sábado, 31 de agosto de 2013

Compressa? Devagarinho até lhe dou duas...


A questão do acesso aos cuidados de saúde em Macau é um espinho encravado na pata da população ainda desde o tempo da administração portuguesa. Bem sabemos que ninguém é bruxo, e não se previa tão grande défice em termos de qualidade dos serviços prestados, tanto no âmbito do público, como do privado, mas esta foi uma “zona cinzenta” que deixamos por colorir com tons mais vivos quando partimos em 19 de Dezembro de 1999. O sistema de saúde gratuito, universal e de qualidade em Macau é uma miragem. É pena, pois num território onde a liquidez não é um problema deviamos estar a respirar saúde, com médicos para todos, equipamento de primeira e uma celeridade exemplar nas áreas da prevenção, diagnóstico e tratamento. Mas longe disso, e mais uma vez, é pena.

O hospital público, o mais que saturado Centro Hospitalar Conde S. Januário (CHCSJ) foi notícia esta semana mais uma vez pelos piores motivos. Uma parturiente que deu à luz naquele hospital expeliu pela vagina as compressas usadas durante o parto, depois de se ter queixado de dores e dificuldades em urinar. Recorreu aos serviços do hospital, onde não foi encontrada a razão das suas queixas, e viria depois a denunciar o caso na imprensa. Mais um que me provoca um pouco de desconforto, depois de alguns anos outra parturiente ter ficado a “defecar pela vagina”, depois dos médicos do CHCSJ lhe terem trocado as voltas dos orifícios na hora de lhe coser os pontos.

A queixosa expressou a sua desilusão com o hospital público nas redes sociais, nomeadamente o Facebook, e deixou uma expressão curiosa: “Do Kiang Wu sai-se sem dinheiro, do São Januário sai-se sem vida”. Já tinha ouvido isto antes. A comunidade chinesa vem dizendo há alguns anos com algum humor que “no Kiang Wu estão os ladrões e no S. Januário os assassinos”. Ah ah ah! Já riram tudo? E que tal fazer algo para mudar este estado de coisas? Ou basta desabafar poeticamente que uns roubam e os outros matam, como num descargo de consciência, e fica o peito menos pesado?

Quanto ao S. Januário, tenho ouvido falar bem e tenho ouvido do piorio, e penso que tudo tem a ver com a gravidade da situação. Quem ali se desloca com marcação prévia com vista a um procedimento de rotina que não coloque em perigo a sua vida, fica normalmente satisfeito com o atendimento. Na realidade o problema do CHCSJ não tem a ver tanto com os recursos ou com a qualidade do pessoal que dispõe, mas antes com o que faz falta e leva a que não consigam dar vazão às inúmeras ocorrências. A população aumentou exponencialmente nos últimos dez anos, e o hospital é ainda o mesmo de há 20 ou 30.

O calcanhar de aquiles será o serviço de urgências, onde uma gripe mais persistente obriga os utentes a esperar por vezes meio dia desde o registo até à saída, após completar o processo de consulta, diagnóstico e medicação. Há quem diga que o tempo de espera, exposto à flora bacteriana e viral da sala da espera, faz com que se contraíam maleitas além da que motivou a ida à urgência. O único jeito de ser atendido com rapidez é no caso de se chegar com as tripas de fora ou com a cabeça pendurada no pescoço por um tendão – passo o exagero. Muitos são os casos em que a urgência não aparenta a necessidade de atendimento imediato, e mais tarde se vêm revelar de gravidade extrema. De facto é impossível distinguir uma simples diarreia de uma hemorragia interna a olho nu, mas os casos de negligência têm sido tantos que abalam a credibilidade do serviço público de saúde.

Como alternativa existe o Hospital Kiang Wu, que em tempos remotos era simplesmente conhecido como “hospital china” – tempos em que o hospital público era conhecido pela sua excelência. Actualmente torna-se muito mais prático acorrer ao Kiang Wu para tratar uma simples gripe ou outros males passageiros. Por qualquer coisa como 200 patacas e mais uns trocos é-se atendido em menos de uma hora, e vai-se para casa com a medicação e eventualmente o atestado médico. O pior é que nos casos que vão além da simples gripe há a tendência para exarcebar a gravidade dos sintomas, que depois requerem “exames mais completos” ou até um ou dois dias de internamento , com um preçário que vai muito além das tais 200 e tal patacas. Daí o epíteto de “ladrões”, se bem que com tantos “cuidados” desnecessários, as possibilidades de cometer actos negligentes são nitidamente menores que no caso do hospital público.

O Kiang Wu tem beneficiado nos últimos anos de grande investimento em termos de infra-estruturas, pessoal médico e auxiliar, bem como de equipamento. A isto não é estranho o facto de um dos maiores investidores no hospital privado ser o próprio Chefe do Executivo, Chui Sai On, e a sua família, que encabeça a direcção da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu. “Beneficência” aqui é usada de uma forma bastante livre, claro. Uma das aquisições mais recentes é uma ala reservada aos cuidados paleativos, baptizada com o nome do milionário honconguense Henry Fok, que terá patrocinado a sua construção. Esta estrutura assemelha-se mais a um hotel de cinco estrelas do que um local triste para onde os doentes terminais vão esperar a chegada da morte, e com um preço a condizer com a qualidade. Perante estes factos, como se pode esperar que a nomenclatura invista no serviço público em deterimento dos seus interesses privados?

Enquanto uns vão matando e os outros esfolando (os bolsos), quem paga as favas é a população, que anseia pelo acesso à saúde como em qualquer lugar do mundo considerado "normal". Os mais endinheirados optam por Hong Kong, e ironicamente assumo que os próprios medicos da RAEM consultam-se na RAE vizinha quando necessitam de tratar da saudinha. Os mais vivaços vão até Bangkok, onde se situa o tal hospital-hotel onde se realizam todos os exams necessários em um ou dois dias, em condições de conforto impossíveis de encontrar em Macau. Por cá, quem não tem outra opção só lhe restam duas soluções: coveiros ou ladrões. E dessas venha o Diabo e escolha.

Lei, dura lei


Já esteve preso? Já alguma vez foi levado para a esquadra para prestar depoimento e ficou lá a “secar” três ou quatro horas sem saber muito bem o que lá estava a fazer? Já passou uma noite ou duas nos calabouços da bófia? Não? Ainda bem, e a perspectiva não é nada agradável. Só de pensar nisso dá uma estranha vontade de aliviar a tripa. Para os amantes da liberdade, dez minutos atrás das grades parecem dias, quanto mais considerar cumprir uma pena de vários anos de prisão.

Diz o povo e com razão: “quem anda à chuva, molha-se”. Quem persiste numa conduta à margem da lei, seja ele um carteirista, um traficante ou um proxeneta, tem normalmente a consciência de que se arrisca a uma longa temporada “à sombra”, a ver o sol a nascer aos quadradinhos. É preciso ter um estômago de aço e um “par deles” a condizer (no caso de ser um homem), e não se pense que todos estes marginais são uns indivíduos com fibra. A grande maioria torna-se mais mansa que um gatinho de mama quando prova a mão pesada da justiça. A prisão não é uma colónia de férias para ninguém, e mesmo para os que tornam o cárcere menos penoso recorrendo ao dinheiro, poder ou influência, sente falta de um valor que todos prezamos: a liberdade.

Se há países onde a justiça anda pelas ruas da amargura, e são comuns as prisões arbitrárias, sem julgamento, por delito de opinião ou simplesmente por posições que vão contra o poder vigente, em Macau, região administrativa especial da China, é suposto gozarmos de garantias que nos permitem dormir mais descansados, sem receio de ir parar ao xilindró sem saber bem porquê. Não foi o que aconteceu com um cidadão japonês, trabalhador não-residente, que passou 12 preciosas horas de um dos preciosos dias da sua preciosa vida no “inferno” do cárcere, e ninguém consegue explicar porquê.

A história é contada na edição de ontem do Hoje Macau, e causa um tremndo embaraço às forças de segurança do território. Ou devia causar, pelo menos. Uma discussão com um taxista – o que em Macau é uma espécie de modalidade amadora tão popular como o “tai-chi” – meteu a polícia “ao barulho”, e levou a que o cidadão nipónico em causa passasse a noite em quatro esquadras diferentes, privado da sua liberdade sem que lhe fosse apresentado um motivo válido. Após a “excursão” pelas esquadras, foi libertado sem acusação formada.

O caso vem detalhado no jornal, que o publicou a pedido do ofendido, e vem levantar sérias dúvidas sobre matérias sensíveis, como a protecção legal que devia ser dada a cada cidadão na RAEM, seja ele residente ou não, e a forma como a lei é interpretada e aplicada. As autoridades não têm o direito de agir como bem entenderem, e depois justificar os seus actos com questões de segurança ou cobrir o amargo dos seus erros com uma capa de legalidade, ou alegar questões técnicas, ou de “procedimento”. Um problema a ter em conta pelo próximo responsável da tutela, que entraria com o pé direito caso nos garantisse que não andamos a brincar aos polícias e ladrões.

O Papa é o quê???


O "bruxo" Alexandrino é um conhecido "cromo" de Portugal, um indivíduo que evidencia uma psicose preocupante, mas é considerado inofensivo, e até tem o seu quê de cómico. Só que no programa "Vida Nova" da SIC, transmitido ontem à tarde, Alexandrino foi longe demais, e chamou ao Papa Francisco "filho da puta", em directo e ao vivo. O "bruxo" era convidado do programa onde faria uma sessão de hipnotismo, e ao falar do sumo pontífice entusiasmou-se, e cometeu uma blasfémia inédita na TV portuguesa. Os apresentadores do programa ficaram incrédulos, e houvesse um buraco onde se pudessem esconder, e enfiavam-se lá dentro. É ver para crer.

O Príncipe e o bacon


Ozzy Osbourne é uma das lendas vivas do rock'n'roll. O vocalist dos Black Sabbath, que reuniu recentemente a banda mais de 30 anos depois da sua saída, é associado com o satanismo, e nos anos 80 ficou celebre o episódio em que durante um concerto arrancou a cabeça de um morcego vivo à dentada. Desta feita Ozzy teve problemas não com um mamífero vivo, mas com pedaços de outro morto. Ao preparer uma sanduíche na sua mansão em Beverly Hills na última quarta-feira, o cantor de 64 anos deixou queimar o bacon que fritava na frigideira, e fez disparar o sofisticado sistema de alarme. Poucos minutos depois um batalhão de bombeiros de Beverly Hills estava à porta dos Osbournes, alertados pelo fiasco da sandes do chefe do clã de uma das famílias mais famosas da América. A sua mulher Sharon está em Londres a filmar uma série do concurso "The X Factor", mas lamentou o incidente na rede social Twitter. Segundo uma nota de imprensa da agência que representa a família Osbourne, Ozzy estaria "demasiado desorientado" para tomar atenção ao bacon, vindo de quatro meses em tour, e ainda sofrendo de "jet-lag". Pois, pois, ou isso ou fumou qualquer coisa que lhe fez mal. Já em Janeiro último ocorreu um incidente semelhante na moradia de Ozzy e Sharon, quando o casa se esqueceu de apagar uma vela no seu quarto, levando a mais uma alerta dos bombeiros. Parece que o Príncipe das Trevas insiste em iluminar o seu reduto da forma mais natural possível. Uma homenagem ao seu mentor, o demo?

