terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Bairro do Oriente 2014


O Bairro do Oriente chega ao fim de 2013, e Dezembro foi o mês com mais visitas durante o ano agora findo: 11212 contra as 11159 de Janeiro - muito obrigado a todos os que ainda vêem neste blogue a voz mais independente e atenta da crítica da blogosfera de Macau. Não é que exista muita concorrência, e para quem acha que os blogues convencionais estão fora de moda e prefere a abreviatura do Twitter ou a interactividade dos grupos no Facebook, está no seu direito. Eu cá prefiro gravar nas paredes da caverna da web, que quando chegarmos aos fins dos dias, pode ser que a próxima civilização trate este espaço como prova de vida mais ou menos inteligente na Terra em tempos idos. Mais uma vez espero que 2014 seja pelo menos melhor que 2013 para todos, mesmo sabendo que isso é impossível. Do Bairro do Oriente, que em 2013 teve o seu segundo ano mais produtivo com 1900 "posts", esperem mais do mesmo, mas melhor. Salut!

Happy New Year

2013


Agora sim, é a hora de dizer adeus a 2013. Que descanse em paz, que mais uma vez não deixa saudades.

O amor é cego...e estúpido


Um tribunal italiano anulou a sentence que condenou um pedófilo a cinco anos de prisão porque a sua vítima estava "apaixonada". Pietro Lamberti, funcionário dos serviços sociais da vila de Catanzaro (Calábria, sul de Itália), foi condenado em Fevereiro de 2011 a cinco anos de prisão por atos sexuais com uma menor de 14 anos, uma pena confirmada no mesmo ano após um recurso. Numa decisão proferida a 15 de outubro, mas revelado por um órgão de comunicação social italiano mais de dois meses depois, o Supremo Tribunal anulou o julgamento e ordenou um novo julgamento em segunda instância. Na opinião da justiça italiana, o tribunal de recurso não teve suficientemente em conta "o consenso" entre o homem e a menina, a "existência de uma relação amorosa, a ausência de coerção física e o facto de a menina estar apaixonada". Segundo o jornal "Il Quotidiano dela Calabria", que revelou o caso, a criança vem de uma família pobre, que tinha confiado a menina a Lamberti. Após uma série de escutas telefónicas, o homem foi apanhado em flagrante com a criança na cama. Apesar de ter passado despercebida no momento da decisão, a sentença gerou reações de indignação nas redes sociais, com muitos a considerarem-na como uma "validação da pedofilia" pela justiça italiana.

Emergência sem saída


Um vídeo interessante, divulgado por um turista russo na China. De visita a um centro comercial numa cidade chinesa não identificada, o jovem resolve verificar uma saída de emergência, para encontrar apenas uma porta, uma parede, e...outra porta, ao lado da primeira, que o leva de volta ao ponto de partida. Bom, pelo menos a saída de emergência está lá, mesmo que não tenha...saída. Fica apenas a emergência, portanto.

Benfica come as passas na Madeira


O Benfica terminou o ano civil de 2013 com uma vitória, ao bater o Nacional no Funchal por uma bola a zero, em jogo a contar para a 1ª jornada do grupo D da Taça da Liga. Jorge Jesus apresentou um onze composto de um misto de habituais titualres a alguns jogadores menos utilizados, mas no arriscou muito, e conseguiu a vitória sem carregar muito no acelarador. O único golo chegou aos 31 minutos pelo defesa nacionalista Mexer na própria baliza, desviando para o pior lugar um cruzamento da direita de Gaitán. O Benfica estreou-se assim na competição em que é a equipa com mais sucesso, tendo vencido quatro troféus, conquistando os três pontos, num grupo onde estão ainda Gil Vicente e Leixões, que jogam apenas a 9 de Janeiro.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Adios di Macau



Não resisti a deixar aqui aquele que considero um dos mais bonitos poemas de Adé dos Santos Ferreira, "Adios di Macau". Neste poema, escrito pelo poeta-mor da "lingu maquista" pouco tempo antes da sua morte, fica expresso o sentimento de incerteza da comunidade macaense quanto ao futuro da terra que os viu nascer, bem como a angústia de poder precisar de optar em partir para outro lugar, deixando para trás os costumes e tradições a que se foram habituando, e tudo pela força das decisões tomadas nos gabinetes pelos "gigantes" que queriam decidir por eles o futuro de Macau. Quando gravou este lindo texto, Adé sabia que já não lhe restava muito mais tempo de vida, consumido lentamente pela doença incurável que o apoquentava, mas falava por todos o seus, pelos macaenses. Este é um registo dos mais preciosos que existem da história das vivências lusitanas e da aventura da expansão portuguesa. Se o resultado foi este, então quer dizer que afinal valeu mesmo a pena.

Resta-me agradecer ao incansável Vitório do Rosário Cardoso por ter colocado este vídeo no YouTube, e só tenho pena de não ter conseguido encontrar a letra. Tenho-a no CD de Adé que me ofereçeram recentemente, mas é demasiado extensa para ser reproduzida neste espaço. Desafio a todos os que falam Português e não conhecem o patuá, ou conhecem mal, a tentar entender as palavras de Adé. Vão ficar encantados, com toda a certeza.

Os irredutíveis Lvsitanvs


O restaurante Lvsitanvs, inaugurado em 2011, deixou o espaço que lhe servia de sede, na Casa Amarela, perto das Ruínas de S. Paulo. Depois de pouco mais de dois anos de fados, feijoadas e bacalhaus, o Lvsitanvs foi literalmente corrido pelos proprietáarios do espaço, o grupo Future Bright Entertainment, representado pelo empresário e deputado Chan Chak Mo - e certamente com a participação de outros "chuchas" dos corredores do poder e senhores da nota preta cá do burgo. Acontece que o espaço foi alugado aparentemente "por uma módica quantia", por estima pela malta da Casa de Portugal, que explorava o Lvsitanvs, mas rapidamente os sócios da Future Bright acharam que aquilo era uma parvoíce, e que faziam melhor correndo com os gajos dali e abrir mais uma lojita negra para comer a pinha aos milhares de turistas do "tailoque" que vão ali ver os calhaus que sobraram da tal igreja tuga que ardeu, e comer os "Portuguese egg tarts", que têm sempre muita saída por ser "so typical Macao". Não é preciso um Lvsitanvs para vender "egg tarts" ou galos de Barcelos, duh!

Foi há coisa de três meses ou isso que soou o alarme: o Future Bright ia pedir uma renda dez ou vinte vezes superior ao valor actual, e o Zé Tuga fez como o seu primo Zé Povinho, e ficou com cara de cu, com os bolsos rotos a sair das calças e as mãos a fazer um gesto como quem diz "e agora?". E agora toca a sair daqui para fora, que segundo o próprio Chan Chak Mo, o grupo que representa tem que seguir as leis da pirataria, quer dizer, do mercado, e, vejam só, "não são uma associação de caridade". Oh oh. Bem, quando se fala em "associação de caridade" em Macau temos que ver bem do que se trata, pois de for qualquer coisa como a Tong Sin Tong ou a Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu, a palavra "caridade" está a ser usada livremente.

O que entendo eu das palavras de Chan Chak Mo? Que nós somos uns pobrezinhos, claro, e que estava a deixar-nos ("nos", salvo seja, "los", que eu não tenho nada a ver com isso) ficar ali por favor, por caridadezinha, ai coitadinho do tuga que quer uma lojinha no centro histórico, vamos lá deixar os sebosos vender o vinho tinto, comer o bacalhau e cantar o faduncho do pobrezinho. Agora "chau la", que vocês são "hou ma fan", sempre "mou chin". É verdade que o Future Bright é uma empresa com lucros que os tornam podres de ricos, e não precisavam da Casa Amarela para nada, mas podem ser ainda mais podres, cheirar ainda mais mal, e já agora porque não? Se calhar ouviram dizer que quanto mais ricos forem quando morrerem, mais hipóteses têm de adquirir uma nuvem de cinco estrelas no Céu. E se o preço das nuvens for como o preço da habitação em Macau, então o dinheiro nunca é demais.

Desconheço os termos do negócio que a Casa de Portugal fez com a Future Bright, ou em particular com Chan Chak Mo, mas se isto fosse comigo mandava o gajo pró c... . Sim, leram bem, eu dizia assim: "ó Chan Chak Mo: vai pró c..., pá". É como se faz na minha terra quando alguém nos passa a perna e se arma assim em parvo, em cigano-judeu ou judeu-cigano. Que vá mamar na quinta pata do cavalo. Que se monte nele e vá para Cacilhas, ou neste caso para Hong Kong, de onde é originário. Mas não, a Casa de Portugal e os seus distintos personagens não viram a cara à luta, e vão fazer funcionar o Lvsitanvs nas próprias instalações da mesma, na sede da Rua de Pedro Nolasco da Silva, em frente ao Consulado-Geral de Portugal. Ah, o quê? Espera aí que só agora percebi aquilo que acabei de escrever. Vão para onde, mesmo?

Portanto vamos recapitular: o Lvsitanvs vai ser transferido de armas e bagagens da Aldeia dos Gauleses do Astérix para a Aldeia dos Estrumpfes, é isso? Onde é que vão meter aquilo tudo? Naquela salinha ao lado do escritório? A ideia é, e isto nas palavras da presidente da CP, Maria Amelia António, "não deixar morrer o projecto". Dois disparares numa frase com apenas cinco palavras. A solução encontrada (como se isto fosse um grande problema), é apenas "temporária". Pois, pois, pode ser que daqui a uns meses encontrem um espaço jeitosinho ali para os lados de Zhuhai, a cinco quilómetros de Gongbei, com uma renda mais em conta. Ao projecto já lá vamos, mas "não deixar morrer"? Ó minha senhora, está mais que morto. Mudar o Lvsitanvs do local de onde foi escorraçado para a sede da CP é o mesmo que encontrar um cadáver separado da cabeça, atá-la ao resto do corpo com fita-cola e aplicar massagens cardíacas. Sabem quando é a hora de dizer chega e basta? Mais uma vez recorro ao léxico da minha terra: "c&g%m nessa m^rd@".

Quanto ao projecto, é bonito, sim, mas no papel, apenas. Um espaço como o Lvsitanvs seria uma boa ideia se fosse genuíno, original, com um lado mais "castiço" e menos elitista. Para retretes onde a nossa gente de bem despeja a caganeira não faltam sítios, locais, eventos ou oportunidades. O Lvsitanvs devia ser uma coisa do povo, da malta, onde se pudesse ir comer uma sandes de torresmos, beber um copo de traçado, jogar matraquilhos e andar à porrada. Em vez de irem lá ver a selecção todos bonitinhos e sentadinhos na cadeira a bater palminhas quando é golo, deviam enfrascar-se antes do jogo, dizer asneiras e andar à procura de adeptos da selecção adversária para lhes enfiar uns sopapos. O que se perdeu com a saída do Lvsitanvs da Casa Amarela? Nada. O que fica a ganhar com a continuidade num espaço declaradamente mais reduzido? Ainda menos. Outra vez como se diz na outra minha terra, que é Portugal inteiro: "já foste".

