu a infame lei, e que a vê agora ser retirada - em suma, o deputado Chan Chak Mo fez um mau trabalho. O pior foi a sua atitude perante a evidente insatisfação com o diploma, e da forma como deu a entender, mesmo através da imprensa, que "quer gostem ou não da proposta, ela vai passar na mesma, e vocês comem caladinhos". Mas não "comeram", e pelos vistos há mesmo quem queira provar nem da lei, nem de mais nada vindo do sr. deputado Chan Chak Mo. Corre há alguns dias nas redes sociais uma petição, o um apelo, se preferirem, a que se boicotem os restaurantes da cadeia "Future Bright", de que o deputado é proprietário em 45%. Chan Chak Mo diz "não entender" esta iniciativa, e lamenta que se misturem as suas funções de deputado com as de empresário. Hmmm...e eu que sempre pensei que a única razão porque Chan Chak Mo é deputado é devido ao facto de ser empresário, e como tal é eleito pela via directa, dos interesses empresariais, desportivos e culturais (ignorem as últimas duas, que aquilo é treta). Mas numa coisa ele tem razão: o empresário Chan Chak Mo não é a mesma coisa que o deputado Chan Chak Mo. Consegue ser ainda pior!


O advogado e deputado Leonel Alves é uma figura que muito estimo, e é com pena que o vejo a fazer o papel de "apaga-fogos" deste Executivo. Primeiro foi chamado a justificar o facto do antigo CE, Edmund Ho, ser dispensado como testemunha do caso Ao Man Long, e mais tarde, num incidente relacionado com o mesmo caso do ex-secretário condenado a 30 anos de prisão, veio apregoar a inocência de Susana Chao no caso da CSR, a companhia de tratamento de resíduos que a ex-presidente da AL se "esqueceu" ter tido em tempos parte como sócia maioritária. Na hora de revestir qualquer coisa que não parece lá muito lícita de uma capa de legalidade, chamam o "Neco", que indiscutivelmente é um homem de Direito. Só que aqui espalhou-se completamente ao comprido, e nem dizer que ficou a "pregar aos peixinhos" chega para ilustrar o cavaleiro da triste figura que acabou por ser, defendendo com unhas e dentes uma proposta que simplesmente não tinha defesa possível. Se a Chan Hong ainda dou o benefício da dúvida, no que diz respeito a Leonel Alves ficaram dissipadas quaisquer dúvidas quanto ao lado de que está. E lamento que esteja desse lado, tão mal acompanhado.


E decidi deixar para o fim a mais reles das criaturas: o deputado Mak Soi Kun, que é uma daquelas pessoas que não faz falta nem em Macau, nem em parte alguma. O deputado cuja lista União Macau-Guangdong foi a segunda mais votada das últimas eleições, muito à custa de aliciar velhos ignorantes e o outros ignorantes não necessariamente velhos a votarem neles em troco de comida (?), é a figura de proa da Associação dos Conterrâneos de Jiangmen, ou "Kong Mun" na sua versão em cantonês - uma daquelas associações de cariz regional a que não devia ser permitida actividade política devido à sua natureza tendencialmente bairrista. Ora esta tal associação organizou no Domingo passado uma contra-manifestação àquela que se opôs ao diploma, e pagou 500 patacas aos tais velhos ignorantes para irem fazer número, desconhecendo sequer a natureza do protesto de que participavam. De louvar o trabalho da imprensa chinesa, nomeadamente o canal Ou Mun da TDM, que desmascarou a farsa com uma facilidade tal que pareciam estar a tirar do caminho teias de aranha.
Hoje, inquirido sobre esse tema, Mak Soi Kun delegou responsabilidades para o "presidente da associação" - faz todo o sentido, pois uma vez que estando a exercer o cargo de deputado, Mak atribuiu essas funções para um dos seus "cavalos". O que me incomoda é ele querer insinuar que não teve nada a ver com a iniciativa, e querer fazer-nos a todos de parvos, ou idiotas. Enfim, como ele próprio. Está sozinho e precisa de companhia, coitadinho.

Eu desculpo, e vocês?


O Chefe do Executivo da RAEM, Fernando Chui Sai On, veio hoje anunciar a suspensão da votação do diploma da proposta de lei que estabelece um regime de garantias para os titulares dos principais cargos públicos, uma decisão tomada depois de uma "semana horribilis" para o Executivo, com protestos de rua contra o diploma, e uma série de "gaffes" cometidas por algumas figuras da nomenclatura, e que em nada ajudaram a pôr água na fervura. Acompanhado da secretária para a Administração e Justiça, Florinda Chan, e do porta-voz do Conselho Executivo, Leong Heng Teng, o CE anunciou ainda que o diploma segue agora para consulta pública depois de se procederem às alterações necessárias, e apresentou ainda um pedido de desculpas à população pela demora em decidir-se pela solução, e julgo ainda pela forma pouco hábil com que o fez - isto estando limitado pelo que me chega das traduções, é óbvio.