Bayern de Guardiola vence Chelsea de Mourinho


O Bayern de Munique conquistou ontem à noite a Supertaça Europeia ao bater o Chelsea, no desempate pelos pontapés da marca de grande penalidade. A partida entre os alemães, campeões europeus, e os ingleses, vencedores da Liga Europa, tinha o aliciante de colocar frente a frente Pepe Guardiola e José Mourinho, que protagonizaram uma grande rivalidade enquanto treiandores do Barcelona e Real Madrid, respectivamente. O Chelsea entrou bem melhor, e logo aos oito minutos Fernando Torres dava vantagem aos londrinos, e apesar da reacção imediata dos bávaros, que só sabem jogar futebol de ataque, este era o resultado com que se chegava ao intervalo. O descanso fez bem ao Bayern, que logo no segundo minuto da etapa complementar empataria por intermédio do francês Franck Ribery. A partida acabaria por ir para prolongamento, e no terceiro minuto do tempo extra Hazard voltaria a dar vantagem ao Chelsea, e quando tudo indicava que Mourinho ia conquistar pela primeira vez este troféu, Javi Martinez empatava novamente mesmo em cima do minuto 120, levando o jogo para a lotaria dos penalties. Os escolhidos de Guardiola e Mourinho demonstraram uma eficácia quase perfeita na mercação dos pontapés da marca dos onze metros, mas Romel Lukaku, o ultimo a bater, permitiu a defesa ao guardião Manuel Neuer, e a Supertaça ia para a Alemanha. Este é o primeiro troféu da época para os bávaros, depois de terem perder a supertaça doméstica para os rivais do Dortmund.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Recordações da casa amarela


Em primeiro lugar gostava de dizer que nunca fui ao restaurante Lvsitanvs, situado no segundo andar de um edifício histórico perto das Ruínas de S. Paulo desde meados de 2011. Quer dizer, minto, estive lá uma vez num Domingo à tarde, e bebi um café. Deixou-me pouco impressionado, muito devido à sua exiguidade e simplicidade. De facto era um espaço com um certo toque português, mas muito longe de nos inspirar qualquer tipo de sentimento mais rebuscado, do tipo saudade, ou que nos fizesse sentir num estabelecimento de restauração português, numa casa de pasto, ou sequer numa daquelas tabernas que antes eram frequentadas por bêbados mas depois foram reformatadas para o século XXI e agora são petisqueiras "castiças" com uma decoração "tradicional". Que me perdoem os adeptos do Lvsitanvs, que tem um nome que faz lembrar a capa dos livros do Astérix, mas nunca achei aquilo nada de especial.

Apesar de não se inserir no meu gosto, o Lvsitanvs atraía alguma respeitável clientela, e organizava a espaços alguns eventos remotamente interessantes. Recordo-me das comemorações do 25 de Abril de 2012, numa sexta-feira à noite, se não estou em erro, e lembro-me de não ter ido devido a um casamento a que fui convidado no Four Seasons. Recordo-me ainda de ter voltado para casa de táxi, e de como chovia a potes. Mesmo assim não se pode dizer que o Lvsitanvs fosse um local que pulsasse de motivos culturais, seria um disparate afirmar que contribuíu de alguma forma para a solidificação da cultura portuguesa na RAEM, ou que fosse sequer um ponto de encontro da nossa comunidade. Nem pouco mais ou menos. Nem sequer despertou a curiosidade dos milhares de turistas que frequentam aquela zona do centro histórico de Macau. No dia que lá fui, num Domingo à tarde com sol e temperaturas amenas, estava praticamente "às moscas".

Na génese do Lvsitanvs está uma coisa que prefiro ficar à parte e que considero um defeito da nossa comunidade: o elitismo. Quer dizer, não espero que os srs. doutores e restantes figurões tugas da nossa praça me cumprimentem na rua quando me vêem ou que me dêm palmadinhas nas costas só pelo facto de sermos compatriotas, nada disso. Mas se eles acham por bem levar para a frente "o seu" projecto, com "o seu" toque, que corresponde "à sua" visão, isso é com eles, e eu tenho todo o direito de gostar ou estar-me a borrifar - neste caso opto pelo último. Adoro almoçar ou jantar num restaurante português onde se coma bem e exista um ambiente descontraído, beber um café bem tirado numa esplanada onde se leiam jornais portugueses e seja frequentado por uma maioria de portugueses, e não sofro de nenhuma alergia nem tenho qualquer espécie de complexo com os nossos compatriotas. Só que o Lvsitanvs não me enche as medidas. Sabe demasiado a plástico para o meu paladar.

Nos dois anos e qualquer coisinha desde o arranque do projecto, o caminho tem sido sinuoso. Tivemos demissões, substituições e confusões, que levaram mesmo a que se falasse de um eventual encerramento do espaço. Depois não gostam quando os locais nos mandam "bocas", e dizem que os portugueses gostam é de muito paleio e pouco trabalho. Escudando-me no pragmatismo indígena que se rege pelo princípio "money talks and bullshit walks", ou ainda "não há dinheiro, não há palhaços", é observável a olho nu que o Lvsitanvs é um espaço cujo potencial em termos de lucro não justifica o lugar privilegiado que ocupa. Talvez tenha existido um erro de "marketing". Duvido que a maioria dos turistas que visitam diariamente e fotografam as ruínas de S. Paulo soubessem da existência de um local de traça colonial mesmo debaixo dos seus narizes. Não consta dos guias da cidade, e nem os operadores turísticos o mencionam por mera curiosidade. E porque o haviam de fazer? Quem não é português em Macau não sabe que o Lvsitanvs existe. Não há sequer uma tabuleta que dê conta da sua existência.

A maior ingenuidade terá sido a de confiar ao lobo que tomasse conta do rebanho. O espaço onde se situa o Lvsitanvs é propriedade do grupo Future Bright, cujo director-geral e sócio maioritário é um tal Chan Chak Mo. Para quem não sabe, este senhor, natural de Hong Kong, é um conhecido empresário da restauração do território, e pasme-se, deputado na Assembleia Legislativa, eleito pela via indirecta em representação dos interesses empresariais. Um daqueles tipos muito espirituosos que estão no hemiciclo a tratar da vidinha e garantindo que ninguém mete a colher na sua sopa. O sr. Chan Chak Mo é um bonacheirão, que ostenta sempre um sorriso de orelha a orelha, reflectindo a sua satisfação com a forma como lhe correm os negócios e os algarismos na sua conta bancária. Tem muito dinheiro, o fulano? Então se calhar está satisfeito, de barriga cheia, e certamente não se importa de alugar aquele cantinho do seu vasto império por um preço módico à malta. Puro engano. Aquilo é dele, ele é que manda, e enquanto estão para ali os tugas com os fados e as petiscadas, ele está a perder massa, e naquele lugar por onde passam milhares e milhares de turistas do continente por dia, quem sabe se é melhor substituir o Lvsitanvs por uma loja de "souvenirs" ou outros pechisbeques de plástico?

A estratégia é sempre a mesma: o contrato cessa em Dezembro, e como condição para o renovar exige-se o triplo ou o quadrúpulo da renda actual, o que obrigaria o Lvsitanvs a vender pastéis de bacalhau a 500 patacas a unidade, e haver quem os compre na ordem das centenas por dia. Os responsáveis pelo restaurante (!) até são uns tipos endinheirados, mas o dinheiro é deles e faz-lhes falta. Então o que é isto? Amigos, amigos, negócios à parte. E agora? Agora nada, fim da dinastia. Foi bom para alguns, poucos, enquanto durou, e o Lvsitanvs ficará como uma nota de rodapé no historial dos empreendimentos que "afirmam a presença portuguesa na Macau pós-transição". Quem sabe se alguém se lembra e aproveita o nome para abrir um tasquinha algures na Areia Preta ou em 10 metros quadrados na Taipa, onde se pode comer choco frito e chouriço assado enquanto se mamam umas imperiais? Parece mais acolhedor que o actual Lvsitanvs. E quanto a Chan Chak Mo? Adivinha-se um "future bright" para ele, pois faz parte dos 12 "imortais" que concorrem às 12 vagas da via indirecta para a próxima legislatura. Mais quatro anos na mesma, como a lesma.

No escurinho do cinema, parte V: XXX


Quando era menor de idade sonhava com o dia em que completaria 18 anos e podia ir ver qualquer filme (poder votar era outro dos meus sonhos de maioridade, imaginem). Quando se pensa em “filmes para adultos”, pensa-se imediatamente em pornografia, mas não era par aver pornografia que ambicionava poder ser admitido em qualquer filme – pelo menos no meu tempo ainda havia filmes para maiores de 18 que não eram pornográficos. Não me quero aqui armar em erudito ou pregar sermões a ninguém, mas não considero pornografia “cinema”. Os filmes ou as cenas de pornografia servem apenas de auxiliar à auto-gratificação, quase sempre masculina, e isso é cada vez mais verdade à medida que a idade vai avançando, e nos começa a faltar imaginação.

No Montijo, onde vivia, os filmes pornográficos passavam à meia-noite de sexta-feira no Cineteatro Joaquim D’Almeida, já referido na primeira parte desta rubrica. Tinha um amigo que era aficionado do género, e que amiúde convidava o resto da malta a ir com ele. Fui um dos últimos a aceder a este convite “picante”, e numa sexta onde não me apetecia ir para casa e não tinha nada melhor que fazer, lá fui com o pornógrafo e outro amigo ver a sessão de pinocanço daquela semana – e nem foi preciso atingir a maioridade, pois teria apenas 16 ou 17 anos, não me recordo ao certo. O nome do filme também se varreu da memória, mas isso era o menos importante – que diferença faz? Era um filme pornográfico, iguais aos outros todos. Posso garantir que era Americano, pelo menos.
Do que me recordo era do ambiente antes do início da sessão. A plateia, que seria menos de meia-casa, era composta 100% por homens, 80% deles idosos, alguns já bem entrados na casa dos 70 anos. Dizem que “alguns casais vão ver este tipo de filmes juntos”, mas isso são tretas. Nenhuma mulher decente e no pleno uso das suas faculdades mentais mete ali os pés, nem por engano.

Os senhores no Cineteatro naquele dia e àquela hora tinham todos um ar carregado, como se aquilo fosse uma coisa muito séria, mas eu próprio fiz um esforço tremendo para não me desmanchar a rir.
Quando o filme começou foi notório que os espectadores procuravam a forma mais confortável de se sentarem na cadeira. Nesta fase já estava arrependido, e só fazia figas para que ninguém levasse longe algum eventual “entusiasmo” durante o filme. Filme esse que foi, como seria de esperar, degradante. O pior foi a reação dos idosos, que vocalizavam a sua satisfação perante as cenas de sexo explícito a que assistiam, e que constituíam 90% da chanchada. Ouviam-se comentários do tipo “dá-lhe, toma!”, “ela quer levar com ele todo”, “geme, filha, ai como dói”, ou o melhor de todos “o daquele gajo é parecido com o meu”.