O exemplo de Mao e o Mao exemplo


Regressaram hoje às bancas os jornais em língua portuguesa de Macau, e das leituras de hoje destaco o suplemento "h" do Hoje Macau, antes publicado às sextas mas inseridos nas edições diárias durante toda a semana no actual formato. O prato forte foi o 120º aniversário do nascimento de Mao Zedong, fundador da RP China, comemorado no dia 26 de Dezembro. Mao Zedong: revolucionário, tirano e santo, de Carlos Morais José, Significado histórico da figura de Mao Zedong, de Pedro Baptista, e O homem por detrás do retrato de Mao, de Maria João Belchior, são os artigos com que o jornal assinala a efeméride, e que recomendo a leitura. No primeiro o director do Hoje faz uma análise do papel de Mao na "formatação", chamemos-lhe assim, da China actual, ao mesmo tempo que desenha o perfil de um homem que foi capaz do melhor e do pior. Tal como CMJ, sou um curioso da figura de Mao, e dos factos históricos que marcaram os três grandes períodos distintos do maoísmo: revolução ascenção e estado de graça; fracasso dos planos quinquenais, ruína e saneamento; retoma e consolidação do poder, Revolução Cultural, e morte. A diferença é que de tudo o que me foi dado a ver, ler e saber sobre Mao não me permite colocá-lo no mesmo pedestal que CMJ.

Primeiro gostava de referir uma imprecisão do Carlos logo no início do artigo, quando refere que Mao viveu "apenas" 73 anos, quando na verdade viveu 83. Quem sabe se tivesse vivido menos 10 anos teria sido tudo muito diferente, e a Revolução Cultural tivesse terminado mais cedo, evitando-se assim alguns dos equívocos a que esse triste episódio da história recente da China produziu. Posto isto fala-se da dupla personalidade de Mao. De um lado o homem inteligente e culto, o escritor, o poeta, o pensador e o estratega militar feito revolucionário, que durante a maior parte da vida lutou pela autonomia e afirmação do seu país e do seu povo. Do outro lado o ditador, o tirano, o Mao autoritário que sacrificou o mesmo povo que havia ajudado a levantar da opressão e da humilhação. Isto é mais uma vez a questão do copo meio cheio ou do copo meio vazio (tenho usado muito esta expressão ultimamente): Mao foi um tirano MAS foi também um brilhante estratega e revolucionário com méritos conhecidos, ou foi o responsável pela unificação e restauração da dignidade do país do meio MAS o também o idealista de inúmeras atrocidades que levaram à morte milhões de chineses?

O maior mérito de Mao foi ao mesmo tempo o seu maior erro. Mao queria o bem da China, queria o fim do mal e dos vícios que iam adiando o país com que todos os chineses sonhavam, combateu os japoneses, os nacionalistas, os imperialistas, levou todos os inimigos à sua frente persuadindo a massa camponesa a apoiá-lo, unificiou finalmente a China e os chineses, restaurou o orgulho e chegou ao poder. O problema foi a partir do momento em que se encontra na posição de líder, advinda da autoria dos feitos atrás referidos. Mao podia ser um brilhante pensador, estratega e todo o resto, mas não era um político. Concretizados os seus objectivos, seria a altura de procurar as pessoas certas para levar a cabo as reformas estruturais que o país precisava. Quem sabe incentivar o regresso de alguns "cérebros" da já então diaspora chinesa espalhada pelo mundo. Mas em vez disso Mao fez questão de segurar esse poder a todo o custo. Imaginem só que Salgueiro Maia liderava o movimento dos Capitães de Abril e resolvia apegar-se ao poder - e Salgueiro Maia era um anjinho, comparado com Mao. Mesmo "Che" Guevara, parceiro de Fidel Castro na revolução socialista cubana recusou o doce veneno do poder, e nem se demorou muito no cargo de "attaché" diplomático com que o recompensaram pelo seu esforço. Mao ousou ser diferente.

As razões que levaram Mao a fixar-se no poder só ele próprio deveria conhecer. Tanto CMJ como outras opiniões que tenho escutado dão-lhe o benefício da dúvida. Depois de séculos de instabilidade e conflitos que fizeram da China uma manta de retalhos, teria alguém feito melhor? Será que outro ou outros no lugar de Mao e a sua regência férrea a totalitária conseguiriam manter o difícil equilíbrio entre as imensas e díspares sensibilidades do mais populoso e um dos maiores países do mundo? Teriam Chang Ka-Chek e os nacionalistas feito melhor? Seria possível o iníciode uma nova ordem sem o apoio da URSS e de Estaline, que viria a ser considerado essencial? Seria possível unificar o país sob outra ideologia que não a socialista, ou sem os princípios do marxismo-leninismo que determinavam um aparelho de estado com o controlo total de todos os aspectos da política e da sociedade? Possivelmente não. Já ouvi dizer que alguns dos excessos cometidos por Mao tinham como finalidade realizar uma "limpeza" interna essencial, e sem a qual seria impossível a consolidação da unidade do país. Pode ser que seja assim, mas isso não iliba Mao de nada do que se viria a passer entre 1950 e 1976, altura do seu desaparecimento.

Mao começou por encetar dois planos quinquenais que viriam a resultar num rotundo fracasso. O segundo deles, que viria a ser conhecido por "Grande Salto em Frente", que visava a rápida industrialização do país em deterimento da produção agrícola levou a uma fome que resultou em dezenas de milhões de mortes. E o que fez Mao? Admitiu o erro? Não, passou à ofensiva e levou a cabo uma série de purgas e de perseguições aos seus críticos. Quando se viu desapoiado no interior do PC chinês, afastado do poder por Liu Shaoqi e Deng Xiaoping e remetido a uma posição simbólica, engendrou um plano para reassumir o controlo do partido e do país, e deu início a uma subversão total dos valores que seria a Revolução Cultural. Aproveitando-se do seu estatuto e da sua imagem, desenvolveu um culto da personalidade, contando para isso com o profundo atraso social de que o país ainda sofria, onde o analfabetismo e a pobreza eram ainda endémicas. O que tinham os pobres a ganhar com a estabilidade? O que tinham a perder com a anarquia e o caos? Sim, Mao era um brilhante estratega para o melhor e para o pior, e foi na Revolução Cultural que soltou o seu lado de Mr. Hyde.

A Revolução Cultural foi possivelmente o episódio mais surrealista da história mundial contemporânea. Quanto mais se sabe dos factos que marcaram esses dez loucos anos em que a China esteve completamente em "hold", fechada para o mundo como uma tartaruga dentro de uma carapaça, mais custa a crer que tudo aconteceu no planeta Terra, e há menos de 50 anos, em pleno século XX. E sim, eram homens modernos, e não neandertáis, que a levaram a cabo. Existe uma tendência, aliás referida pelo próprio CMJ, de atribuir as culpas dos excessos da Revolução Cultural à mulher de Mao, Jiang Qing, e ao seu Bando dos Quatro. Não nego que esta foi uma canalha criminosa da pior espécie, mas sempre com a benção do próprio Mao. Prova disso é que só viriam a pagar pelos seus crimes após a morte do grande timoneiro. Este era um dos tentáculos desse polvo que foi o Mao dos últimos anos; outros foram os guardas vermelhos, e o próprio livro de bolso que estes ostentavam (será que alguma vez o leram realmente, ou entenderam o que lá estava escrito?), que é da autoria de...sim, do próprio Mao. A Revolução Cultural é uma criação de Mao, e dizer o contrário é branquear os factos.

Tanto os guardas vermelhos como o próprio Mao teriam a consciência de que a Revolução Cultural tinha ido longe demais, mas terminar com ela era desvalidar o seu propósito. Foi uma medida radical entregar o controlo total aos camponeses e ao proletariado, mas mais radical seria retirar-lhes esse poder. O mal estava feito, e nem a operação de charme que foi a aproximação à América de Nixon surtiu algum efeito. Curioso como os chineses estavam tão absortos nos seus excessos que nem tiveram consciência de que o seu mentor se estava a sentar à mesa com o inimigo, que ele lhes havia ensinado a odiar acima de todo o resto. Os efeitos destes dez anos de loucura total ainda hoje se fazem sentir na China. A Revolução Cultural acabou quando Mao acabou, e a partir daí passou a ser legítimo virar a página e procurar outro rumo para o país. Atrevo-me mesmo a assumir que fosse Mao ainda vivo, e a China estaria ainda na Revolução Cultural. Em que moldes é que não sei, mas o último contributo de Mao e aquele com que ficou associado foi este, para seu mal nas contas da história. Ironicamente foi Deng Xiaoping, que havia sido afastado por Mao, a levar a China no caminho da abertura económica. Como seria hoje se não tivesse sido impedido de o fazer mais de uma década antes?

O actual estatuto de Mao na vida da China dos dias de hoje é o de referência, de exemplo. Como o Carlos referiu muito bem (isto revela conhecimentos sobre a mentalidade chinesa) é um "santo", ou seja, um personagem que ficou célebre não por milagres ou pela sua caridade ou bonomia, mas por feitos heróicos. Se olharmos para muitos dos santos dos altares chineses, alguns eram generais cruéis, facínoras, mal-encarados com cara de poucos amigos e armados de lanças. Um herói não é necessariamente um homem bom; o nosso D. Afonso Henriques era uma verdadeira trituradora, uma máquina de guerra, cujo único ponto na agenda todos os dias era "matar", e temo-lo em muito boa conta, como "pai da nação". O retrato de Mao está na parede da casa de muitas famílias chinesas da mesma forma que o crucifixo está na parede da casa dos católicos. E perdoem-me que estabeleça este paralelo, mas a tendência para se olhar para o lado bom destes dois casos sobrepõe-se à necessidade de fazer uma análise crítica dos erros. Tanto Deus como Mao surgem como a imagem do bem, e nunca referidos pelo seu lado menos positivo.

A actual geração de líderes da RP China, assim como as anteriores que se seguiram a Mao, nunca deixaram cair o grande timoneiro, nem procederam à desmaosização do país, da mesma forma que a URSS procedeu à destalinização - e olhem para o que aconteceu com a URSS. É um grande progresso poder dizer que Mao "não era um Deus", ou que "não estava 100% correcto", pois o culto da personalidade que enraízou nos chineses nunca o fariam ser esquecido tão facilmente. As vítimas da Revolução Cultural, muitas ainda vivas e com uma lembrança vívida daquele período de terror, quedam caladas e mudas, enquanto que a ignorância dos restantes sobre os factos, muitos deles relatados em detalhado promenor por desertores que conseguiram fugir do país e em alguns casos tiveram contacto com Mao (como seu medico pessoal, por exemplo) levam-nos a olhar para ele como "um exemplo". E é isso que interessa à actual nomenclatura do partido único: Mao é um exemplo, olhem para o exemplo, e não façam muitas perguntas. Afinal a unidade desse país que é a China, que ainda tem os seus pontos onde existem areias movediças, assenta na figura de Mao. E quem se atreve a mexer na trave-mestra sem medo que a casa vá abaixo?

Schumacher em risco


O heptacampeão mundial de Fórmula 1, Michael Schumacher, sofreu um acidente do esqui no último Sábado na estância francesa de Grenoble, encontrando-se em estado crítico. O alemão desiquilibrou-se enquanto esquiava e bateu com a cabeça numa pedra, e apesar de se encontrar consciente quando chegou a equipa de socorro, dava para perceber que o impacto da queda teria graves consequências. O ex-piloto foi operado de urgência no Hospital de Grenoble, encontra-se ainda em coma, e os medicos não garantem a sua recuperação completa: "O Michael foi vítima de um trauma muito grave. Foi transportado de forma rápido e fizemos a cirurgia assim que possível. Esta deu-nos informações importantes e confirmou que ele tem, infelizmente, várias lesões cerebrais graves", afirmou Jean-Francois Payen, que tem acompanhado o piloto alemão.