Eu, pela parte que me toca, desculpo o CE, não lhe guardo rancor, e espero que esteja mais atento da próxima vez, e saiba ler os sinais que indicavam apenas num único sentido: fazer cair a proposta. Não é por acaso que saíram à rua vinte mil pessoas, gente de todas as idades, estratos sociais e até alguns habituais apoiantes do Executivo. Estar contra uma lei não é a mesma coisa que estar contra o Executivo, e é saudável que as pessoas se manifestem pacificamente, como aconteceu, e é um erro de palmatória tratar esta demonstração como um simples "fait-divers". Era urgente agir com rapidez, o que não veio a acontecer, e no fim o CE estende a mão, sujeita-se à tal palmatória, e faz a devida retracção. Tudo bem, era isso mesmo que devia ter feito, e mais vale tarde que nunca. Se confiou em alguém que lhe tenha dito para ignorar a "vox populi" e submeter a lei a votação na mesma, então foi mal aconselhado.

Não é inédito o que aconteceu em Macau, não revela sinal de fraqueza, nem chega a ser um atestado de incompetência - pelo menos da parte do próprio Chui Sai On, ou apenas dele, claro. Não sinto que seja necessário procurar aqui responsáveis pela falácia da proposta, um "bode expiatório", e se a lei é mesmo necessário (continuo a achar que não, atendendo às características de Macau e da sua Economia), então que se revejam os aspectos que levaram a população às ruas reclamando tratar-se aqui de uma "injustiça". Penso que o artº 4º, o tal que se refere à imunidade do CE devia ser o primeiro a submeter-se à "cosmética", e as tais subvenções de que os detentores dos altos cargos públicos virão eventualmente a beneficiar devem também ser revistas - em baixa, logicamente. Os valores são simplesmente demasiado altos, e se é verdade que actualmente há dirigentes que exercem os cargos há década e meia (estão protegidos por outros tipos de regime, mas isso é outra conversa), no futuro existe o risco de premiar quem trabalha meia dúzia de anos de forma mais generosa do que quem trabalha vinte ou trinta, e nunca chega a usufruír das regalias contempladas nesta versão da lei.

Penso que será excusado continuar a bater nesta tecla, agora que Chui Sai On veio emendar o erro. Os seus opositores podem usar este incidente no futuro, mas isso só os virá fazer perder razão. É preciso agora olhar para a frente, repensar seriamente a lei que agora acaba de cair, e tentar ter um pouco mais de tacto da próxima vez. Sinceramente gostaria que o actual CE fosse reeleito, pois de facto é difícil pensar numa alternativa fora da elite que tem governado Macau desde a primeira hora dia 20 de Dezembro de 1999: mesmo que não primem pelo brilhantismo, estes dirigentes que temos são "the devil we know" - "o diabo que já conhecemos", e portanto pelo menos sabemos com o que se pode contar. Se isto afectou a sua imagem, penso que não existem dúvidas, mas esta é uma oportunidade para Chui Sai tomar finalmente o pulso à governação, e mostrar-se mais atento ao que se passa no terreno. É bom também que escute as opiniões, e evite a petulância que demonstrou no último Domingo, quando se recusou a receber os organizadores da manifestação. Não estou a dizer que era obrigado a recebê-los, e certamente que ele consegue justificar a recusa de mil e uma maneiras que me deixarão convencido, mas tratando-se de uma situação especial como aquela, só veio revelar distanciamento da população que governa.

É um facto que o CE ficou um pouco "perdido" perante esta situação, e não é por acaso, pois num território conhecido pela sua pacatez, tinha em mãos a maior manifestação em mais de 50 anos - não era fácil. Hesitou, recuou, optou erradamente pelo silêncio como forma de ver se a "tempestade" passava, deixou os seus apoiantes tradicionais prestarem-se a figuras ridículas, em suma, na hora de ter mão firme, faltou-lhe o engenho. Com isto tudo deixou o caso transbordar e chegar ao conhecimento do Governo Central, que naturalmente não gostou, e pode ter estalado o verniz da certeza da sua reeleição em Novembro próximo. No entanto gostei da forma como se dirigiu esta manhã à população, revelando tranquilidade, boa disposição e até algum humor, uma grande diferença da última vez que o Executivo da RAEM ficou, digamos, "com as calças na mão", aquando da prisão do ex-secretário Ao Man Long. Desta vez não houve angústia, nem ambiente pesado, quase fúnebre - Chui Sai On soube lidar com a forma com que admitiu o seu erro, e deixou no ar a ideia de que não estará completamente errado, e quem sabe se tudo não passou apenas de um "mal-entendido", e da próxima promete deixar a população informada sobre os conteúdos deste ou de outros diplomas "fracturantes".

Quem esperava ver um CE abatido, derrotado, rancoroso, ficou certamente desiludido, mesmo que no somatório da avaliação de como geriu esta crise, a nota continue a ser negativa. Terá outros testes onde poderá recuperar, espero. Ao defender a lei que insiste ser "necessária", brincou com a sua estrutura física, assumindo "ser gordo", e não estar à espera de "engordar mais ainda" com as regalias que vai auferir depois de ver a lei eventualmente aprovada. Disse ainda que "não precisa do dinheiro" (isto já sabemos, pois), e que faz planos de "doá-lo à caridade". É muito nobre da sua parte, só que é melhor ter cuidado com a "caridade" que escolhe. Se for a Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu, aí a emenda será pior que o soneto. Mas julgo que depois desta tormenta o nosso CE "despertou" para o facto que, e afinal de contas, a malta não anda aqui a dormir na forma. Mais uma vez obrigado, sr. Chefe do Executivo, e boa sorte do que resta do seu mandato. O resto logo se vê.