No fim senti-me duplamente enganado. Além da tortura que foi assistir aos tristes espectáculos – o filme e o comportamento dos gimbra – a sessão não durou sequer uma hora, e pelo preço de um bilhete normal! Pelo menos ninguém se masturbou, se bem que evitei a todo o custo fazer contacto visual com alguém ou sequer mexer a cabeça, não fosse isso mal interpretado. Agradeci ao meu amigo a experiência (ele adorou, como sempre…) e jurei para nunca mais. Mesmo num filme normal sinto-me embaraçado cada vez que existe uma cena amorosa mais gráfica. Nunca falta um engraçadinho que exteriorize a sua insegurança, assobiando, rindo feito parvinho ou berrando “elá!”, para ver se algum dos outros espectadores que o têm que aturar o nomeia para comediante do ano.

Por muito que discordem do que vou agora dizer, eu insisto: os filmes pornográficos são todos a mesma merda. Há quem defenda que alguns filmes “têm argumento”, ou qualquer outra coisa que não seja cenas de sexo oral, vaginal e anal. Os tais filmes “soft-core”, ou eróticos, têm de facto um argumento e menos cenas de sexo explícito, mas esse argumento é uma cagada. Se fosse bom era usado num filme decente. E não, não considero “O Império dos Sentidos” um filme pornográfico ou sequer erótico. É um filme que contém cenas de sexo explícito, mas vai muito além disso. Pelo menos os filmes “hardcore” têm a sinceridade de oferecer ao espectador aquilo que estes vêm à procura: mais foda, menos conversa. Alguns filmes porno usam anões, mulheres obesas, gajos mascarados ou são inspirados em clássicos do cinema. Tem a sua piada, mas o resultado é o mesmo. Se eu estiver interessado em ver a “Branca de Neve e os Sete Anões”, não vou optar antes pelo “Puta das Neves e os Sete Fodilhões”.

Há quem considere a pornografia humilhante para a condição feminina, mas nesta indústria (sim, indústria) existe um certo “glamour”, e realizam-se mesmo cerimónias de entrega de prémios. Não será preciso referir aqui que as distinções de “melhor actor” e “melhor actriz” pouco ou nada têm a ver com dotes de representação. Algumas das actrizes são “super-estrelas”, e tornam-se milionárias graças ao seu “talento” – atrevam-se a chamar isso de “prostituição”, se puderem.

Vídeo da semana


Hugo Chávez partiu do mundo dos vivos há meses e deixou a Venezuela em lágrimas, mas o cromo que entrou para o seu lugar também não lhe fica atrás em termos de retórica. Nicolás Maduro falava na TV sobre educação ou lá o que é - pouco importa para o caso - quando fez uma referência bíblica que lhe correu mal. O presidente venezuelano enganou-se no milagre efetuado por Jesus Cristo. Em vez de peixes, Maduro disse que multiplicou «pénis». Para o lapso terá contribuído o facto de as duas palavras serem muito semelhantes em castelhano: «penes» e «peces». A gafe está a ser alvo de comentários nas redes sociais e é a segunda de Nicolás Maduro este mês. Num discurso a 10 de agosto, o presidente da Venezuela referiu-se aos milhões e «milhonas» de revolucionárias. Já em Junho "el presidente" tinha declarado Guerra às "piranhas", gangues de rua que cortam o cabelo às mulheres e o vendem no mercado negro. Anda bem servida de presidentes, a Venezuela.

Porto e Benfica conhecem adversários


O FC Porto e o Benfica conheceram ontem os seus adversaries na fase de grupos da Liga dos Campeões, e pode-se dizer que a sorte esteve do lado das equipas portuguesas, que fizeram bom uso do estatuto de cabeça-de-série de que usufruíam.

O FC Porto, tri-campeão nacional, ficou no Grupo G, com os espanhóis do Atletico de Madrid, os russos do Zenit e os austríacos do Austria Viena. Os "colchoneros" e os russos são velhos conhecidos dos dragões, com os últimos de má memória. O Austria de Viena é "black horse" do grupo, e o primeiro jogo dos portistas é na capital austríaca.

O Benfica ficou com os franceses do Paris SG, os gregos do Olympiakos e os belgas do Anderlecht. Os milionários franceses serão o maior obstáculo aos encarnados, mas tanto os campeões gregos como os belgas serão acessíveis. A equipa de Jorge Jesus faz a sua estreia na Luz frente ao Anderlecht, a 17 de Setembro.

Quanto aos restantes alinhamentos, o "grupo da morte" será talvez o que inclui Arsenal, Borussia Dortmund, Marselha e Nápoles, o Grupo F. Outro grupo interessante é o H, que inclui Barcelona, AC Milan, Ajax e Celtic, todos ex-campeões europeus, e que em conjunto conquistaram 16 (!) troféus. De recorder que a final deste ano realiza-se em Lisboa, no Estádio da Luz, a 24 de Maio.

Estoril confirmado, Braga desilude


Ontem foi noite de Liga Europa, com sortes diferentes para as duas equipas portuguesas na segunda-mão do "play-off". O Estoril viajou até à Áustria para defrontar o Pasching, trazendo uma vantage de 2-0 do jogo da primeira mão, e confirmou a sua superioridade, vencendo desta feita por duas bolas a uma. Os "canarinhos" puderam respirar fundo logo aos 21 minutos graças a um golo de Luís Leal, obrigando os austríacos a marcar 4 golos para seguir em frente. O mesmo jogador faria o 2-0 aos 53, e o melhor que a equipa da casa conseguiu foi reduzir quatro minutos depois, por Sobkova. O Estoril chega assim à fase de grupos da Liga Europa logo na estreia nas competições europeias, juntando-se a V. Guimarães, qualificado directamente como vencedor da taça de Portugal, e P. Ferreira, repescado dos "play-off" da Liga dos Campeões.


O Braga por seu turno desiludiu os seus adeptos, ao ser eliminado em pleno Estádio AXA pelos romenos do Pandurii. Os minhotos traziam uma vantagem de 1-0 da Roménia, e poucos pensavam que não estariam na fase de grupos da Liga Europa. Contudo o Pandurii não baixou os braços, e empataria a eliminatória logo aos 15 minutos com um golo de Buleika. Apostando numa defesa dura e cerrada, os romenos conseguiram levar o jogo para prolongamento, e aos 117 minutos Ciucur desferiu o golpe final nas pretensões da equipa portuguesa, que ficou com 3 minutos para marcar dois golos. O Braga podia ainda ser repescado devido ao abandono por castigo por parte dos turcos do Fenerbahçe, mas essa sorte calhou aos cipriotas do APOEL, no sorteio que decorre neste momento.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O que queres ser quando fores grande?


No Domingo, enquanto batalhava contra a lentidão da ligação à rede, ia espreitando para a programação da RTPi, uma vez que a TDM passava a repetição do jogo do Sporting, e vi alguns momentos da Gala dos Pequenos Cantores da Figueira da Foz. O certame que os leitores da minha geração recordam da infância, nomeadamente o enfadonho “Eu vi um sapo”, da então desdentada Maria Armanda, regressou após alguns anos de interregno, e não percebo muito bem o que levou a suspendê-lo. O apresentador foi durante muitos anos o inconfundível Sansão Coelho, uma espécie de Toto Cutugno cruzado com Barry Manilow, e agora a boa notícia: ele está vivo! Mais velho, claro, mas está vivo e fazia parte do júri. A apresentadora da Gala na versão terceiro milénio é Sílvia Alberto, aquela moça cheia de açucar que transmite a mesma energia tanto a um desfile carnavalesco como a um funeral de Estado. É só alegria!

A Gala é assim como uma espécie de Festival da Canção júnior, e os concorrentes são jovens entre os cinco e dez anos à procura de um lugar ao sol no mundo do espectáculo. Tinhamos alguns concorrentes exóticos, como uma menina romena que cantou em romeno, e dois pequenos chineses que cantaram em Mandarim – sinais dos tempos. Desconheço quem foi o vencedor, até porque não assisti até ao fim, mas isso é que menos importa. Já que falámos de fama e de um lugar ao sol, havia uma concorrente que me chamou a atenção. Uma menina de cabelos encaracolados em cacho, que não teria mais que 8 anos, e que disse que quando fosse crescida queria ser “cantora e modelo”. A sério? Dando-lhe o respctivo desconto devido à terna idade, será que é isto que ela quer mesmo? E os pais ainda a encorajam? Se sim, que raio de pais são estes?

Quando somos crianças o mundo é uma bola nas nossas mãos, citando o Manuel Freire e a sua “Pedra Filosofal”. Quando temos 5, 7, 10 ou até 13 anos podemos ser aquilo que quisermos, e depois chega a puberdade e descobrimos que não queremos ser nada. Quando eu tinha oito ou nove mudava de “profissão” praticamente todos os meses. Queria ser detective, inspirado nos livros de banda desenhada, depois quis ser tratador dos leões no Jardim Zoologico, e cheguei mesmo a considerar fascinante a profissão daquele gajo que enchia o tanque no posto da gasolina. Depois não quis ser nada. Com toda a certeza que nunca disse durante a minha infância que queria ser funcionário público, para poder ter um tachinho fixo sem um chefe sacana a chatear e a ameaçar-me com o despedimento. Mas aconteceu, pronto. Quem diria.

Essa coisa de perguntar “O que queres ser quando fores grande” é uma treta que os adultos inventaram para meter conversa com as crianças, desfazados que estão da sua realidade, e por isso optando por uma pergunta parva para tentar encontrar um ponto de comunicação. Tivesse eu a mesma veia sarcástica que tenho agora, e respondia “olha…se for mesmo muito grande quero ir jogar na NBA”. Mas talvez com medo de serem abusados verbalmente ou fisicamente pelos matulões dos adultos, os putos respondem, e normalmente dão uma resposta sempre muito “politicamente correcta”. Ninguém diz coisas como “bilionário”,“freira”ou “empresário da noite”. As respostas são sempre “light”, como aquelas natas que não engordam.

Os rapazes mais saudáveis e desportistas querem ser sempre algum tipo de atleta, normalmente um futebolista. Os pais acham graça, desde que eles não estejam a falar a sério. Os cotas têm a plena consciência que a grande maioria dos aspirantes a futebolista de topo tornam-se nuns pelintras depois dos 30 anos. Os que respondem “médico”, “arquitecto” ou outra profissão liberal demonstram alguma maturidade, mas preocupam os pais, que temem que o filho não tenha jeito para o trabalho físico, e nunca se sabe se a carreira de servente na construção civil não possa surgir no horizonte para lhe garantir o sustento. Sempre é melhor que nada. Se o miúdo responde que quer ser “mecânico” ou “carpinteiro”, dizem-lhe logo “não sejas parvo, pá!”, e se dizem “padre”, “modista” ou “decorador de interiores”, cai o Carmo e a Trindade. Nessa noite vão dormir com a cara inchada de tabefes.