De toda a parte chegaram reacções. A chanceler alemã Angela Merkel diz-se chocada, a Ferrari, escuderia pela qual Schumacher conquistou a maior parte dos seus título manifestou o apoio, e o actual campeão mundial, o também alemão Sebastian Vettel, afirmou a admiração pelo piloto acidentado, que "foi um pai para ele", nas suas palavras. Michael Schumacher foi campeão mundial em 1994 e 1995, e depois por cinco vezes consecutivas entre 2000 e 2004, e é detentor de todos os recordes da disciplina máxima do desporto automóvel: mais grandes prémios disputados, mais títulos, mais "pole-positions", mais vitórias e mais voltas mais rápidas. O alemão de que nem todos gostavam, devido ao seu estilo agressivo que o levava a não olhar a meios para atingir os fins, resistiu à alta velocidade nas pistas dos quatro cantos do globo, mas foi na neve que encotrou o seu Waterloo. Irónico, no mínimo.

O realismo da Premier League


O campeonato inglês começa a definir-se nesta recta final de 2013, com as equipas mais bem apetrechadas a começarem a destacar-se nos lugares cimeiros da classificação. A 19ª jornada dividiu-se entre Sábado e Domingo, e no primeiro dia o destaque foi para as equipas de Manchester, ambas vencedoras. O City, o melhor ataque do campeonato, economizou nos golos desta vez, vencendo em casa o Crystal Palace por apenas 1-0. O bósnio Edin Džeko foi o autor do único golo do encontro, já aos 66 minutos, que value à equipa de Marcelo Pellegrini pular para a liderança isolada da Premier League, pelo menos durante um dia.


O Manhester United, por sua vez, venceu fora o Norwich também pela margem minima, com golo de Danny Welbeck aos 57 minutos. A equipa de David Moyes obteve a quarta vitória consecutiva e ocupa o sexto lugar, em igualdade pontual com o Tottenham. Noutras partidas de Sábado destaque para a goleada do Hull City por 6-0 sobre o Fulham, que está irreconhecível desde que Mohammed Al-Fayed vendeu o clube. Os outros jogos acabaram em empate, com os aflitos West Ham e West Bromwich a dividirem por si os seis golos marcados no Upton Park, enquanto o Aston Villa não fez melhor que um empate em casa frente ao Swansea a uma bola. No último jogo da noite o lanterna-vermelha Sunderland foi empatar a dois golos no País de Gales, frente ao Cardiff.


No Domingo o Arsenal teve uma deslocação complicada a St. James Park, mas conquistou os três pontos que lhe valeram o regresso ao primeiro lugar. O francês Olivier Giroud foi o autor do único golo, decorriam 65 minutos de jogo, valendo a liderança isolada dos "gunners", com mais um ponto que o Manchester City. O Newcastle, que vem realizando uma época positiva, caíu para o oitavo lugar. Noutro campo o Everton redimiu-se do chocante desaire sofrido em casa alguns dias antes frente ao Sunderland e levou de vencido o Southampton, por duas bolas a uma. O Everton subiu ao quarto posto com 37 pontos, a cinco do líder.


O jogo grande aconteceu em Stamford Bridge, com o Chelsea de José Mourinho a bater o Liverpool por 2-1. Os visitantes somaram a segunda derrota consecutiva contra um adversário directo, depois de terem perdido na quarta contra o Manchester City, e passaram do 1º lugar ex-aequo com o Arsenal para o quinto posto, a seis pontos dos londrinos. Tal como no jogo contra o City, o Liverpool adiantou-se cedo no marcador contra o Chelsea, pelo defesa eslovaco Martin Škrtel, aos 4 minutos. Os "blues" conseguiram operar a reviravolta ainda no primeiro tempo, com golos de Hazard aos 17 minutos e Samuel Eto'o aos 34. Com ester triunfo o Chelsea está isolado no 3º lugar a dois pontos do Arsenal. A ronda encerrou com a vitória fácil do Tottenham em casa frente ao Stoke City por 3-0.

Clássico fora de época


Sporting e FC Porto empataram ontem sem golos no jogo de abertura do grupo B da Taça da Liga, partida realizada em Alvalade. Com as equipas ainda a recuperar da folga natalícia e com o pensamento no "reveillon", o jogo foi morno, isto apesar de ambos os treinadores terem apresentado um onze com vários titulares, algo pouco habitual nesta competição. Os dragões acabaram a partida a jogar com dez devido a expulsão de Carlos Eduardo a quatro minutos do fim por acumulação de amarelos, talvez o único momento a registar em todo o encontro. Noutra partida do grupo o Marítimo empatou em casa com o Penafiel, também sem golos. O Benfica joga apenas esta noite na Madeira, a contar para o grupo D. Do mesmo grupo, Gil Vicente e Leixões jogam apenas a 9 de Janeiro.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Um é óptimo, dois é péssimo


A questão do preço do imobiliário em Macau e os preços empolados pela especulação são referidos por alguns opinadores como uma "loucura", mas a palavra mais adequada seria "palhaçada". Ainda no outro dia estava a passar perto da Igreja de S. Lourenço quando me detive por um minuto a olhar para o preço das fracções autónomas numa agência ali próxima, e as que estavam na montra vinham com localização, área em pés quadrados e preço, além de fotografias do interior da moradia. Quanto pagaria o leitor num apartamento de 50 e poucos metros quadrados num prédio com 30 ou mais anos, com as paredes e o tecto a cair de podres, casas-de-banho a fazer lembrar as retretes das estações de comboio mais imundas do interior da China, soalho de madeira com tacos soltos, colchões encostados à parede e pouca ou nenhuma luz natural? Quanto? E que tal dez vezes isso? Sim, por esta maravilhosa proposta de habitação que aqui vos apresentei pede-se qualquer coisa como 3 ou 3,5 milhões de patacas. É pegar ou largar.

O pior é que há quem dê esta quantia por uma casa que poucos arrendariam sequer, mesmo em desespero de causa e arriscando-se a dormir na rua durante os próximos tempos. Há quem dê dois milhões por um rectângulo de 4 metros quadrados desenhado no chão de uma cave escura e miasmática e a que chamam "parque de estacionamento". A especulação imobiliária nestes moldes é um jogo, um "bluff". É como se agentes e proprietários estivessem numa sala de um qualquer casino, mas a brincadeira sai cara, e tem reflexo na qualidade de vida da população. É uma sala VIP onde em vez de fichas se apostam pessoas, e as casas do tabuleiro são estas moradias paupérrimas. Quando o deputado Pereira Coutinho se referia ao subsídio de residência dos funcionários públicos, que é actualmente de 1500 patacas como insuficiente "até para arrendar uma sanita" não estava a brincar. Em alguns casos mal chega para se pagar o condomínio. Para muitos que estão a pagar uma hipoteca é necessário reservar a maior parte do vencimento mensal para cumprir com as prestações da hipoteca.

Para quem não tem um ou dois milhões para investir neste mercado imobiliário da treta de modo a pedir ao banco que lhe empreste o resto para comprar uma caixa de fósforos destas e precisa de um tecto, não lhe resta senão arrendar. O preço do arrendamento pode ser considerado acessível, comparado com a da aquisição, e por um apartamento daqueles que descrevi acima ainda se pede tão pouco quanto 4500 ou 5000 patacas mensais. Não valem isso, mas as opções passam por um cantinho debaixo da ponte ou pelo parque de campismo de Hac-Sá. Para quem tem um salário superior a 15 mil patacas alugar um T2 por cinco mil significa dispender um terço do orçamento, e para quem é solteiro economiza partilhando a despesa com um parente ou amigo. Na eventualidade de ser um casal em que ambos aufiram o rendimento acima mencionado, fica tudo mais fácil, mas há casos em que dois casais dividem a renda, tornando esse sacrifício menos dispendioso. O dinheiro que se quer investir no pagamento da hipoteca alheia é proporcional à importância que se dá ao conforto e à privacidade. Os trabalhadores não-residentes empregados na restauração ou como ajudante familiar não se importam de dividir o lar com oito, dez ou mais pessoas, pois afinal estão em Macau apenas a prazo, pelo menos inicialmente.

Quando me separei, vai para dois anos e meio, nunca me passou pela cabeça outra opção que não viver sozinho. Apesar de não me poder queixar da sorte e auferir bem mais que 15 mil patacas (não o triplo disso, nem sequer o dobro, entenda-se) parti à procura de um T1, que como o nome parece indicar, é ideal para uma pessoa. Um quarto, uma casa-de-banho e uma cozinha é quanto baste, além de uma sala para o tempo de lazer - e nem precisa de ser muito grande - e já agora um cantinho para arrumar as tralhas. O mínimo indispensável. Partilhar a renda com outra pessoa com quem não se dorme na mesma cama é algo que me causa arrepios. Já tive essa experiência, quando tinha 20 anos e saí de casa dos pais, e não correu nada bem. Digamos que das coisas desta vida que não se partilham, além da escova de dentes e da mulher, há ainda a acrescentar a casa-de-banho e o frigorífico. Certos hábitos do foro pessoal são ainda factores de peso para que uma vida comunitária desta natureza esteja condenada ao fracasso.

O problema da casa-de-banho é óbvio, e nem é preciso entrar em grande detalhe, e o do frigorífico pode levar à contagem de espingardas, ou neste caso a contagem de latas de refrigerante, fatias de fiambre, gramas de queijo ou restos de comida. E não é só. Por muito amigos que sejam, os co-arrendatários encontram sempre no outro defeitos que os tornam insuportáveis. Diferendos relacionados com quem deixa o quê onde, quem deita o quê fora e em que lugar, de quem a vez de lavar a loiça, ou deitar fora o lixo, e já agora quem faz mais lixo, e nem pensar em levar convidados, e muito menos parceiros sexuais. São mil e uma razões para que pense duas vezes, e que se procure um lugar mais pequeno, mais modesto, mas que se pode disfrutar na plenitude. Sozinho posso chegar à hora que me apetecer, sozinho ou acompanhado, dormir às horas que quiser. deixar a roupa suja no meio da sala os dias que entender, deixar o lava-loiça cheio de pratos, a luz acesa todo o dia - afinal sou eu que pago a conta de electricidade - ver o canal de televisão sem ninguém dar palpites, ouvir a minha música favorita sem incomodar outros, e o meu favorito, andar em casa todo nu no Verão. É o preço da liberdade, meus amigos. Cada um põe o seu.

Diz o roto ao nu


O avançado francês Nicolas Anelka, actualmente a representar os ingleses do West Bromwich Albion, está no centro de mais uma controvérsia, uma tendência que tem pautado a sua carreira. Anelka, actualmente com 34 anos, apontou dois dos golos do empate a três bolas da sua equipa no terreno do West Ham, em Upton Park, e num deles fez uma saudação Nazi. O gesto considerado anti-semita em França é conhecido por "quenelle", e consiste numa reverse do braço estendido que o Nazis copiaram dos romanos. O gesto tem sido muito comentado entre os franceses devido à sua utilização pelo comediante Dioudonne, e como Anelka andava tristinho devido à falta de protagonismo, resolveu fazer o mesmo e assim saltar para as bocas do mundo, como ele gosta. Quem não gostou da brincadeira foi a FA inglesa, responsável pela organização da Premier League, e Anelka arrisca-se agora a uma suspensão que pode ir até um ano. De recordar que Anelka tem sido nos últimos anos um dos mais acérrimos críticos do racismo e da descriminação no futebol.