As meninas querem ser sempre alguma paneleirice que os adultos acham graça, do tipo “quero ser modelo”, ou “actriz”, ou “parteira” (quando ainda existiam parteiras). Ainda lhes é permitido responder qualquer coisa que requeira alguma sensibilidade, como “médica” ou “veterinária”, mas se a miúda responde “advogada”, “engenheira” ou “arquitecta”, os adultos tiram o sorriso idiota da cara e pensam preocupados: “coitadinha, tão pequenina e já é lésbica”. Ninguém ter a coragem de dizer com franqueza a uma miúda de sete ou oito anos que ser actriz, modelo ou cantora pode implicar sacrifícios para se chegar ao topo, como ter que dormir com gajos asquerosos, ser obrigada a tomar drogas ou ficar anoréxica. É giro ouvir aquilo da boca delas, mesmo que não seja possível. É da idade, pronto.

É claro que a melhor profissão é aquela para que temos vocação, e se isso não for possível, que saia a terminação. Os sonhos são uma coisa perigosa, e caso não se possua uma apetência ou talento especiais para o efeito ou toneladas de cunhas, nada feito. Para os pais já é óptimo que seja uma profissão digna que lhes permita pagar as contas e não lhes andem sempre a pedir massa emprestada, em muitos casos para remendar as asneiras que eles, os pais, “nunca fariam no seu lugar”. E que pensam os outros? Vai alguém dizer mais tarde algo como “Mas olha lá, o teu filho é estivador? Não era ele queria ser dentista? “. Nada disso, ninguém quer saber. Isso de “O que queres ser quando for grande” não passa de conversa de adultos. Conversa de chacha.

No escurinho do cinema, parte IV: a arte do medo


Se o objectivo final da comédia é tentar-nos fazer rir, outros géneros cinematográficos há que procuram despertar outras emoções, apelando à nossa imaginação ou rebuscando os medos mais recônditos. É o caso dos filmes de ficção científica e de terror, o cinema do fantástico. Assim como as comédias não têm o condão de pôr toda a gente a rir, o sucesso destes filmes que apelam ao imaginário dependem da maior ou menor facilidade com que nos impressionamos. Assim como em qualquer outro género, a qualidade do argumento, da realização e das interpretações é importante, mas neste tipo de cinema mais ambicioso juntam-se a estes requisitos outros factores, como os efeitos visuais ou a caracterização. Uma coisa de cada vez.

Os filmes de ficção científica são normalmente associados às viagens espaciais, à exploração e conquista do universo. O Homem foi pela primeira vez ao espaço em inícios dos anos 60, e aterrou na Lua em 1969, o que levou a assumir que outras fronteiras seriam ultrapassadas num curto período de tempo. Daí que tenham surgido longas metragens e séries televisivas sugerindo que em poucos anos seria possível a qualquer um conduzir a sua nave especial rumo ao espaço sideral, ou apanhar um táxi para a Lua. O ano 2000 – talvez por ser um número redondo – foi estabelecido como a grande meta a atingir. O filme de ficção científica mais aclamado foi “2001 – Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, que em 1968 considerou os 30 anos seguintes um prazo razoável para se realizar a sua visão. Os maiores clássicos do género incluem a série “Star Wars” ou “Star trek”, onde a suspensão do descrédito tem um papel preponderante para poder apreciar a experiência.

De facto torna-se complicado prever o futuro, especialmente se essa previsão for feita para um futuro mais ou menos breve. A tecnologia evoluíu de uma forma tão diferente de como a imaginámos, que mesmo as engenhocas dos filmes de James Bond são completamente obsoletas perante uma simples “Pen drive”, o tal “dedinho” que nos permite armazenar dados informáticos e que cabe no bolso das calças. O segundo filme da trilogia “Back to the Future” mostrou-nos em 1989 um ano de 2015 muito irrealista para daqui a menos de ano e meio, e o filme “Demolition Man”, de 1993, com Sylvester Stallone e Wesley Snipes, dava-nos uma imagem de um ano de 2032 muito improvável, pelo menos a dezanove anos de se concretizar. O melhor é fazer como Woody Allen em “Sleeper”, que em 1973 levou-nos a 200 anos no futuro. Mesmo que a sua ideia do século XXII não seja precisa, longe disso, já não vai andar por cá para aturar os críticos.

Em vez de tentar prever o futuro, o melhor mesmo é criar uma alternativo, uma realidade distópica. Foi o que fez Stanley Kubrick com “Laranja Mecânica”, e outras películas como “Dark City” ou “Minority Report”. São filmes que não nos pedem para acreditar, mas simplesmente que apreciemos a “tara” do seu criador. O estilo foi inaugurado com sucesso em 1949 pelo escritor George Orwell com o seu “1984”, e apesar desse ano já ter passado, a visão do seu autor continua actual. Em matéria de prever o futuro, mantem-se o recorde centenário do francês Júlio Verne, que no século XIX tinha previsto nas suas obras algumas das conquistas futures da humanidade. Seria ele um dos ET’s a viver entre nós, como vimos no filme “Men in Black”?

Quanto ao género do terror, é difícil encontrar um consenso. Conheço muita gente que adora filmes de terror, e impressiona-se com facilidade. Pessoalmente nunca assisti a nenhum que me assustasse ou causasse pesadelos de noite. Mesmo os filmes que providenciam um susto mais ou menos decente lá para o meio ou para o final, já me deixaram tão aborrecido e a pensar noutra coisa melhor que fazer que não me emocionam. A era dourada dos filmes de terror terá sido na primeira metade do século XX, com os vampiros inspirados no conde romeno Vlad Tepes, um déspota sanguinário da idade média, ou o monstro de Frankenstein, criado pela novelista inglesa Mary Shelley a gozarem de um enorme sucesso. Os progressos na ciência e a globalização fizeram com que cada vez menos gente acreditasse que os mortos podem voltar ou que as múmias do Egipto podiam sair do seu sarcófago e andar.

Há dois filmes de terror, ou dentro do género, que me fazem com que lhes tire o chapéu: “Psycho”, do mestre do suspense Alfred Hitchcock, e “Shinning”, de Stanley Kubrick. Mas estes são reestidos da componente psicológica, e não do sobrenatural. Entre os mais incríveis, no sentido que carecem por completo de qualquer credibilidade, destaco “Noite dos Mortos Vivos”, de 1968, realizado por George A. Romero, que mesmo com um orçamento reduzido conseguiu ter bastante qualidade e ser um pioneiro dos filmes sobre “zombies”. Há outros filmes que têm o mérito de combinar o humor ou a fantasia com o sobrenatural, e por isso benificiam do facto de nunca nos dar a entender que estão a falar a sério. É o caso da série “Evil Dead”, que atingiu o pique do surrealismo com o terceiro e último episódio “Army of Darkness”, o clássico “Bruxas de Eastwick”, onde Jack Nicholson fazia de Diabo e as fresquíssimas Cher, Michelle Pfeiffer e Susan Sarandom as suas bruxas. Onde entra o Diabo, os resultados até conseguem ser positivos. São os casos do clássico “O Exorcista”, que foi revolucionário no campo dos efeitos visuais, ou o meu favorito, “Angelheart”, com Mickey Rourke no papel principal e Robert de Niro como Senhor das Trevas.

Em finais dos anos 90, uma espécie de compêndio de clichés do género do terror faz um sucesso inesperado. “Scream”, uma “franchise” que já originou quatro filmes entre 1996 e 2011, é realizado por Wes Craven, provavelmente a maior referência viva dos filmes de terror, apenas seguido de perto por John Carpenter. Craven gozou de um sucesso enorme com a série “Pesadelo em Elm Street”, onde um tal Freddy Krueger entra nos sonhos infantis e dilacera as criancinhas com as suas luvas artilhadas com laminas. Foi o pináculo dos “slasher movies”, um sub-género do terror que mostra as vítimas a cair nas mãos do assassino com a mesma facilidade que os porcos se encaminham para a matança. A vítima, normalmente um adolescente, escuta um barulho incaracterístico onde supostamente deveria haver silêncio, e em vez de dar corda aos sapatos e correr, vai espreitar, diz “hello? Anybody there?” e pimba!, fica com as tripas de fora. Tão previsível como aborrecido, mas para muitos sinónimo de entretenimento fácil. Daí se explicam as inúmeras sequelas de filmes como “Halloween” ou “Sexta Feira 13”.

Quando a ficção científica e o terror se misturam, obtemos resultados positivos, como foram os casos de “Alien” e “Alien 2”, o primeiro “Predator”, que contava com Arnold Schwarzenegger no elenco, ou ainda o excelente “The Fly”, a versão de 1986, um “remake” do clássico de 1958, com Vincent Price. Quando se intromete a sátira, os resultados são discutíveis, mas ainda consigo sorrir quando me lembro de “The Fearless Vampire Killers” (“Por favor não me morda o pescoço”, na versão portuguesa), um dos primeiros filmes de Roman Polanski, que faz uma revisão deliciosa do conto do Conde Drácula. Nos filmes de terror, o uso e abuso dos efeitos visuais é tão ou mais importante que o argumento, e além do já referido “O Exorcista”, quando se fala em efeitos visuais penso nos filmes de lobisomens. O sucesso destes filmes depende da metamorfose que transforma o homem em lobo, mas com bons ou maus efeitos, os filmes de lobisomens são uma treta, talvez com excepção de “Um lobisomem Americano em Londres”, que tenta ser cómico-trágico.

Actualmente o género de ficção científica resume-se apenas aos clássicos, com a série “Star Wars” a passar do prazo de validade, e os “Star Trek” com tantas gerações que nem quero saber; sem Leonard Nimoy no papel de Spock não têm piada nenhuma. O terror moderno é dirigido ao público adolescente e tem muito pouco a ver com terror propriamente dito, como é exemplo a saga “Twilight”, que é mais dirigido a adolescentes histéricas que se deliciam com a presença em ecrã de Robert Pattinson, e até se esquecem que se trata de um filme de terror, pelo menos em teoria. A verdade é que os filmes de terror já não assustam nem as criancinhas, apesar de existir ainda quem se impressione. A esses tenho uma pergunta a fazer: se têm medo , e até tapam os olhos nas cenas mais intensas, porque não vão antes ver outra coisa qualquer?

P. Ferreira confirmado na Liga Europa


O P. Ferreira confirmou ontem o afastamento da fase de grupos da Liga dos Campeões, ao perder por 2-4 na Rússia frente ao Zenit, obtendo um total de 3-8 nas duas mãos do "play-off". Os pacenses perderam em casa 1-4 na partida da primeira mão, e não lhes restava nada senão arriscar no jogo fora, mas os russos mostraram argumentos demasiado fortes para a equipa de Costinha, que vai assim para a fase de grupos da Liga Europa. O português Danny, uma dasa referências do Zenit, foi o carrasco da equipa da capital do móvel, ao apontar os dois primeiros golos.

Nas outras partidas do "play-off", destaque para o Celtic, que recuperou em casa de uma desvantagem de 0-2 trazida do Cazaquistão frente ao Shaktyor Karandang, vencendo por 3-0. Também por três golos sem resposta o AC Milan bateu o PSV, depois de um empate a uma bola na Holanda. Na terça-feira os alemães do Schalke 04 puxaram dos galões e venceram na Grécia o PAOK por 3-2, depois de um comprometedor empate caseiro a uma bola na primeira mão. O Arsenal confirmou a sua superioridade sobre os turcos do Fenerbahçe, vencendopor 2-0 em Londres depois dos 3-0 em IStambul. A Real Sociedade confirmou em San Sebastian a vitória por 2-0 obtoda no reduto dos franceses do Lyon, que ficam assim relegados para a Liga Europa. FC Basel, Austria de Viena, Viktoria Plzen e Staeaua de Bucaresta carimbaram também o passaporte para a Liga milionária. O sorteio da fase de grupos realiza-se hoje.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Crime público...e porque não?