De pequenino...


Uma fotografia de um bebé a dormir acompanhado de armas de alto calibre, publicada no Twitter, está a gerar polémica nos Estados Unidos. Na fotografia, vê-se o bebé, com uma camisola da equipa de futebol Alabama Crimsom Tide, rodeado de armas. Na legenda, o utilizador Jake Johnson escreve: "Não deveria dar mais munições a Clay Travis (um jornalista desportivo) sobre os adeptos do Alabama. Mas isso não tem preço! Feliz Natal a todos". Na sequência, o jornalista responde e classifica a foto de "sensacional". O utilizador explica então que "partilhou" a foto depois de a ter visto no Facebook. Segundo o site "Elite Daily", a foto terá sido publicada originalmente por um cidadão do Alabama para criticar os habitantes daquele estado norte-americano que usam armas. Recorde-se que a discussão sobre o porte de armas de fogo é um dos assuntos mais debatidos na sociedade norte-americana.

Um inimigo silencioso


E já que falamos de ceia natalícia, é bom que não tenha abusado dos doces, e fique atento à diabetes. Estas imagens publicadas na última edição da revista médica "New England Journal of Medicine", nos Estados Unidos, mostra o que a diabetes é capaz de fazer ao pé de um doente em apenas dez dias! O pobre homem que serviu de modelo a esta assustadora sequência de imagens é obeso, e desconhecia ser diabético, pois nunca fez um teste de glicemia. Depois de alguns dias a usar sapatos apertados, começou a sentir dores e ficou com o pé mais inchado que o habitual. Daí à infecção foi um ápice, e foi por um milagre que conseguiu ficar com o pé; depois de lhe removerem o tecido infectado e administrados fortissimos antibióticos, a infecção começou a regredir e o paciente recuperou em três semanas. Mesmo com todos os progressos que hoje tornam possível uma alternativa à amputação, isto dá que pensar. Haja saúde.

Uma ceia diferente


Como foi a vossa ceia de Natal? Boa? Ainda bem, e eu não me posso queixar. Quem também teve uma ceia farta mas um tanto ou quanto fora do comum foi Jonathan McGowan, um taxidermista de 46 anos de Bournemouth, na Inglaterra, que teve à mesa da Consoada uma refeição inteiramente composta de animais atropelados que recolheu na auto-Estrada - além das batatas, da salada e dos molhos, claro. Parece nojento? Para o sr. McGowan é canja, pois como taxidermista está habituado a mexer em animais mortos, preservando-os numa solução química para que se libertem da inevitável putrefacção que a morte acarreta. Portanto à mesa deste simpático inglês que é também consultor da vida selvage estiveram um faisão e um veado atropelados, o que se pode considerer uma ceia natalícia económica. McGowan incentiva as pessoas a fazer o mesmo: "É melhor que deixar o animal a apodrecer", diz ele. Sim, de facto é chato deixar os bichinhos a decomporem-se e a cheirar mal ali no meio da estrada, mas e que tal enterrá-los em vez de comê-los? O cangalheiro do mundo animal diz ainda que este faisão-da-beira-da-estrada tem um sabor espectacular, "a fazer lembrar o perú". Sim, com um ligeiro travo a Michelin. Ou será Goodyear?

A prisão do Maranhão


Chamo a atenção para a violência extrema destas imgens, que não devem ser vistas por pessoas sensíveis.

Se já não existe nenhuma razão para ninguém no seu perfeito juízo querer ir para a prisão, ainda mais verdade isto se tona quando falamos da Prisão Estadual do Maranhão, no Brasil. Esta imagem de um prisioneiro com a perna dilacerada, e que mais tarde viria a morrer dos ferimentos, é apenas um exemplo da violência que faz daquele estabelecimento prisional um verdadeiro inferno. Segundo um relatório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), elaborado após uma inspecção realizada no dia 20 e submetido na última sexta-feira, as agressões entre os prisioneiros "são encorajadas", e os guardas prisionais "exercem brutalidade desnecessária". Douglas Martins, o inspector encarregado de elaborar o relatório, diz que este video acima foi submetido por um anónimo junto do sindicato dos funcionários prisionais, e é "de uma violência jamais vista". Quando os guardas não tem controlo os gangues, misturam-nas nas mesmas alas, e muitas vezes nas mesmas celas, que estão na sua maioria sobrelotadas. A corrupção é endémica, a tortura é moeda corrente, e a segurança é descurada. Este ano morreram na prisão do Maranhão 59 detidos, 13 dos quais numa rebelião em Abril passado. Um outro incidente no dia 17 deste mês resultou em três mortes, com as vítimas a ficarem decapitadas. De certeza que os cidadão do Maranhão têm aqui um bom motivo para cumprir a lei.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Gosto sim, e depois?


Já fomos passear...e agora, onde vamos comer?

Apesar de todos os defeitos cada vez mais evidentes, uma das vantagens de Macau é a varidade em termos de opções gastronómicas. Só come sempre a mesma coisa quem quer, e se temos lojas de sopas de fitas praticamente porta sim-porta não em alguns locais do território, a culpa é do preconceito e da falta de imaginação dos nossos residentes. Revolta-me escutar alguém dizer que "não há mais nada para comer" quando opta por massas com bolas de sei-lá-o-quê ao pequeno-almoço, almoço e jantar. Dói-me a alma quando vejo os McDonald's cheios praticamente a qualquer hora do dia. Em Macau temos uma Babilónia de sabores, uma cornucópia de especialidades de países e regiões vizinhas, uma oferta tão vasta que nem quatro estômagos chegavam para provar tudo numa semana. É verdade que não somos tão cosmopolitas como os nossos vizinhos de Hong Kong, e que temos sofrido muito com o inflacionamento do preço das rendas nos espaços comerciais, mas procurando bem, andando pela cidade percorrendo becos e travessas, encontramos surpresas muito agradáveis, e para os mais desinibidos e venturosos, o paladar descobre novos limites, caminhos alternativos para se chegar ao ponto G culinário - "G" de "gourmet" neste caso.


Pegando nisto tudo, fazemos o quê?

Temos uma longa tradição de restauração portuguesa, e apesar das aldrabices e das limitações em termos de frescura dos ingredientes, ainda é possível encontrar uma mão cheia de locais decentes onde provar a comida lusitana. Para quem quer usufruír da experiência de viver em Macau a sério, da cabeça ao estômago, existe a comida macaense, um mundo novo a descobrir que nunca nos deixa de surpreender; e com uma vantagem: é possível encontrar 100% dos ingredientes. Nos últimos anos têm aberto um pouco por todo o território um sem número de restaurantes especializados em gastronomia ocidental, desde espanhóis a mexicanos, passando por franceses, brasileiros, argentinos ou americanices como os "hot-dogs", "burguers", "chips", "and shit" - só falta mesmo um restaurante russo, e já agora porque não um grego ou turco, alargando a oferta à cozinha mediterrânica, reconhecidamente uma das mais equilibradas e saudáveis do mundo. Mesmo a cozinha italiana, outrora monopolizada pela família Acconci, tem brotado um pouco por toda a parte, mesmo que timidamente. Felizmente já é possível encontrar uma ou outra tendinha que vende "shawarma", "kebab", "falafel" e outras delícias da comida arábica.


Comida filipina: a melhor da Ásia, e uma das melhores do mundo.

Da cozinha asiática não faltam os restaurantes japoneses, sempre uma garantia de bom negócio e casa cheia, assim como alguma cozinha regional chinesa de fora da região de Cantão, sendo a de Xangai ainda a mais apreciada. A gastronomia coreana, de que não sou grande adepto, tem aparecido a espaços, assim como algumas pequenas tascas de comida indonésia, resultado da cada vez maior comunidade daquele país a trabalhar em Macau; o mesmo acontece com os restaurantes vietnamitas, mas em menor escala. O caminho contrário têm feito os restaurantes tailandeses, em tempos uma alternativa muito requisitada, mas que tem ficado reduzida a alguns locais mais selectos, ou ao hotéis-casinos, numa versão menos económica. A comida indiana, uma das minhas favoritas, continua a sofrer de uma gritante falta de interesse, sendo o velhinho Indian Garden, na Taipa, a sua maior referência. Mas para mim o melhor dos sabores regionais, além da comida macaense, claro, é a riquíssima gastronomia que nos chega das Filipinas.


Pancit palabok: nunca umas massas foram tão bem tratadas.

A comida filipina, e muita gente desconhece este facto, é muito semelhante à nossa, à portuguesa, e ainda com o aliciante de combinar o exotismo asiático com o "salero" mexicano (estranhamente filipinos e mexicanos são povos muito parecidos, apesar de se encontrarem em pólos opostos do planeta), com os seus pratos coloridos com o amarelo, vermelho e verde dos pimentões e malaguetas - e a comida filipina é tudo menos picante. Outra coisa não seria de esperar de um país tão etnicamente heterogéneo e um dos mais populosos do mundo. Assim temos a cozinha de Pampanga, com o seu Sisig, a de Cebu, com os seus pratos de "lechon" (o nosso leitão), ou a influência islâmica de Mindanao, no sul. Depois há ainda os pratos comuns a todo o país: a kaldereta (caldeireada), o menudo (semelhante à jardineira), o mechado, o adobo, o kare-kare (com um delicioso molho de amendoim) e o sinigang, a versão filipina do Cozido à Portuguesa. Não podia faltar ainda a influência asiática por excelência, com as massas: o pancit canton, semelhante ao "chow mein" ou o pancit palabok, o meu prato favorito, que consiste numa massa fina branca (sotanghon) com molho de chicharon (pele ou gordura de porco frita), carne de porco picada, camarão, ovo cozido e cebolinho, ou o lumpia, algo muito semelhante aos crepes chineses.


O famoso e controverso balot.

Existem alguns pratos filipinos que não são para todos os gostos, claro, mas quanto mais se conhece a gastronomia desse país, mais apaixonante e interessante se torna. Por exemplo, existe um prato chamado dinuguan, que consiste de vísceras de porco (pulmões, fígado, coração, entre outras) cozinhadas no sangue do próprio animal - algo semelhante à nossa cabidela, com excepção de que não se trata de coelho ou aves. Dizem os filipinos que este prato, que faz torcer o nariz aos estrangeiros, deve ser apenas consumido quando se tem confiança na pessoa que o confecionou. Há uma versão do balichão chinês, a pasta de camarão seco, conhecida por "bagoong", existindo algumas variantes. Este bagoong entra em pratos como o ginataang, um prato de carne com leite de coco, do próprio kare-kare ou do dinengdeng, um tipo de sopa. O mais controverso será com toda a certeza o balot (que literalmente significa "embrulho"), um ovo cozido com um feto de uma galinha ou de um pato, apanhado entre os 11 e os 15 dias de gestação.


Tortang talong: quando a beringela tem mais encanto.

Gosto de tudo isto e muito mais, e dou por mim a gostar de coisas que não gostava antes; exemplo disso é a tortang talong, uma beringela cortada de modo longitudinal e frita com ovo, vegetais e carne de porco picada. É mais fácil contar o que não gosto. Os pequenos-almoços por exemplo, que consistem sobretudo de bangus (peixe frito), tocino (toucinho frito com mel), longganisa (soa a linguiça, mas assemelha-se mais a uma salsicha) ou lugaw, uma espécie de canja. Isto são tudo coisas que até se comem bem, mas um tanto ou quanto agressivas para se consumir como primeira refeição do dia. As sobremesas são também uma desilusão, com excepção talvez do halo-halo, uma bola de gelado com nata de coco, feijão, frutas de conserva e leite, servida com gelo raspado, ou o gelado de keso royal, com pedaços de queijo. A pastelaria é também bastante fraquinha, salvando-se talvez o otap, que lembra os nossos "palmier".