O programa Fórum Macau da TDM, já um clássico dos domingos de manhã no que toca ao debate da actualidade local, abordou esta semana a temática da violência doméstica. Entre candidatos às eleições para a Assembleia Legislativa do próximo mês, associações de cariz social e de apoio às mulheres e assistentes sociais encontravam-se ainda vítimas de violência doméstica, e convidados de Hong Kong que falaram da situação na RAE vizinha desde que este tipo de violência passou a constituir crime público. E foi principalmente isso que esteve em cima da mesa: deverá a violência doméstica ser considerado crime público em Macau? E que consequências poderá isso ter no tecido social da sociedade? E qual a diferença entre crime público e crime não-público?

Se existe pressão da parte de alguns sectores da sociedade no sentido de tornar a violência doméstica um crime público, é porque realmente são inúmeros os casos de agressão por parte de um parceiro doméstico a outro. Ontem juntaram-se onze cabeças-de-lista das 20 candidaturas que concorrem às eleições do próximo dia 15, o que dá a entender que o tema reúne algum consenso na sociedade – o que demonstra alguma evolução da mesma. O conceito de parceiro doméstico é bastante abrangente, mas para efeitos de argumentação, consideremos a situação mais comum: um homem e uma mulher, casados, normalmente com filhos menores a seu cargo. Há alguns meses foi considerada uma proposta para alterar a lei, mas foi rejeitada com o pretexto de que isto poderia “interferir com a harmonia familiar”. Isto foi interpretado por muitos como uma piada, pois para qualquer pessoa civilizada um homem que agride a sua mulher é merecedor de castigo, mas o que iria mudar caso a violência doméstica se tornasse crime público?

Por crime não público, e isto sem entrar numa interpretação do direito em geral ou do código penal em particular, entende-se qualquer ofensa à propriedade privada, à integridade física ou às liberdades individuais. Em suma, ninguém pode responder perante a sociedade por ter riscado o carro ou envenenado o cão do vizinho. No caso do crime não-público, não há interferência dos Ministério Público e os tribunais têm um papel meramente arbitrário. Caso as partes, ofendido e réu, cheguem a acordo, o primeiro pode retirar a queixa. O crime público inclui delitos graves como o furto, o homicídio ou o tráfico de droga, a acusação cabe ao Ministério Público e a queixa tem basicamente o papel de denúncia. No caso da violência doméstica se tornar crime público, uma mulher que denuncie o companheiro não terá a oportunidade de se arrepender e retirar a queixa. É isto que faz temer pela tal “harmonia familiar”. Já se sabe, as mulheres têm um temperamento difícil e não pensam duas vezes, e por vezes fazem porcaria que as podem meter, a si e aos seus, em grandes sarilhos.

No entanto em Macau a violência doméstica já é crime semi-público, como recordou o director da DSAJ, André Cheong. Se o conceito de crime público e não-público foram abordados no parágrafo anterior, o que é este “crime semi-público”? Algo que se senta na cerca entre os outros dois, e não é carne nem é peixe? Mais ou menos isso. Neste caso a acusação pode ou não ser produzida pelo MP, dependendo da gravidade. Escusado será dizer que num caso onde um dos cônjuges exerça um grau de violência sobre o outro que o leve a perder a vida ou à incapacidade total, o MP interfere. Tudo depende do número de escoriações, nódoas negras, dentes partidos ou ossos fracturados. Para os defensores da criminalização pública da violência doméstica, isto não é suficiente, pois deixa a vítima vulnerável a pressões da parte do agressor e de terceiros.

A mulher é na esmagadora maioria dos casos a parte fraca da violência doméstica. Mesmo que reúna a coragem para apresentar queixa – o que normalmente só acontecesse depois de repetidas agressões – é pressionada pelo marido para a retirar, e em alguns casos pela restante família e até pelos amigos, tudo em nome da “unidade familiar”. Da parte do agressor, estas pressões passam facilmente a ameaças, e em muitos casos a mais agressões. Assim, um homem que recorra à violência para resolver as suas questões conjugais fá-lo consciente de que dificilmente sofrerá consequências pelos seus actos. A maior parte das famílias em Macau, uma sociedade vincadamente patriarca, depende sobretudo dos rendimentos do homem, o cabeça-de-casal. Nos casos em que a queixosa é uma doméstica, e portanto sem rendimentos, levar avante um processo judicial pode-lhe trazer dissabores. Fica exposta à miséria, à dependência de familiares e amigos, e isto quando não encontra a censura dos próprios pais, que dificilmente entendem o seu sofrimento, que consideram apenas “rebeldia”. As mentalidades locais não estão preparadas para aceitar este tipo de “modernidade”.

O próprio Executivo torce o nariz a uma eventual criminalização pública, e vai ficando do lado dos mais tradicionalistas, a quem faltam argumentos para considerar que a violência doméstica pode ser resolvida com ponderação e diálogo. Como se pode dialogar com alguém que inicialmente optou pela via da violência? O problema é que os grosso dos empresários e chefes dos clãs mais endinheirados são homens, em muitos casos com amantes, concubinas, segundas famílias na China continental e mais uma parangona de “sinais de masculinidade”, próprias do macho-alfa entre os animais selvagens, e pode ser um problema. Imaginem um cleptocrata qualquer ir parar no xilindró não porque desviou centenas de milhões de patacas, mas porque a esposa fez queixinhas de que ele lhe atirou com o vaso Ming que estava na sala e obrigou-a a ir de helicóptero para Hong Kong de urgência levar dois pontos na testa?

É risível a atitude da Associação das Mulheres, ligada com os tais sectores tradicionais. Consideram “arriscado” a opção do crime público, e falam em “prevenção”. Que prevenção é esta de que falam? Um polícia à porta de cada moradia de família para se certificar que ninguém atira um copo à cabeça do cônjuge, e ainda bata à porta de meia em meia hora para perguntar de está tudo em ordem? Uma associação que supostamente defende as mulheres e devia destacar a importância do elemento feminino na sociedade dá assim a entender que as mulheres são umas coitadinhas, que sem o marido não são ninguém, e até nem se importa de levar um bocadinho de porrada de quando em vez, pois isso quer dizer que ele “a ama”. Mas isto não é nada de surpreendente ou sequer de inédito. Esta é uma daquelas associações que dançam ao som da música de quem manda, e se amanhã o Executivo muda de ideias e torna a criminilazação da violência doméstica uma prioridade, vão arranjar forma de dizer que sim, sim, são contra a violência doméstica desde pequeninos, e é um horror, todos presos já. Metem nojo, enfim.

O fundamental no propósito de tornar a violência doméstica um crime público é passar a mensagem de que se trata de algo reprovável, censurado pela maior parte da população minimamente civilizada, e que se deve pensar duas vezes antes de se recorrer à agressão contra alguém mais fraco, com quem ainda por cima nos unem laços matrimoniais, ou se partilha uma vida conjugal. Fico surpreendido que numa jurisprudência como a de Macau, onde se privilegiam as medidas preventivas e dissuasórias, existam tantas reservas neste particular. O importante é que as vítimas da violência doméstica não desistam, e que os grupos que fazem pressão para que se torne crime público não se deixem arrastar pela inércia, caindo na conversa de quem não quer mexer um dedo porque acha que as coisas estão bem como estão, e é melhor não mexer para não estragar. É que para os homens que batem nas mulheres, não há desculpa. E é necessário que isto se torne do domínio público, e aos olhos da lei.

Olho por olho


Um caso que está a chocar a China. Um jovem de seis anos foi levado dos pais por uma mulher, que de seguida lhe arrancou os olhos, supostamente com o objectivo de retirar e vender as corneas, onde no mercado negro podem valer qualquer coisa como 300 mil yuan – mais de 400 mil patacas. Mais um caso tenebroso que ocorre no sombrio mundo do tráfico de orgãos humanos, onde a China encabeça a vergonhosa lista de países onde mais se retiram orgãos vivos por meios ilícitos. O rapaz, de apelido Guo , foi levado no Sábado pela suspeita na cidade de Linfen, provincial de Shanxi, onde viva com os pais, ambos agricultores. A criança foi encontrada a sangrar dos olhos, e perto do local estavam os seus olhos, ainda com as retinas intactas. As autoridades assumem que a autora desta atrocidade se terá posto em fuga antes de poder levar a cabo a “colheita”. Devido à violência do procedimento, o pequeno Guo não poderá mais vez. A suspeita foi identificada, e a polícia de Linfen oferece uma recompensa de 100 mil yuan a quem der pistas sobre o seu paradeiro. Os pais da vítima estão inconsoláveis, e não há castigo que devolva a sua alegria, ou a visão ao seu filho, que fica assim condenado à institucionalização para o resto dos seus dias. Isto é quanto vale uma vida na China. Num negócio lucrativo como este do tráfico de orgãos, vale tudo. Até arrancar olhos.

No escurinho do cinema, parte III: rir é o melhor remédio


O cinema é supostamente uma forma de despertar no seu público todo o tipo de emoções, e dessas uma das mais difíceis é o riso. O sentido de humor é uma das características mais subjectivas do ser humano, e o que alguns consideram hilariante, para outros não tem piada nenhuma, e por vezes pode ser considerado “de mau gosto”. Quando se faz humor, é quase impossível agradar a todos, e o risco de ferir sensibilidades é enorme. O género da comédia no cinema foi sofrendo evoluções naturais, adaptando-se às novas realidades e aproveitando um pouco de tudo o que se passa à nossa volta. A mudança de mentalidades foi permitindo aceitar tipos de humor que os nossos pais e avós considerariam ultrajante.

A meca do cinema mudo fez brilhar uma estrela: o britânico Charles Chaplin, que revolucionou o conceito com o seu personagem Charlot. O bigodinho curto, o fato preto, o chapéu de coco e a bengala deliciava os cinéfilos do início do século XX, mesmo que no contexto actual este tipo de comédia parece um tanto ou quanto arcaico. A primeira grande “equipa” de comédia no cinema foram os irmãos Marx, cuja referência foi Groucho, ainda hoje recordado e conhecido entre as gerações mais novas. Nos anos 60 o comediante Jerry Lewis inovou com o seu estilo único, do pateta alegre com cara de idiota que divertia as multidões com as suas tropelias. Nos anos 90 apareceu um tal Jim Carrey, e foram feitas algumas comparações, mas o canadiano viria a revelar-se muito mais talentoso e versatile, partindo muito cedo da imagem de atrasado mental de Lewis.