Umami: restaurante filipino com nome de hamburguer japonês.

Em Macau existe um excelente restaurante filipino, o Umami, situado na Rua de Coelho do Amaral, ao lado do Hospital Kiang Wu, bem como algumas lojas que vencem comida para fora. Estas últimas são um enorme sucesso junto da comunidade filipina e não só. Pela módica quantia de vinte patacas pode-se adquirir uma caixa de arroz com uma escolha de duas porções de alguns dos pratos que referi acima (e muitos mais, não dá para falar de todos), e em doses generosas. Onde mais se almoça assim por duas notas de dez? Pode ainda aventurar-se a cozinhar você próprio estas iguarias, adquirindo os molhos de pacote e seguindo a receita impressa no verso. Nestas lojas é possível encontrar também "snacks", bebidas, conservas e outros produtos originários das Filipinas, e para quem não conhece vai ficar positivamente surpreendido.


Bagoong: um produto que se pode adquirir em qualquer loja Filipina de Macau.

Muitos dos locais rejeitam a culinária e os produtos filipinos, e isto deve-se sobretudo - até alguém produzir uma teoria mais credível - ao preconceito: são filipinos, são as empregadas, têm a pele escura e portanto são "sujos", um polícia maluco matou aqueles turistas de Hong Kong, portanto a comida deve estar envenenada, tudo serve de desculpa para manifestar a ignorância. Os mesmos que dizem que a comida filipina é "uma porcaria" (sem nunca terem provado, lá está) são os primeiros a ir depois comprar massas feitas por um indivíduo sem camisa que põe os pés em cima da bancada da cozinha e mexe na comida com as mãos, ou petiscos fritos em óleo preto que nunca é mudado. Às vezes quando me vêem a almoçar comida filipina perguntam-me "você gosta disso?", com uma expressão de parvinhos. Dá-me logo vontade de responder "não, não gosto, mas estou com vontade de sofrer e dá-me gozo vomitar aquilo que comi". Outras vezes chegam à cozinha e perguntam o que "cheira tão bem", mas quando lhes digo o que é mudam de opinião e dizem que "não presta". Os mais diplomáticos ainda dizem que é uma gastronomia que "não se adapta ao paladar local". Até são capazes de ter razão: não se adapta ao mau paladar local.


Faça você mesmo, em casa.

O pior é quando a discriminação parte dos próprios filipinos. Muitas vezes entro nas suas lojas e compro alguns produtos, e os restantes clientes olham para mim como se estivessem a olhar para um extra-terrestre. Mesmo os filipinos da caixa (os que ainda não me conhecem) ficam um pouco desconfiados. Quando compro o almoço num desses tais "take-away" e está mais alguém à espera exclamam muito admirados (às vezes na própria língua): "ah...ele gosta disto". Se chamo os pratos pelos nomes, levam às mãos à boca de espanto, como se estivessem a ver uma lontra a falar. Se perdem a timidez ainda me perguntam se gosto de comida filipina, e respondo sempre que sim senhor, é óptima, a melhor coisa que inventaram desde o pão de forma, mas estou tão farto de tanta admiração, que se não fosse eu um cavalheiro dizia-lhes que "não gosto, é para o meu cão".


Chinoy Express: uma das cadeias de mini-mercados filipinos em Macau.

Qual é a razão de tanta surpresa meus amigos? Estas lojas não estão abertas para todos? Que "apartheid" alimentar é este? Não ficam contentes que os estrangeiros apreciem a vossa gastronomia e os vossos produtos? Imaginem que só os portugueses iam comer nos restaurantes portugueses. Existiam só dois ou três ou iam todos à falência. Estamos aqui a falar de comida onde entram ingredientes como carne de vaca, porco, galinha, ou peixe e marisco, e legumes como as batatas, cenouras, tomates ou hortaliças. Nada de esquisito ou do outro mundo. Deixem-se lá de parvoíces pá, Deviamos todos provar tudo o que Macau tem de oferta gastronómica antes de emitir juízos de valor. E se acham mal que eu goste de comida filipina, birmanesa, esquimó ou Zulu, eu respondo apenas "gosto sim, e depois?". Mesmo que não gostasse, provava antes de dizer que não gostava. E pelo menos assim não vou morrer estúpido.

Dois grandes passos em frente


O Comité Nacional Popular da República Popular da China decidiu em congresso extraordinário abolir os campos de reeducação pelo trabalho, confirmando assim a proposta emanada pelo Partido Comunista Chinês o mês passado. Os campos de reeducação pelo trabalho foram instaurados por Mao Zedong há 50 anos, e curiosamente esta decisão surge dois dias depois da China ter assinalado o seu 120º aniversário. Durante a reunião de seis horas, ficou também decidido aligeirar a política do filho único, sendo permitido agora aos casais terem um segundo filho, contando que pelo menos um dos seus elementos seja ele próprio filho único. Estas medidas são consideradas progressos significativos na situação dos direitos humanos da China, e espera-se que se mexa ainda em temas sensíveis como a liberdade de expressão ou a pena de morte.

Os campos de reeducação pelo trabalho foram uma medida criada para contornar os preceitos burocráticos legais, sendo permitido às autoridades deter alguém sem acusação formada e sem julgamento até um periodo de quatro anos. Esta opção tem servido para oprimir contestatários ao regime ou cidadãos insatisfeitos com decisões dos tribunais ou com situações que consideram injustas, bem como utilizada para que se cometam abusos de autoridade, ou para resolver questões do foro pessoal. Os campos de reeducação pelo trabalho não são prisões, mas andam lá perto; os seus "hóspedes" são sujeitos a trabalhos forçados e lavagens cerebrais, um método usado amiúde por regimes totalitaristas de ideologia marxista-leninista, e muito criticada por governos estrangeiros e associações de defesa dos direitos humanos. Uma decisão que se saúda, e que só peca por tardia.

No que toca à política do filho único, imposta em 1979 para travar a explosão demográfica, tem servido também para que se cometam todos os tipos de atrocidades. Os casais que tenham mais que um filho arriscam-se a pagar uma avultada multa, e são impedidos de registar o recém-nascido. Mulheres grávidas denunciadas por terceiros foram obrigadas a abortar, e a preferência dos casais por uma criança do sexo masculino leva-os por vezes a interromper voluntariamente a gravidez quando sabem que estão grávidas de uma menina. Estas práticas resultaram num desiquilíbrio em número entre os géneros, existindo actualmente 115 homens para cada 100 mulheres no país. Campanhas de esterilização forçadas, encorajamento à prática do aborto ou a perseguição a mulheres grávidas têm sido comuns, e alguns casais que perdem o único filho por acidente ou doença ficam sem alguém lhes dê apoio na velhice.

A política do filho único foi apenas aligeirada, o que significa que não será permitido ter mais de dois filhos, e recorde-se, apenas quando pelo menos um dos casais for também filho único. É discutível se devia existir liberdade plena para os casais terem o número de filhos que bem entenderem, pois é sabido que isto teria um impacto negativo no tecido social da China, onde a pobreza, o analfabetismo e a falta de conhecimentos sobre planeamento familiar são uma realidade. No entanto estas decisões do Comité Nacional Popular são duas decisões que a juntar à da não utilização dos orgãos de prisioneiros executados aproximam mais a China da modernidade, e amenizam os protestos da comunidade internacional. Claro que há ainda um longo caminho a percorrer para que o país do meio se aproxime dos padrões mínimos no que toca ao cumprimento dos direitos individuais fundamentais consagrados nas cartas de liberdades e garantias, mas é um bom começo. Sempre é melhor que nada.

Os sons dos 80


Queria anunciar aos estimados leitores que a partir de Janeiro vou dar início a uma nova rubrica no Bairro do Oriente, dedicada à música que se faz na década de 80 do século XX, e que será exactamente intitulada de "Os sons dos 80". Vou aqui recordar temas, artistas e acontecimentos que marcaram a cena musical desse period, abordando estilos, tendências, discos e bandas que foram uma referência para uma geração entre a qual me incluo - tinha eu 5 anos em 1 de Janeiro de 1980, e 15 em 31 de Dezembro de 1989. Ainda não sei quantas partes vai ter esta rubrica, mas com toda a certeza vai haver muito que dizer.

Não sou grande adepto de sentimentos de saudosismo ou de nostalgia, nem considero que o tempo em que cresci foi o melhor da História, ou que a música que se fazia quando era jovem era melhor que a actual, ou a que fazia no tempo dos meus pais ou avós. No entanto temos que admitir que os anos 80 foram cruciais na história da música, pois foram marcados por avanços tecnológicos que mudaram a face da indústria, e acabariam por feri-la quase de morte na década seguinte: à invenção do CD, bem recebida pelos melómanos, seguiu-se a internet e a partilha de ficheiros, que desvirtuaram a noção de gosto musical e causaram um prejuízo incalculável a artistas e editoras, ou seja, à "máquina" que gera a música. Quem alguma vez imaginou há 30 anos que teria num computador a discografia completa de artistas e bandas com estilos tão díspares como os de Bob Dylan, os Guns'n'Roses, Eminem ou Lady Gaga?

O que pretendo recordar com esta série de artigos é o tempo em que a música era servida, mastigada, saboreada, e finalmente digerida, passando-se ao prato seguinte. É uma série dedicada a todos aqueles que juntavam as suas economias para comprar um disco, chegavam a casa e tiravam-no da capa, sentiam o cheiro do vinil novinho em folha e tocavam-no no gira-discos, debaixo de uma agulha. A todos os que arranjavam um biscate ao fim-de-semana para comprar o último trabalho da sua banda, aos que ficavam frustrados quando não gostavam de um disco que lhes tinha custado "quase dois contos", aos que pediam os discos emprestados aos amigos, aos amigos que emprestavam, ou que gravavam nas velhinhas cassetes de audio (quem se lembra disto?), aos que dançavam nas matinés, a todos que se inteiravam das últimas novidades em programas de radio ou de televisão, e que como eu aguardavam religiosamente pelo Top-Disco dos fins de tarde de sábado.

Vamos recordar os temas que marcaram uma década, os artistas que chegaram aos tops, todos, desde Stevie Wonder aos Modern Talking, passando pelos Dire Straits, Scorpions, Tina Turner ou Queen. Vamos tirar do baú das memórias modas passageiras como o "eurodiscos" ou o "glam rock", falar de música nacional, desde o "rock" ao fado, lembrar aqueles temas que nos trazem à memória aquele verão que nunca mais vamos esquecer, de tudo um pouco que foram os anos 80. Espero que gostem, e aguardem! Em 2014, no seu Bairro do Oriente.