Até há 50 ou 60 anos a forma como se fazia humor era mais próxima daquilo que se designou por “slapstick”, que numa tradução aproximada para o português podemos chamar de “torta na cara”. Acidentes como quedas, queimaduras, agressões, situações embaraçosas, era o suficiente para provocar o riso. Um pouco mais tarde apareceu também o humor escatológico, ou “humor de retrete”, com recurso a flautulências, excrementos ou referências a fluídos corporais. Pessoalmente não acho muita graça a cenas onde alguém se magoa ou dá um traque, a não ser que isto se insira num context humorístico mais amplo. Já nos anos 90 os irmãos Farrelly conseguiram explorar este tipo de humor com algum sucesso, em filmes como “Something About Mary”, “Dumb and Dumber” ou “Shallow Hal”, onde recorreram mesmo ao uso de pessoas portadoras de deficiência mental. Bob e Peter Farrelly aperfeiçoaram o que se chama de “gross out movie”, um filme que contém cenas que não se recomendam à hora das refeições.

Os anos 70 marcaram uma viragem no humor, com prevalência para o cómico de situação e de linguagem, Curiosamente a América retirou muita da sua inspiração de uma equipa humorística que fez grande sucesso do outro lado do Atlântico: os Monty Python. Os Python inventaram praticamente o “sketch” humorístico, e a sua longa metragem “Life of Bryan”, uma sátira à descrição bíblica da natividade e da vida de Jesus Cristo, é considerada ainda uma das comédias mais hilariantes de sempre, apesar da Igreja lhe ter achado pouca graça. Nos Estados Unidos a comédia começava a evoluir do “slapstick” e dos musicais para um humor mais incisivo e inteligente. Mel Brooks e o seu “Young Frankenstein”, inspirado no clássico dos filmes de terror fizeram história, e um tal Woody Allen, um tipo esquisito e nervosinho, arrancava as gargalhadas da audiência com o seu “Bananas”, ou no papel de espermatozóide em “Tudo o que você queria saber sobre sexo”.

Depois da diversificação do género da comédia, as possibilidades eram imensas, e a imaginação dos humoristas dava para brincar com tudo e mais alguma coisa. Foi (e é ainda) difícil encontrar uma comédia com que a generalidade do público se identifique, e muitas comédias dos anos 80 e 90 são “americanices” com que o público fora dos EUA se pudesse identificar. Do entulho da comédia “yankee” surgiu um trio que fez rir todo o mundo, com uma espécie de humor um tanto ou quanto louco, mas que muitos ainda recordam com um sorriso. Os irmãos David e Jerry Zucker juntaram-se a Jim Abrahams e realizaram em 1980 “Airplane!”, um clássico que ridiculizava os “disaster movies”, nomeadamente “Airport 1975”, e adaptavam o antigo “slapstick” aos tempos modernos, juntando-lhe um cómico de linguagem com o uso do trocadilho. Leslie Nielsen, um veterano dos filmes de ficção científica dos anos 50 e 60, colaborou com Abrahams e os Zuckers em “Airplane!”, mas seria nos anos 80 que com eles atingiria o estrelato com a série “The Naked Gun”, no papel de Frank Drebin, um polícia que tinha tanto de destemido como de trapalhão.

Com a variedade de comédias, tudo passou a ser considerado potencialmente engraçado, dependendo do público a que se destinava. Não há nada mais frustrante do que assistir a uma comédia e não conseguir rir uma única vez, e infelizmente muitos produtores, realizadores e actores começaram a participar em longas metragens que não faziam rir nem à força de gás hilariante. A dupla Jason Friedberg e Aaron Seltzer, por exemplo, acharam que teria piada satirizar outros géneros cinematográficos, mesmo que o material não desse muita vontade de rir. Assim apareceram trambolhos como “Date Movie”, “Disaster Movie”, “Meet the Spartans” ou “Vampires Suck”, que deixaram as audiências com um Q.I. acima do nível de stupor com um sorriso amarelo. Salva-se “Scary Movie”, uma paródia aos filmes de terror que colheu a simpatia tanto de público como da crítica, mas mesmo assim a festa ficou estragada com várias sequelas que fizeram esquecer o sucesso da primeira tentativa.

Nos últimos anos surgiram alguns novos talentos cómicos, e um dos mais bem sucedidos será Judd Apatow, que nos trouxe algumas das comédias mais deliciosas dos últimos 10 anos, como “The 40-Year-Old Virgin”, “Superbad” ou “Get Him to the Greek”, bem como alguns falhanços, casos de “Year One” ou “Step Brothers”. Alguns destes comediantes mais progressistas recorrem amiúde àquilo que se designa por “drug humour”, um tipo de humor que envolve referências ao uso de drogas, algo que muito boa gente pode achar desadequado. Em 2009 saíu o filme “The Hangover”, que contava as aventuras de um grupo de amigos que foi até Las Vegas fazer a despedida de solteiro de um deles, e tomou um tipo de ácido que os fez esquecer tudo o que se passou na noite anterior. Este será até agora o filme mais cómico deste século, mesmo que muita gente não tenha o estômago para aceitar o argumento.

Cada país e cultura têm a sua interpretação de humor muito própria, e não esperam que outros países e culturas riam com eles. Além dos americanos, que “bombardeam” o resto do mundo com os seus usos, costumes e modo de vida, é difícil a outros povos absorver o sentido de humor mais “regional” dos diferentes países. Claro que há excepções, e uma delas será o espanhol Pedro Almodovar, que usou os “bonecos” da vida nocturna madrilena de um jeito que lhe valeu a aceitação de outros mercados. Seja o que for que lhe mexa com o ossinho do humor, o que lhe dê cócegas, não deixe que os outros digam que “não tem piada”. A comédia tem história, tem um pouco de tudo para todos os gostos e veio para ficar. Quem ri os seus males espanta.

O (quase) deputado Jason Chao


Um artigo de opinião da edição de ontem do Jornal Tribuna de Macau (JTM, muito em berra hoje aqui no blogue) chamou-me a atenção, e fiquei deveras surpreendido, pela positiva. O artigo em causa é assinado pela jornalista Sandra Lobo Pimentel, que raramente opina, e é sobre as eleições, nomeadamente sobre o deputado do sector pró-democrata Jason Chao. Cada vez que no JTM se opina sobre o Novo Macau, o deputado Pereira Coutinho ou qualquer elemento do lado oposto da barricada da nomenclatura, fico de orelhas no ar, qual cão-polícia, a agitar o nariz preto e húmido na ponta do focinho, como quem detecta por antecipação que vai haver esturro.

Mas não, gostei do que Sandra Lobo Pimentel escreveu, e seja qual for a sua intenção, está coberta de razão. Assino por baixo. De facto a Comissão Eleitoral e restantes entidades encarregadas de organizar o acto eleitoral de 15 de Setembro e manter a sua ilegalidade têm metido os pés pelas mãos. De facto são as listas fora do círculo do poder ou dos sectores tradicionais quem mais beneficia com a asneira. E de facto Jason Chao tem sido um dos maiores protagonistas dos últimos meses que antecedem estas eleições. E como cereja no topo do bolo está o president da CEAL, a quem Jason Chao deve acender uma velinha a todos os santos por ter sido nomeado para o cargo. Sandra Lobo Pimentel não se esquece de mencionar as "gaffes" de Ip, que são como uma zebra coxa que tenta fugir das intenções famintas de um jovem leão, neste caso Jason Chao.

Nem Jason Chao, nem Lee Kin Yuen ou os restantes candidatos que protestam "por tudo e por nada" pediram para que fosse nomeado alguém tão "macio" para a CEAL, e cuja justificação para certas decisões causam a risada até dos apoiantes do Executivo e da ala pró-Pequim. É o homem errado no lugar errado, e considerar a forma como tem desempenhado o seu cargo como sendo "positiva" envergonha até o mais aplicado dos graxistas do burgo. Resta saber que cargo importante vai Ip Song Sang desempenhar depois destas eleições. Certamente qualquer coisa que o recompense pelo "frete", que deixou a sua imagem completamente desgastada.

Quanto ao futuro de Jason, concordo com Sandra Lobo Pimentel na parte final do seu artigo: vai ser eleito, e sem margem para dúvidas. Quer se questionem os seus métodos ou até a sua capacidade para desempenhar o cargo de deputado, vamos ter Jason Chao a "malhar" na AL pelo menos até 2013, e caso não se acomode ou suavize a sua verve contestatária, talvez tenhamos aqui o sucessor de Ng Kwok Cheong na liderança da pró-democracia em Macau. E se actualmente a polícia já o evita como se de um leproso se tratasse, o que dizer de quando gozar da imunidade que o lugar a que se prepara para ocupar lhe proporciona? Sim, Sandra, vai dar mais trabalho. Mas fazer o quê, se a estratégia colhe entre o eleitorado?

Lindos meninos


Faltam poucos dias para o arranque da campanha eleitoral para a Assembleia Legislativa, e já há muito que os motores começaram a aquecer. Algumas listas não perdem tempo e levam a cabo acções de campanha à margem da lei, que nestas coisas da política cumprir a lei é para os nabos. Os paladinos da legalidade que não se cansam de apelar a eleições “limpas e transparentes” vão assistindo ao lixo e aos ratos a acumularem-se em cima dos tapetes persas do salão e baile, e assobiam para o lado. O maior protagonista tem sido, infelizmente, o presidente da Comissão Eleitoral para a Assembleia Legislativa (CEAL), o juíz Ip Son Sang, que tem sido tão desastrado que faz o seu antecessor Vasco Fong brilhar como mil sóis no topo do Monte Olimpo, onde moram os deuses.

A trapalhada mais recente foi proibir a colocação de cartazes e realizar acções de campanha no Largo do Senado, a maior praça de Macau e tradicionalmente um centro de activismo politico: foi ali que os patriotas acenaram com o livro vermelho de Mao durante os acontecimentos do “1,2,3”, foi ali que a população saíu à rua aquando do massacre de Tiananmen, foi ali que se colocou um ecrã gigante de onde foi transmitida em directo a transferência de soberania de Macau, e é ali – ou era – que arrancava todos os anos a campanha, à meia-noite do seu arranque. A razão é fútil, e tem a ver com os turistas, e é por ali que passam, e há mesmo muitos turistas, e sabe-se lá se ainda cai um cartaz em cima da cabecinha de um deles e ai Jesus que grande sarilho. Os turistas não votam mas são eles quem dita onde se pode ou não realizar a campanha eleitoral. Os curvadinhos do poder até batem palmas, como se pode constatar neste texto, e vão mesmo ao ponto de afirmar que “os residentes até evitam passar por ali”. O progresso dá-se a uma velocidade tão vertiginosa em Macau, que nem eu dei pelo dia em que o Largo do Senado mudou para o outro lado das Portas do Cerco.

Quanto aos verdadeiros motivos, podemos especular, procurar motivos que não os da “segurança” alegados pela CEAL. Considerando que a maior parte dos turistas que chegam à RAEM chegam da China continental, e inevitavelmente fazem compras naquela área, imaginem um diálogo entre um deles e um residente:

- O que querem dizer estes cartazes?
- São as listas que concorrem às eleições no dia 15.
- Tantas? Certamente que são autorizadas pelo governo central…
- Não. Algumas são pró-Pequim, mas há algumas do sector da pró-democracia.
- O quê? Mas certamente que as listas tradicionais ganham…
- Ninguém “ganha” exactamente, mas o campo pró-democrata costuma ser o mais votado.
- Pelos chineses???
- Pelos chineses, sim, os de Macau.
- E podem escolher???