Futebol talibã


Um vídeo chocante recolhido na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão. Os talibãs, o maior e mais perigoso grupo de malucos à face da Terra são filmados a jogar futebol com as cabeças decapitadas de polícias afegãos. Mais um documento que relata as barbaridades cometidas por estes radicais de etnia Pashtun, auto-intitulados guardiões da moral e dos bons costumes. Por menos do que isto Hiroshima e Nagasaki levaram com uma bomba atómica em cima. Chamo a atenção para a violência das imagens, que não são aconselháveis a menores e pessoas sensíveis.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Cem horas


"Até ao lavar dos cestos é vindimas", diz o povo. "O jogo acaba quando o árbitro manda", diz-se na gíria futebolística. "Não se deve contar com o ovo no cu da galinha", diz a...hmmm...indústria aviária? Deixem lá. Isto tudo para dizer que hoje é dia 27 de Janeiro, sexta-feira, dois dias depois do Natal e quatro antes da passagem de ano - é a tal "zona de ninguém". Apesar de ainda faltarem o resto do dia 27 (e é preciso não esquecer que nas Américas ainda não almoçaram, mais os dias 28, 29, 30 e 31 inteirinhos, há já quem tenha começado a atirar os foguetes antes da festa, literalmente. São aqueles sítios da Yahoo!, Google, MSN e outros que tais, que ainda antes do Natal já dedicavam páginas aos "momentos mais importantes" e às "melhores imagens" de 2013. Oh oh oh, esperem lá. Já acabou? É certo que está quase, mas não ficam para o epílogo? Se for um filme dos irmãos Zucker, ainda há mais qualquer coisinha depois de passarem os créditos.

Esta pressa de acabar com o ano já me pregou um susto ou dois. Um dia destes, depois de uma daquelas de sono desmedidas, próprias de quem está de férias, levantei-me da cama sem saber que horas eram, ou quanto tempo tinha passado na Terra do Nunca. Com a boca ainda a saber a pecado, liguei a página do Yahoo!, e dou com "O ano de 2013 em revista". "F...-se" - pensei eu - "queres ver que dormi mais de uma semana, perdi o Natal e acordei no último dia do ano?". Isso seria impossível, pois o sr. Cheong, o meu simpático senhorio, já teria andado à minha procura desde o dia 28 para lhe pagar a renda. Abri o telefone, vi que era dia 22. Ufa, tinha dormido apenas o tempo normal para um asno adulto. Mas porque diabo fazem estes tipos o balanço do ano tão cedo? Será que depois vão partir para Waikiki com as amantes para passar o Natal a nadar na praia e na piscina do hotel enquanto bebem piñas coladas ao som de "Agadoo", dos Black Lace?

É que para chegar a 2014 ainda temos um bom caminho pela frente. São quatro dias inteiras e mais umas horinhas, são 100 horas, mais nas américas. Sabem quantas pessoas morrem por segundo? Pelo menos uma. Mais! Mas digamos que é uma, para tornar as contas mais fáceis. Uma pessoa por segundo dão 60 pessoas por minuto, 3600 por hora! Já viram alguma estação de televisão abrir um serviço noticioso dizendo "Boa noite. Mais de 3600 pessoas morreram na última hora no mundo". Qual foi o acontecimento do ano? E se Deus desce à Terra nos próximos três dias? E se Lúcifer sobe? O desaparecimento do ano foi Nelson Mandela, parece haver consenso, mas se até ao dia 31 more alguém mais importante? Como o Jackie Chan por exemplo. O Mandela é mais importante? Bem, a sua página do Facebook tem pouco mais de 3 milhões de "likes", e a do Jackie Chan 47 milhões. O povo é soberano. Embrulhem lá essa.

Nunca se devia fazer o balanço de um ano que finda antes das primeiras horas do ano seguinte. E é melhor esperar que batam as últimas 12 badaladas do dia 31 nas Ilhas Marianas, o último local do planeta a chegar ao fim do dia. É por isso que gosto daqueles clips dos momentos mais loucos do ano no Jornal da Tarde da RTP: esperam até ao dia 31 de Dezembro, não vá ficar uma fractura exposta ou um acidente de esqui mais bizarro de fora do resumo. É que se um dia, por acaso ou de propósito, as últimas horas ou os últimos dias do ano forem profícuos em acontecimentos dignos de entrar para a História, o que ficam a valer as "revistas do ano" publicadas nos dias 20 ou 21 de Dezembro? O melhor é imprimi-las num tipo de papel mais macio, que dê para cortar às tirinhas e pendurá-los na casa-de-banho. Assim pode ser que tenham sempre alguma utilidade.

Contras ventos e marés


João Gomes e a família vão no próximo dia 14 de Janeiro iniciar uma aventura que os vai levar à volta do mundo de veleiro durante os próximos quatro anos. João Gomes reside em Macau desde 1997, é jornalista de profissão mas actualmente com a carteira professional suspensa enquanto exerce funções de agente público no Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM). Juntos com o velejador português a bordo do Dee - assim se chama o barco - vão a sua mulher Kumploy e a filha de ambos, de apenas um mês de idade, além do cão (não vá aparecer a bordo um peixe-gato - eh, eh, desculpem a piada).

Conheço o João Gomes apenas de vista, e da coluna que assina semanalmente no semanário "O Clarim", vai para dez anos. Confesso que fiquei surpreendido quando anunciou os seus planos há alguns meses, e pessoalmente não me vejo a bordo de um veleiro durante quatro anos da minha vida, a dar a volta ao mundo, por muito Julio-Vernesco que a ideia me pareça. Não sou grande adepto de viagens marítimas, e a mais longa que terei feito terá sido de uma hora, nos velhos cacilheiros da Transtejo, entre o Montijo e o Terreiro do Paço, e vice-versa - mas isto sou eu. O próprio João Gomes confessa não ter experiência de navegação em alto-mar durante um period tão longo de tempo, mas mostra-se confiante, como revelou hoje no Telejornal da TDM.

Mas o que leva João Gomes a largar tudo e fazer-se ao mar? Será que acordou um dia com tendências suicidas e vontade de colocar em risco a sua família? Será que levou à letra Pessoa e o seu "Navegar é preciso"? Aparentemente a ideia é assinalar os 500 anos da chegada dos primeiros portugueses à costa da China, uma efeméride que tanto Portugal, por motivos de ordem económica, quer a China, porque não lhe interessa, abstiveram-se de comemorar. Apesar de navegar com um pavilhão de Macau no seu Dee, João Gomes não recebeu qualquer tipo de apoio do governo da RAEM, da Fundação de Macau ou de entidades privadas. Da parte das entidades oficiais, nomeadamente da Direcção dos Serviços de Turismo (DST), a justificação dada foi bem clara: "a viagem não vai promover o nome de Macau". Claro que não. Promovia se o João realizasse a bordo agora torneio de "poker", viajasse com os pandas "Ai Ai" e "Ui Ui", e baptizasse a embarcação de "Harmonia".

Nada disto demoveu João Gomes, que está de partida, e foi hoje ao Telejornal confirmar que sim, que vai levantar âncora com a família e vai por esses sete mares afora, prometendo regressar daqui a quatro anos. A viagem teve honras de destaque na imprensa local, regional e na imprensa especializada (em barcos, entenda-se), isto apesar de em Macau os responsáveis por preservar, ensinar, divulgar e assinalar a História assobiarem para o lado. Ainda recentemente foi necessário um grupo de residentes assinalar a título particular os 500 anos da chegada de Jorge Álvares à China. Mas isto é surpresa para alguém? É mesmo só para rir, ó João. Soltar um risinho sarcástico e ir à vida, ala que se faz tarde, que a República Dominicana espera. Podem seguir a viagem do Dee aqui no Facebook. Já agora aproveitem e façam "like".

Mao 120


A China comemorou ontem oficialmente o 120º aniversário do nascimento de Mao Zedong, fundador da República Popular em 1949, e tido como o unificador do país pela primeira vez em mais de 5000 anos de civilização chinesa. A data foi assinalada um pouco por todo o país, com ênfase em Shaoshan, na província de Hunan, onde nasceu a 26 de Dezembro de 1893. O município natal do "grande timoneiro" foi acusado recentemente de despesismo, investindo centenas de milhões de renminbis nas comemorações. Ao acenar com o facto de se estar a comemorar o nascimento de Mao, calaram-se de imediato as vozes críticas. Já cá não está quem falou. Revolucionário, estratega militar e filósofo, Mao liderou a RP China desde a fundação até à sua morte em 1976. O seu legado assenta sobretudo num culto da personalidade que o próprio fomentou, e ainda hoje é tido como uma figura influente da China moderna, considerado um modelo de virtudes por alguns, e figura-chave do princípio da unidade sob a tutela de um partido único, por outros.

Mao Zedong foi o homem certo no lugar certo num dado tempo. Liderou os comunistas na guerra contra os nacionalistas, saíu vencedor e obrigou o seu ex-aliado Chang Kai-Shek ao exílio na ilha de Taiwan, onde permanece o bastião nacionalista que ainda reclama uma China unificada, mas pelos valores defendidos pelo fundador da primeira república, Sun Yat-Sen. O actual executivo, uma geração de líderes que persistem no modelo socialista de governação mas com uma visão mais economicista dos princípios revolucionários, usa a imagem de Mao como símbolo da unidade, especialmente junto das massas menos educadas. Quando o "grande timoneiro" proclamou a unidade da nação na Praça Tiananmen naquele dia 1 de Outubro de 1949 e afirmou que o povo chinês "se havia levantado", conquistou os seus corações. Actualmente o regime defende que Mao "não estava 100% correcto", ou que "não é um Deus". Ironicamente este tipo de afirmações sairiam-lhes muito caro há 40 anos, durante o auge do maoísmo e da Revolução Cultural.

O que Mao fez, ao unificar a China e pôr um fim à Guerra Civil foi importante, mas na hora de sair de cena e entregar o poder, hesitou. Mao não era propriamente um políico, e muito menos um político capaz de lidar com uma nação que era a quarta maior do mundo em dimensão e que nos primeiros dez anos cresceu em mais de cem milhões de habitantes. Mao defendia um modelo de socialism utópico, com a colectivização de todos os meios de produção e um estado em pleno controlo de todos os aspectos da vida da população. Os seus dois planos quinquenais falharam rotundamente, dando origem a um periodo de fome que custou a vida a mais de 30 milhões de chineses. A tentativa de afastamento da liderança do partido e da nação por parte de Liu Shaoqi e Deng Xiaoping levaram-no à consolidação do poder através da Revolução Cultural, um período que constará certamente dos anais da História como um dos mais loucos, e que levou a China a um atraso estrutural do qual só viria a recuperar décadas depois. De todos os erros de Mao, este terá sido o mais grave.

A China é uma civilização que acordou do lado errado da História. De uma das mais desenvolvidas até há 2000 anos, mergulhou num marasmo feudalista até inícios do século XX, e após o evento da primeira república ficou entregue aos senhores da guerra e à mercê dos invasores japoneses. Depois do colectivismo de Mao e das reformas de Deng, tornou-se numa sociedade onde enriquecer passou a ser prioritário, criando uma elite de ricos e mantendo uma maioria de indigentes, sem que se conseguisse atingir um equilíbrio que seria possível com uma gestão sensata, que Mao nunca conseguiu no seu tempo por defeito, e os actuais dirigentes por excesso. E este sempre foi um país de excessos. O Mao que os chineses comemoraram ontem não olharia com bons olhos para esta China de hoje, mesmo que de mal em mal seja ligeiramente melhor que aquela que ele próprio deixou - pelo menos é mais próspera, e conquistou o seu lugar de actor nas grandes decisões globais. Não fosse ele ateu assumido, e estaria a olhar triste lá de cima, do Céu que ele nunca acreditou existir.