Isto sem dúvida que pode constituir um choque para os nossos endinheirados visitantes, que ainda por cima podem voltar lá para cima e contar o que viram. Portanto o melhor é varrer este “lixo” para debaixo do tapete e mandá-lo lá para o Tap Seac ou algo assim, onde não passam os preciosos turistas – nem quase ninguém, para esse efeito. Não acredito que a China tenha encomendado o sermão, case esta teoria se confirme, mas nem precisa. Macau continua a provar que é o “bom aluno”, e mesmo quando o professor não consegue dar o livro inteiro durante o ano lectivo, ele acaba os exercícios. Lindo menino.

Há vinte anos, vinte patacas


Falando ainda sobre taxistas, uma entrada da secção “Há 20 anos”, do Jornal Tribuna de Macau da última segunda-feira, dá conta de uma notícia do dia 26 de Agosto de 1993, que fala de abusos por partes dos motoristas de táxis aquando da passagem do tufão Tasha. Uma Ora como foi há 20 anos e 18 dias que cheguei a Macau, recordo-me da tarifa dos táxis de então: a bandeirada era 7 patacas, e avançava 90 avos após os primeiros 800 metros. Era possível ir da Av. Sidónio Pais até à Praia Grande por menos de 10 patacas. Na notícia em questão uma mulher queixa-se de um taxista pedir-lhe 20 patacas por uma corrida entre o Mercado Vermelho e o edifício Hoi Fu, uma viagem que se faz a pé em 10 ou 15 minutos, com ou sem tufão. Mas…vinte patacas? Um assalto, meus senhores, em 1993. E o que dizer das 400 ou 500 patacas que cobram actualmente em dias de tufão por viagens que custam 40 ou 50 num dia normal? Mas o “normal” foi há 20 anos, em 1993, quando bastava esticar um braço para apanhar um táxi. Agora é tudo muito…”anormal”.

Quem brinca com o fogo...


Imagens de grande violência que nos chegam de Yalta, na província ucraniana da Crimeia. Três homens planeavam assaltar taxistas na estação de Dacha, onde estes costumam normalmente terminar o seu turno, e com a "caixa" recheada, naturalmente. No entanto os assaltantes espertalhões não contavam com a resistência dos homens do carro preto, e acabaram por agredi-los e disparar sobre eles, sendo mais tarde detidos. Parece que não é só em macau que os taxistas são um osso duro de roer. Citando o antigo dirigente do PS português, Jorge Coelho, "quem se mete com os taxistas, leva!"

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Greve de larica


Uma forma de protesto que envergonharia o próprio Gandhi. Lee Kin Yuen, o activista profissional de Macau, levou hoje a cabo uma greve de fome em frente ao edifício da Administração Pública na Rua do Campo, onde fica a sede da Comissão Eleitoral para a Assembleia Legislativa (CEAL), como forma de protesto pela alegada censura de quem tem sido alvo. Mas esperem lá, greve de fome? Bem, Lee e mais dois membros do seu grupo Activismo para a Democracia ficaram sentados à porta do edifício onde fica sediada a CEAL durante dez horas, o que vale por dizer que o esforço foi igual ao de um funcionário público com dores de dentes que tenha feito horas extraordinárias nesse dia.

O que mais deve ter incomodado Lee "y sus muchachos" foi o calor abrasador que se fazia sentir. Depois de tentarem ocupar o chão à entrada do edifício, a polícia - que Lee atrai como as sardinhas atraem os gatos - mandou-os para o olho da rua, e sempre que tinham oportunidade os grevistas encostavam-se a um cantinho onde houvesse um pouco de sombre e uma fresta de onde soprasse um arzinho gélido vindo do ar-condicionado do edifício público. Os transeuntes passavam e alguns poucos detinham-se a observer o espectáculo. O momento alto deu-se quando a televisão deu um ar da sua graça perto da hora de almoço. O calor era realmente o maior problema, e das vezes que saí e entrei do edifício - onde trabalho, como alguns leitores devem saber - o activista estava com um ar de quem devia estar a pensar "porque não fazem a porra das eleições no Inverno?".

Lee disse que protestava contra a decisão da CEAL de apagar do seu programa eleitoral o pedido de demissão da secretária para a Administração e Justiça, Florinda Chan, e de terem editado através do Photoshop uma imagem sua onde ostentava uma fita amarela na cabeça, onde se lia a mesma reivindicação. Hoje Lee esteve lá com a fita na cabeça, e ainda trouxe consigo uns cartazes rudemente escritos à mão, em chinês, que mais pareciam da autoria de uma criança de oito anos. A greve de fome em horário de expediente levou a que Lee consumisse "apenas água e bebidas energéticas". Já agora porque não uns sumos de fruta, batidos ou caldos de galinha? São coisas que não se mastigam, portanto é "fome" na mesma. Quando lhe perguntaram porque é que a greve de fome durou apenas 10 horas, quando alguns activistas em Hong Kong chegam a passar vários dias sem comer, Lee justificou "que não tem tempo", pois a campanha eleitoral está à porta, e ele tem que fazer mais daqueles elaboradíssimos cartazes escritos à mão com um marcador preto. E se calhar a mãe dele já lhe tinha ligado muitas vezes nesse dia para voltar a casa e acabar a sopa.

Não podia deixar aqui de referir os "camaradas" de Lee nesta semi-greve de fome, esta "greve de larica", chamemos-lhe assim. Um deles era um senhor com os seus cinquenta anos bem contados, bigodinho ralo, pinta de estocador. O terceiro era uma miúda gi-rí-ssi-ma, pasme-se. Bonita, com um rosto encantador que por vezes escondia atrás dos cartazes, formas perfeitas. Um mimo. O único senão era o aspecto desmazelado, nada que um banhinho com água quente e uma muda de roupa interior no resolvessem. Trouxe consigo uns lápis de côr (de cera?), e a meio da tarde vi-a a desenhar qualquer coisa. Se calhar a malta do Activismo para a Democracia não tem guita para uma câmara digital, e por isso recorre a métodos mais primitivos. Mas esta menina era um regalo para a vista, sem dúvida. Não fosse a mais que provável tara de que sofre, e até a convidava para sair.

Doce Campanha Eleitoral





Agora um momento com o patrocínio do grupo "Doçi Papiaçam di Macau", que se dedica a divulgar o crioulo maquista. Os videos que vos apresento pertencem ao último espectáculo do grupo, exibido em Maio passado. Uma paródia muito oportuna e muito bem conseguida aos tempos de antena das listas que concorrem à Assembleia Legislativa. A não perder.

Bo Bo bem bom


Terminou na China o julgamento de Bo Xilai, ex-líder do PC chinês do município autónomo de Chongqing caído em desgraça devido a acusações de corrupção, suborno e abuso de poder. Depois dos factos apresentados no tribunal e Jinan, província de Shandong, desde sexta-feira até ontem, resta aguardar a sentence - um mistério para nós, uma certeza para o regime chinês, muito antes do julgamento ter começado. O director do JTM, José Rocha Dinis, assina na edição de hoje do seu jornal um editorial onde demoniza Bo Xilai, e diz não entender a súbita simpatia pelo réu deste processo. Os argumentos de JRD são válidos: o sistema judicial da China não usufrui da mesma autonomia que nas democracias ocidentais, e Bo Xilai não é nenhum anjinho. Mas o que Bo Xilai fez não fez porque lhe deu na real gana.

Bo, como disse JRD e bem, é filho de um dos oito fundadores da RPC, e foi "levado ao colo" até ao poder por Jiang Zhemin - e daí talvez se explique a perseguição à Falun Gong, o inimigo de estimação do antecessor de Hu Jintao na liderança do país. Fez purgas? Talvez...Bo Xilai é da ala conservadora do PC, e se calhar por isso os seus métodos são pouco compatíveis com a abertura encetada pela ala reformista, maioritária no Politburo. Corrupção? Atire a primeira pedra quem nunca pecou, e apesar do poder imenso de Bo, os valores de que o acusam obter de forma ilícita são ridículos: 25 milhões de yuan é uma ninharia para altos dirigentes como ele, até para outros de menos "calibre". Quando o director do JTM conclui dizendo que o exercício totalitário do poder da parte de Bo Xilai chegou ao fim quando outros se mostraram mais poderosos que ele, concordo. Já Mao dizia: "os heróis de hoje são os vilões de amanhã". Mas não se pense que Bo Xilai vai sofrer na pele as agruras do "exemplo" que o partido único quer dar. Prevejo uma pena de 15 anos de prisão , no máximo, e que esteja cá fora daqui a cinco ou seis, com recurso a um expediente qualquer, e o mediatismo deste julgamento foi "para chinês ver". Trocas e baldrocas, altas engenhocas, que eles (o PC chinês) adoram inventar. Vale uma aposta?

No escurinho do cinema, parte II: romance ou porrada?


Quem tinha namorada ou saía em grupos mistos ao fim-de-semana e resolvia ir ao cinema, debatia-se sempre com uma dúvida caso as opções fossem mais que uma: romance ou porrada? As meninas preferiam a última lamechice da moda, um filme romântico, com “um gajo booom” no papel principal. Certamente que muitos homens da minha geração nutrem pelo menos ainda uma réstia de ódio pelo Tom Cruise. Recalcamentos da adolescência. Os rapazes, a malta, queria era assistir a um bom filme de porrada, onde o herói desse prioridade a mandar uns gajos pelos ares primeiro, e depois, se restasse tempo e houvesse uma, dava umas beijocadas na tipa que acabava de salvar, ou que o tinha ajudado a mandar um número considerável de cadáveres para a morgue. Era o tempo dos Stallones, dos Schwarzeneggers, dos Chuck Norris, dos Van Dammes. Se elas levavam a melhor, era uma tarde de letargia do sono garantida para nós, se prevalecia a nossa escolha, elas queixavam-se da “violência”. Sim, no mundo dos anjinhos onde vivemos, isto é uma coisa terrível. No que estariamos nós a pensar ao ofender aquelas frágeis florzinhas de estufa?

Os filmes românticos obedecem a uma estrutura muito simplista e previsível: ele e ela conhecem-se, gostam logo um do outro, mesmo que no início não tenha existido empatia, pelo caminho têm um ou mais obstáculos, que no fim ultrapassam e vivem felizes para sempre. Quando o obstáculo é o noivo dela – o que nos leva a questionar a sua fidelidade em geral – ficamos a odiar o tipo logo que ele entra em cena. Ou é um milionário arrogante, vaidoso e lingrinhas, enquanto o nosso herói é humilde, musculoso e atlético, ou é um brutamontes que trata mal a menina, ao contrário do nosso herói, um rapaz “sensível”. O amor triunfará, eventualmente. Tretas. Os “clássicos” do género nos anos 80 e 90 incluem “Top Gun”, com o já mencionado Tom Cruise, “Pretty Woman”, “The Bodyguard”, “Dirty Dancing”, “Sleepless in Seattle” ou “Ghost”, onde aqui o obstáculo reside no facto de um dos amantes estar…morto. Ó diabo, que isso é mais complicado, e não há Viagra que resolva.