O mau mausoléu


O primeiro-ministro japonês Shinzo Abe está debaixo de fogo cerrado, depois de ter visitado ontem o santuário de Yasukini por altura do seu primeiro ano à frente do Governo do país do sol nascente. O santuário xintoísta foi erigido em 1869 e é dedicado a todos que perderam a vida ao serviço do país, e estão ali gravados os nomes de quase 2,5 milhões de soldados nipónicos caídos em combate, desde a guerra de Boshin em 1867 até à II Guerra Mundial, que culminou em 1945 com a derrota do Japão e pôs um fim à tradição belicista e expansionista do império. Entre os soldados homenageados neste santuário estão 14 considerados criminosos de guerra da II Guerra, entre eles Hideki Tojo, responsável pelo ataque à base naval norte-americana de Pearl Harbour, dando início à Guerra do Pacífico e à participação dos Estados Unidos no conflito. Finda a guerra, Tojo seria julgado num tribunal marcial e condenado à morte por enforcamento, e executado em 1948.

A controvérsia teve início em 1985, com a visita do então primeiro-ministro Yasuhiro Nakasone, a primeira vez que um líder do Executivo japonês prestou homenagem aos mártires de Yasukuni. O acto, que se revestiu de carácter oficial, como todos os seguintes efectuados por primeiros-ministros japoneses, foi censurado pelos líderes dos países vítimas do expansionismo nipónico dos anos 30 do século passado, com ênfase para os vizinhos da China e da Coreia do Sul. Não foi por acaso que Nakasone é tido como o responsável pela revitalização do nacionalismo japonês. A iniciativa foi condenada pelo imperador Hirohito, que tinha visitado o santuário pela última vez em 1975. A ideia de incluir o nome dos criminosos de guerra no "registo simbólico de divindades" de Yasukini data de 1966, mas não seria concretizada até 1978 pelo sacerdote Nagayoshi Matsudaira, o responsável pelo santuário que nunca reconheceu a agressão japonesa como sendo "crimes de guerra".

A polémica só começou a ganhar visibilidade durante o governo de Junichiro Koizumi, que visitou Yasukuni pelo menos uma vez por ano entre 2001 e 2006 - foi então que o mundo passou a conhecer o santuário. Depois de Koizumi seguiu-se um interregno de sete anos até esta visita de Abe, mas o lume da controvérsia nunca se atenuou, com os governos chineses e sul-coreanos a alertar constantemente para os perigos da glorificação do passado belicista do Japão, e do qual ainda há sobreviventes. Ainda no ano passado um grupo de mulheres sul-coreanas obrigadas a prostituir-se por soldados japoneses, as tais "mulheres de conforto", manifestaram-se, exigindo compensação pela angústia a que foram sujeitas durante a ocupação. A China - que convém recordar, tem os seus próprios esqueletos guardados no armário - não se cansa de exigir a Tóquio que se retrate do seu passado recente, e além das visitas a Tasukuni, condena também a omissão destes factos nos livros de História.

O santuário de Yasukuni é gerido por particulares e não tem qualquer ligação com o estado japonês, e portanto qualquer um é livre de o visitar e prestar as homenagens que quiser a quem quiser - até Shinzo Abe, o cidadão; mas nunca Shinzo Abe, o primeiro-ministro do Japão. Com esta atitude considerada provocatória o executivo japonês está a passar uma mensagem difícil de entender. Por um lado admitiram os crimes, pagaram por eles e viraram uma página negra da História, mas por outro lado teimam em escrevê-la fazendo constants remissões a essa página que ninguém quer ver novamente escrita. Tenho a certeza que o Japão não faz planos de repetir a gracinha que custou a morte a milhões de inocentes na região Ásia-Pacífico, mas precisa se "sintonizar" a diplomacia para a estação do politicamente correcto. O que diriamos se a chanceler Merkel fosse visitar um monumento a criminosos de guerra nazis?

Vídeo da semana


Duas mulheres na Arábia Saudita entram numa ourivesaria, e enquanto distraem o funcionário, a filha de uma delas, de apenas seis anos, entra sorrateiramente, vai até à caixa e tira 500 mil riyal (1,3 milhões de patacas). Teria sido o crime perfeito, não fosse pela câmara ter registado todos os movimentos. E quem disse que as mulheres sauditas eram uns anjinhos?

Boxing Day mexe e remexe


A tradicional jornada do "Boxing Day" do campeonato inglês confirmou o equilíbrio de forças entre os principais candidatos ao título, e a tabela atesta isso mesmo: entre o líder e o oitavo classificado a diferença é de apenas sete pontos. À partida para esta 18ª jornada Liverpool e Arsenal partilhavam a liderança com 36 pontos, e os arsenalistas entravam primeiro em campo, ficando por Londres mas jogando no Boleyn Ground, casa do aflito West Ham. Depois de uma primeira parte sem golos, os da casa voltaram melhor do descanso, e inauguraram o marcador aos 46 minutos por Carlton Cole. Os arsenalistas reagiram bem ao golo "a frio", e deram a volta, com dois golos do jovem inglês Theo Walcott, aos 68 e 71 minutos, e mais um do alemão Lukas Podolski, regressado recentemente de uma lesão que o deixou de fora dos relvados durante alguns meses. O principal estava feito, o Arsenal vencia e ficava à espera do desfecho da partida entre o Manchester City e o Liverpool para saber a dimensão dessa façanha. O West Ham caíu para o penúltimo lugar, em virtude das vitórias fora de casa de Fulham e Crystal Palace, 2-1 em Norwich e 1-0 no Aston Villa, respectivamente.


Goal Hazard - Chelsea 1-0 Swansea City - 26-12... 发布人 The-Best-Games
Também em Londres, mas em Stamford Bridge, o Chelsea de José Mourinho voltou do Natal sem muita fome de golos, e bateu os galeses do Swansea City por magros 1-0. Um resultado enganador, tal foi o domínio dos "blues", e não fora o guarda-redes visitante, o alemão Gehrard Tremmel, e o resultado tomaria contornos de goleada. O golo da vitória foi apontado pelo belga Eden Hazard aos 29 minutos, e valeu ao Chelsea a subida ao 2º lugar à condição, e com mais três pontos que o Everton. Os "toffees" protagonizaram o escândalo da jornada ao perderem em casa com o lanterna-vermelha, o Sunderland, por uma bola a zero. Foi apenas a segunda derrota do Everton esta temporada.


Hull City - Manchester United 2:3 All Goals... 发布人 Honex_Futball
O Manchester United tem alterado o seu desempenho na Premier com altos e baixos, que lhe vão valendo um modesto e pouco habitual oitavo posto na classificação, mas passam neste momento por um bom período, e foram ontem vencer no reduto do Hull City por 3-2. Mesmo assim a equipa de David Moyes não ganhou para o susto, e aos 13 minutos perdia por dois golos de diferença, autoria de James Chester e David Meyler. Mas se os primeiros 13 minutos correram mal, os 13 minutos seguintes trouxeram o equilíbrio de volta ao marcador, com Chris Smalling aos 19 e Wayne Rooney aos 26 minutos a deixarem o resultado em 2-2 ao intervalo. Aos 66 minutos o mesmo James Chester que tinha sido herói no primeiro tempo foi desta vez o vilão, ao marcar na baliza errada, e a dar os três pontos aos visitantes. O Manchester United alcançou o Tottenham no 7º lugar, com a equipa agora orientada por Tim Sherwood a não ir além de um empate a uma bola em casa frente ao West Bromwich, e a dois pontos do 6º, o Newcastle, que goleou o Stoke City em St. James Park por 5-1.


Finalmente o jogo grande do "boxing day", opondo o Manchester City e o Liverpool, dois candidatos ao título, e os ataques mais concretizadores do campeonato inglês. Não foi um festival de golos como muitos esperariam, mas ainda deu para ver três, dois para os "citizens" e um para o Liverpool, e todos marcados na primeira parte. O brasileiro Philippe Coutinho adiantou o Liverpool aos 24 minutos, mas sete minutos depois o City empataria por Vincent Kompany, um defesa com queda para o golo. A partida ficaria decidida graças a um "frango" do guardião do Liverpool, o belga Simon Mignolet, que não segurou um remate em chapéu muito baixinho do avançado espanhol Alvaro Negredo. Com esta vitória o City sobe à vice-liderança a um ponto do Arsenal, e o Liverpool desce para 3º, a par do Chelsea. Fica aqui a classificação dos dez primeiros:


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A Bíblia


A inspiração da Bíblia depende da ignorância da pessoa que a lê.

Robert G. Ingerssol


Quando era chavalinho pensava que o Boxing Day, que se assinala hoje, 26 de Dezembro, era o dia após a trégua natalícia em que a humanidade se voltava a agredir mutuamente. Para não começarem logo com misseis ou armas químicas, estabeleceu-se que começavam com o boxe, uma modalidade olímpica com regras, para refrearem os ânimos exaltados e a comichão no gatilho a que as mini-férias de paz não-oficial provocaram. Que ingénuo que eu era. Mesmo que fosse verdade, não me apetecia agredir ninguém. Estou ainda num estado de espírito que me deixa incapaz de provocar qualquer forma de conflito, discussão ou desarmonia. E é por isso que resolvi abordar um tema que reúne consenso entre os amantes da paz e do entendimento entre os homens de boa vontade: a Bíblia. Agora vou avisando que quanto mais me embrenho na mata escura deste tema, mais se vai aproximando o dia 27, mais longe vai ficando o Natal, a trégua, a harmonia e todo o resto que me deixou tão mole até aqui. Além disso acho que acabei finalmente de digerir as broas e as rabanadas.

Li a Bíblia pela primeira vez quando tinha 9 anos, e...esperem um pouco. Antes de continuar, queria sugerir a quem esteja a pensar em oferecer-me uma prenda de Natal atrasada, que me ofereça uma Bíblia. Isso mesmo. Tenho a edição impressa do Alcorão mas não tenho uma Bíblia, e a edição online é muito jeitosa, mas não é a mesma coisa. Sabe melhor consultar no papel, molhar o dedo para virar as páginas, sentir o sabor a sagrado das escrituras. Por falar em escrituras, o próprio termo "Bíblia" é muito vago, e utilizado para definir a compilação dos livros das escrituras sagradas de não sei quantas variantes das confissões judaicas e cristãs. Portanto quando pedir "a Bíblia", certifique-se que é a Católica, com os 46 livros do Antigo Testamento e os 27 livros do Novo Testamento. Se fizerem algum tipo de confusão, pelo menos não confundam com a Bíblia Mormon ou outra aberração qualquer. Quanto à aparência, pode ser daquelas simples, capa dura azul-escura e folhas fininhas tamanho A5, e de preferência em Português de Portugal. Obrigado.

Portanto li a Bíblia aos 9 anos e não entendi nada. Nem era para entender logo, senão deixava de ter piada, e fosse tudo tão claro e tinhamos o mundo perfeito, onde as pessoas deixariam de ter tantas dúvidas sobre si mesmas e não viveriam de acordo com os constrangimentos da moral e debaixo da batuta da religião. Quem compilou os cânones foi matreiro. Deixou ali matéria para ler, reler, interpretar de mil e uma maneiras, e garantiu que nunca se chegaria a um consenso. Desconfio que os tais profetas que escreveram os evangelhos eram na realidade juristas. Apesar de todo a simbologia, interpretações diversas e tudo o mais que lança a confusão entre quem lê e procura entender a Bíblia, há momentos que não carecem de um estudo elaborado para que se entenda o seu sentido. Está tudo ali, preto no branco. E é assustador. Alguém me devia ter avisado lá na biblioteca da escola que aquela leitura não era para a minha tenra idade de nove aninhos.

Já sei o que estão a pensar: "lá vai o Leocardo atacar as religiões outra vez". Nada disso. Esqueçam as religiões por um instante e vejam se entendem este conceito muito simples: quem pensa que a Bíblia é um livro sagrado, a palavra de Deus e que tudo o que lá está é muito pio e santo, não leu a Bíblia. Confessem lá, não leram, pois não? Ou leram apenas as passagens que o "xô" padre leu na missa. As partes mais inspiradoras, as rábulas, as lições que nos ensina e que podemos aplicar no dia-a-dia, Jesus, tudo isso, uma maravilha, um sonho cor-de-rosa. Pois vocês não leram a Bíblia e não conhecem a Bíblia: têm uma ideia...errada. E não julguem que me estou aqui a exibir com uma cauda de penas de pavão e o peito inchado como um pinguim-real. Nada disso. Ainda sei menos que vocês. Quanto mais tento entender a Bíblia, maior é a confusão que vai na minha pobre cabecinha. A Bíblia provoca-me ilusões, tonturas e paranóia. Toca a meter a Bíblia na lista de substâncias proibidas, fáxavôr.

A Bíblia divide-se em Antigo e Novo Testamento, como já vimos. Para os católicos mais "politicamente correctos", o primeiro é como que um original indigesto, e o segundo uma errata, uma versão mais "soft", mais adequada ao crente que não gosta de fazer muitas perguntas enquanto...crê. Mas é pelo Antigo Testamento exactamente que vamos começar. Sabiam que enquanto o AT da Igreja Católica tem 46 livros, o da Protestante tem apenas 39, mas o da Ortodoxa tem mais que a Católica? Se acham o vosso AT picante, esperem só até verem o da Ortodoxa. Mesmo assim o AT católico requer estômago de ferro para ser lido. Imaginem que uma pessoa inteligente que nunca tenha ouvido falar de religião, de Deus ou da Bíblia (eu disse "imaginem", lembram-se?) lê o Antigo Testamento. Para facilitar um pouco as coisas, organizamos os textos por ordem cronológica, com anotações que ajudem a roer uns ossos mais duros. Passados uns dias, perguntamos-lhe o que achou, ao que ele vai responder: "alucinante. é ficção?". Depois de lhe dizermos que quase um terço da humanidade acredita ser uma realidade passada, e que Deus existe, ele entra em pânico: "o quê? é preciso deter este Deus quanto antes!"

Deus, personagem principal da Bíblia, revela-se no Antigo Testamento a um patriarca de nome Abrãao. Antes de Abrãao O dar a conhecer ao mundo, nunca ninguém tinha ouvido falar de Deus, e olhem que já muita água tinha corrido debaixo da ponte desde um certo dia num local chamado Paraíso onde Deus deu a conhecer o seu péssimo feitio. O AT é praticamente um resumo de Deus a somar e a seguir na sua procissão de vingança, ódio, destruição e julgamentos no mínimo controversos. Quem lê alguns dos episódios mais "sumarentos" da ira de Deus fica sem entender bem alguns critérios. Quando demonstra, quer através da fúria divina ou através da palavra dos profetas que reprova actos como a sodomia, a masturbação e segundo muitas interpretações aceites como válidas, a homossexualidade, e depois tolera vários episódios de incesto, poligamia e violação lança a confusão. Eu sempre pensei, e isto falando apenas do ponto de vista humanista, que a masturbação seria um acto mais inocente que o incesto, pois não interfere com a dignidade alheia.

O Antigo Testamento é comum ao Judaísmo e ao Cristianismo, e muitos dos princípios nele expressos encontram-se em grande parte do Alcorão. É comum às três grandes religiões Abrãamicas. O Novo Testamento marca a demarcação da fé cristã dos canônes hebraicos; os 27 livros que o compõem são muito mais ligeiros que o AT, e o principal aliciante é a vinda de Cristo, filho de Deus. É curioso que para mudar a imagem de Deus severo e vingativo patente no AT para a de um Deus pai, bom e misericordioso do NT seja necessário sacrificar o Seu próprio filho. Portanto é suposto simpatizar mais com um Deus que sujeita o seu próprio filho à dor da tortura e finalmente à morte do que o Deus que dizimou Sodoma e Gomorra, lançou pragas sobre o povo do Egipto ou humilhou Jó, que sempre lhe havia sido fiel. Mais sorte que Cristo teve Isaac, filho do tal Abrãao, salvo "pelo gongo" no momento em que o seu pai se preparava para o estripar em nome da sua devoção ao supremo. E quanto a Jesus, fica no ar uma dúvida: morreu pelos nossos pecados, "para nos salvar". Para nos salvar do quê, exactamente? Com tudo o que se sucedeu nos últimos 2000 anos desde o alegado sacrifício de Cristo, era altura de Deus mandar mais um cordeiro para o sacrifício. Ou seis, ou sete. Jesus, um homem bom que pregou o bem, não merecia ser confundido com a Bíblia.

A Bíblia é um livro datado, cheio de ensinamentos válidos, misturados com equívocos tremendos que nunca deveriam constar de um livro supostamente "sagrado". Existem ali lições que podem ser usadas no dia-a-dia para melhorar a vida de quem aceita um só Deus, bem como ideias perigosas, pensamentos retrógrados e atentados ao pensamento livre e aos pressupostos mais básicos da ciência. É perfeitamente normal que em tempos idos se acreditassem em conceitos como a criação, relatada no livro da Genesis. Mas com aquilo que sabemos hoje, como é que se vai convencer alguém que o homem foi feito do barro e a mulher de uma costela dele? Não se trata de dar o braço a torcer, mas aceitar que nem tudo o que está nas escrituras é suposto ser levado a sério. O importante é procurar na Bíblia aquilo que nos serve para melhorar as nossas vidas, o essencial. Todo o resto é supérfluo.

A greve é grave


Começo a ficar seriamente preocupado: os portugueses começam a perder a fé nas greves. É verdade. Não que alguma vez tenham depositado a sua fé nelas, mas começam a vocalizar o seu descontentamento. Na véspera de Natal houve greve dos transportes públicos em Lisboa e Porto, e apesar da adesão não ter sido significativa, deu para aborrecer alguns cidadãos que esperavam pelo autocarro, e ainda por cima enquanto esperavam tinham a companhia do lixo e dos ratos, devido à greve dos cantoneiros, também nesse dia. Um utente desabafava: "eles fazem greve mas não chateiam o Governo, só chateiam é o povo". Pois é, paralisar os transportes colectivos não vai colocar muita pressão sobre o Governo, a não ser que a greve se extenda aos motoristas particulares das viaturas do Estado. Mas com este Executivo, mais greve menos greve tanto faz: perdidos por cem, perdidos por mil. E se aquela ideia dos seus motoristas fazerem greve fosse para a frente, era mais uma desculpa que encontravam para não fazer nenhum.

As greves são uma arma que os trabalhadores encontraram para combater as injustiças e pressionar o patronato, que sem força laboral que fizesse funcionar a máquina produtiva, esta ficava parada, resultando em prejuízo. O direito à greve foi uma conquista dos sindicatos para poderem usá-lo como forma de negociar de igual para igual com os patrões, e assim exigir melhores condições de trabalho, uma carga horária menos pesada e um pagamento mais justo. Agora deixemo-nos de papo comuna: a greve foi uma forma que os gajos encontraram para trabalhar menos e ganhar mais. E em boa hora! Não sei se sabem, mas até há qualquer coisa como 100 anos as pessoas trabalhavam 12 horas ou mais por dia, sem descanso semanal (sim, nem Domingo), faltas ou férias pagas, e sem remuneração suplementar em caso de horas de trabalho extraordinárias. Ufa, ainda bem que tinham a greve. Já pensaram?

Foram muitos os que cairam que nem tordos para que pudessemos ficar mais tempo na cama ao Domingo e mandar o chefe à fava o mais tardar às 6:30 da tarde. Bravos heróis, cuja memória não conseguimos honrar. O valor da greve foi completamente subvertido. As greves não foram feitas para se ficar em casa, ou ir passear no parque com a família, ou ir às comprinhas no Euromarché. E logo na véspera de Natal e tudo, como convém. Há greve, certo, não se trabalha, pois não, mas é para ir ajudar no piquete e impedir que os "fura-greves", esses traidores dos "amarelos" peguem ao serviço e mantenham a linha de produção activa, e o patrão sorridente. E no processo há que contar com cargas policiais, mordidas de pastores-alemães e jactos de canhão de água, enquanto se seguram cartazes com palavras de ordem, de preferência atingindo a cidadania da mãe do patrão. Sim, meus amigos. Uma greve não é um piquenique.

Não é um piquenique, um BBQ ou sequer um chá-dançante, mas há quem goste de pensar que é. Há malta que chega a casa toda contente e começa a fazer planos para um dia em que o seu sindicato marcou uma greve, tendo apenas em atenção o seu próprio lazer e diversão. O sentido da greve fica completamente desvirtuado quando os únicos sindicatos que as organizam representam sectores profissionais que trabalham directa ou indirectamente para a máquina do Estado. Exprimentassem os operários de uma fábrica de cortiça ou os trabalhadores de uma obra fazer greve, e no dia seguinte tinham lá outros parvos no seu lugar. Enquanto uns comem o pão que o diabo amassou com um sorriso no rosto e ainda ficam a fazer cruzes para a empresa no falir e irem jogar para o Olho da rua futebol clube, outros têm o pilim a cair lá todos os meses com relativa segurança e ainda querem fazer greve.

Os professores da rede de ensino público, os enfermeiros do sistema de saúde nacional ou os motoristas das empresas públicas de transportes fazem greve, marcam-lhes falta, os sindicatos emprenham o Governo pelos ouvidos, e tiram-lhes a falta. Assim é fácil. Em Macau o direito à greve está contemplado na Lei Básica, mas não está regulado por lei, portanto aqui ninguém sabe o que isso é. A única excepção são os funcionários do Consulado-Geral de Portugal, que estão sob a alçada do Estado Português, mais precisamente do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e como tal aderem frequentemente às greves das embaixadas e postos consulares. Durante uma dessas greves, um dos meus colegas chamou a atenção para esse facto: a falta injustificada, revelando-se bastante preocupado com essa consequência. Expliquei-lhe então que o Estado justifica eventualmente a falta, porque a greve "é um direito". Caso contrário nem eles se atreviam a cometer tamanha ousadia. Podem estar descontentes com qualquer coisa, mas ainda não estão malucos.

Isto das graves é tudo uma questão de perspectiva: depende de quem está do lado do receptor. Pode-se estar nas tintas para as reivindicações dos vendedores de gelados na praia, mas se eles estiverem de greve num dia especialmente quente na Caparica e estiver a apetercer-lhe um "frutóchocolate", vai a resmungar irritado a caminho do café mais próximo, enquanto queima os pés na areia a escaldar: "chulos, não querem trabalhar". O sentimento é um misto de egoísmo com indiferença; por nós os funcionários das portagens podem estar de greve todos os dias, menos no dia em que precisemos de usar a ponte. Mas parece isto das greves foi chão que já deu uvas. Atente-se ao primeiro parágrafo: "...apesar da adesão não ter sido significativa". Hoje em dia nunca é significativa. A greve perdeu o seu impacto, e hoje está para as lutas laborais como a sangria através de sanguessugas está para a medicina moderna. Os portugueses não querem fazer grave. Então isso é muito grave.