Existem filmes românticos com um respeitável valor cinematográfico, claro, e assim de repente lembro-me de dois: “Sid & Nancy”, o biópico sobre a relação entre o músico dos Sex Pistols, Sid Vicious, e a sua namorada Nancy Spungeon, e “Henry & June”, que fala do triângulo amoroso entre o escritor Henry Miller, a sua mulher e a escritora Anaïs Nin. Mas estes são baseados em acontecimentos da vida real, e não em fantasias da Terra do Nunca, portanto as românticas mais inveteradas nunca iriam gostar. Elas gostam é do “Grease”, do “Flashdance” ou do “Um oficial e cavalheiro”. E qualquer coisa com o Tom Cruise, claro, que é “boooom”…

Os filmes de porrada dividem-se em sub-géneros, sendo os favoritos da malta a acção, a guerra e as artes marciais. O primeiro teve os seus tempos de glória, e o melhor exemplo são os primeiros filmes da série “Die Hard”, onde o duríssimo John McClaine, interpretado por Bruce Willis, acaba com metade das tripas de fora e quase sem pinga de sangue. Os nossos pais tiveram John Wayne e Steve McQueen, em comum temos Clint Eastwood, mas o Bruce Willis é todo nosso. Infelizmente a acção do nosso tempo, que implicava que se gastassem milhões de dólares em cenários e adereços, começam a ser cada vez mais substituídos pela animação gerada por computador (CGI, na sigla inglesa). É especialmente naqueles filmes de super-heróis, tipo X-Men ou Justice League, ou sobre invasões por seres de outros planetas que é possível ver os CGI em acção. Quem não se recorda do raio alíegena a destruir a Casa Branca no filme “Independence Day”?

Os filmes de guerra existem um gosto mais apurado. Eu particularmente não sou grande fã, especialmente se forem sobre a guerra do Vietname, que idolisam as tropas norte-americanas e demonizam os Vietcong. Quando me perguntam qual o meu filme favorito sobre o tema, respondo sempre “Full Metal Jacket”, de Stanley Kubrick, o que leva a que me façam caretas estranhas. Não me agradam os “Platoon” ou os “Apocalypse Now”, e na realidade em termos de guerras os melhores filmes são sobre a de 39-45, aquela onde se atirava contra os Nazis. “Dirty Dozen”, “The Bridge Over River Kwai”, “Saving Private Ryan” ou mais recentemente “Inglorious Bastards”, provavelmente o melhor filme de Quentin Tarantino depois de “Pulp Fiction”. Mesmo a guerra do Golfo parece produzir material mais sumarento que o Vietname, e exemplo disso é o excelente “Three Kings”, com George Clooney no papel principal.

Finalmente quanto aos filmes de artes marciais, a porrada por excelência, com murros e pontapés. Bruce Lee foi pioneiro do estilo no Ocidente, e o malogrado “pequeno dragão” criou mesmo a sua própria variante de “kung-fu”, o “Jeet Kun Do”. Depois da sua morte surgiram Chuck Norris e Steven Seagal, versões mais americanizadas e bélicas, até que em finais dos anos 80 aparece um tal Jean Claude Van Damme, um culturista belga que crious uma espécie de fusão entre o boxe tailandês e a ginástica contorcionista. Os filmes de Van Damme eram muito pobrezinhos no departamento da escrita, e o belga compensava com repetições atrás de repetições em câmara lenta do seu famoso “pontapé de helicóptero”, sem que para isso fosse necessário representar – ou sequer falar bem inglês. No virar do século deu-se o reconhecimento internacional de Jet Li, um dos mais celebres alunos da famosa escola de artes marciais de Shaolin, mas foi pouco depois que se deu a conhecer um tal Tony Jaa, um pequeno actor tailandês que reinventou o “muay thai” para o grande ecrã, com os filmes “Ong Bak” e “Tam Yum Gong”. Esse sim, um senhor da porrada.

Caso não se conseguir decidir entre um filme de porrada que o faça sair do cinema aos socos no ar, ou uma lamechice de fazer derreter as pedras da calçada que faça a sua namorada gastar a caixa dos Kleenex, o melhor é encontrar um meio-termo. Se puderem, vão ver uma comédia, que sempre é algo do agrado de qualquer pessoa normal a quem apeteça voltar a casa bem disposta. E é de comédia que vou falar amanhã. Fiquem atentos!

Afinal, o que são "tapas"?


Ontem falei aqui do bar El Gaúcho Café Latino, e mencionei que lá se servem tapas, para quem desejar preencher um buraquinho que esteja a incomodar no bucho. Isto das “tapas” tem muito que se lhe diga. Não é nenhuma novidade, mas nunca nos últimos anos se ouviu falar tanto em tapas. É tapas isto, tapas aquilo, cafés chungosos baptizados de “Tapas” como chamariz, não servindo sequer as tapas propriamente ditas. Há mesmo quem pense que “tapas” é um prato da gastronomia espanhola. As tapas são giras, castiças, estão na moda. O que são afinal as tapas? Qual a sua origem?
Ora para quem pensa que é um prato espanhol, acertou em 50%: é de facto originário da Espanha. Durante o ritual da bebedeira, os “nuestros hermanos” ficavam com larica, e pediam ao taberneiro umas fatias de presunto, queijo ou azeitonas para acompanhar o tintol. Os petiscos eram-lhe servidos em pequenos pratos, ou pires, que os beberrões espanhóis aproveitavam para tapar o copo do vinho, na eventualidade que cair lá uma mosca – daí o nome “tapas”: serviam para tapar o copo ou a caneca de vinho. É um ritual centenário, e nem sequer é original. Qualquer país tem a sua própria versão de petisco com que acompanha a bebida. Os espanhóis até devem ter ficado surpreendidos com a adesão dos estrangeiros às tapas.

Com a internacionalização do conceito, as tapas passaram da simplicidade das azeitonas e do chouriço para repastos mais elaborados, e alguns mesmo caros, pelo menos para o bolso dos originais criadores das tapas, os beberrões castelhanos. Queijos gourmet, caviar, enchidos mais diversificados, alguns fritos, molhos disto e daquilo, além de outros temperos. Portanto cada um é livre que gostar de tapas e fazer disso um estilo de vida, se quiser, mas para quem não conhece e quer provar não espere encontrar algo de muito original ou exótico. Ah sim, e não pense fazer disso uma opção para o almoço ou jantar, pois além de lhe sair caro, ainda precisa de passar pelo McDonald’s no regresso a casa, para “matar o ratinho”, que não achou piada nenhuma às famosas tapas.

E tudo o comboio levou


Um idoso de 78 anos na Rússia escapou por pouco de uma morte horrível, quando foi arrastado durante alguns metros por uma composição do metro, na estação de Pyatnitskoye, em Belgorodskaya. O homem vinha a sair vagarosamente quando a porta se fechou e lhe deixou presa uma perna. O comboio arrancou, e depois de várias tentativas e um grande, grande susto, acabou por se soltar e cair no chão redondo. Antes assim.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

As noites latinas do El Gaúcho


Como os leitores devem saber, não tenho por hábito fazer publicidade a marcas, produtos ou serviços neste espaço, até porque o blogue não precisa disso para se manter. No entanto uma das vanatagens de ser o proprietário, director, editor, redactor, revisor, motorista, porteiro e empregado da limpeza do Bairro do Oriente permite-me falar do que quiser sem precisar de dar satisfações a ninguém. E além disso nada me dá mais prazer do que falar descomprometidamente de algo que de que gosto, que me dê imenso jeito ou que me proporcione momentos de prazer, ou como neste caso um lugar onde passei umas horas divertidas de lazer.

Posto isto, é com enorme prazer que uso este humilde espaço virtual para falar de um novo local de entretenimento do território, que ainda por cima é algo que faltava na noite de Macau, uma lufada de ar fresco. O El Gaúcho Café Latino fica localizado no NAPE, na zona de bares que a comunidade portuguesa conhece por “Docas”, mesmo ao lado do restaurant Fat Siu Lau 3. O empresário responsável pela abertura deste espaço é o incansável Jesus, o argentino mais conhecido da RAEM, e que há um par de anos abriu na Taipa o restaurante El Gaúcho, a sucursal deste novo espaço de que agora falo.

O El Gaúcho Café Latino, como qualquer bar que se preze, serve bebidas alcoólicas e no alcoólicas (para os alérgicos e para os anjinhos), além das tapas, para quem tiver o estômago a dar horas – miminhos que se devoram numa dentada, das quais destaco o queijo marinado com tomate-cereja, servido com pão, os calamares ou as almôndegas de morcela com alheira. Como o nome indica, no El Gaúcho Café Latino ouve-se música latina, da salsa à rumba, passando pelo cha-cha-cha, e com o aliciante de oferecer lições de dança aos seus fregueses, administradas pela nossa conhecida Vanessa Gonzalez, a divertida colombiana que dança com a mesma naturalidade que anda.

Penso que muitos dos leitores já lá foram espreitar, e de facto no Sábado encontrei muitas caras conhecidas, mas para os que ainda não conhecem, garanto que vale mesmo a pena. Para quem quer ficar a saber mais sobre o El Gaúcho Café Latino, pode visitar a página no Facebook, e atestar como se divertem os adeptos do “salero”. Uma novidade que é de saudar, numa terra onde apesar do calor, faltam lugares “calientes”.

Professor martelo


Uma câmara de circuito interno neste parque de estacionamento algures na China capturou estas imagens chocantes. Um condutor alucinado entra "a matar" sobre outro carro que estava lá estacionado, e é repreendido pelo guarda. O que se segue é inacreditável: o infractor sai do carro e ataca o pobre funcionário do estacionamento com um martelo, e apesar das tentativas frustradas de fuga, teme-se o pior para a vítima. Mais um episódio triste do cotidiano na China, onde alguns bandidos ainda se acham os maiorais.

Contra o monopólio marchar, marchar


Não é novidade nenhuma para ninguém que o serviço de internet em Macau é um dos mais lentos, caros e merdosos do mundo, tudo graças ao monopólio nojento que a CTM detém, e que deixa reféns todos os residentes do território, que vão “comendo e calando”. Boicotar a CTM significaria isolar-se da civilização, pois os fascistas são donos e senhores dos serviços de rede móvel e de internet, e por isso podem, querem e mandam, e ainda nos mandam à fava se nos queixamos do serviço miserável que providenciam. Recentemente foi atribuída a outra companhia o fornecimento do serviço da rede fixa, onde finalmente a CTM encontrará competição. Que atencioso da parte dos nossos chefes, que o Buda lhes acrescente, mas isto é apenas simbólico, e se calhar pensam que assim nos conseguem calar: ninguém, mas ninguém quer saber da rede fixa, e são cada vez menos os assinantes. A seguir fazem o quê? Liberalizam o mercado dos telegramas, mensagens em morse e sinais de fumo?

A minha fúria que ocasionalmente me leva a produzir um texto desta natureza – para que se lembrem que existo e continuo insatisfeito – tem a ver com a lentidão exasperante do serviço de internet durante o dia de ontem, Domingo, especialmente durante o serão. Não foi até à uma da manhã que obtive uma conecção de jeito que me permitisse navegar acima dos 1 kb (um quilobite!) por segundo de sinal. Acontece que utilizo o serviço móvel através de uma “pen”, rede 3G, que sendo caro deveria ser supostamente uma maravilha. Mas raros são os dias em que não necessito de recomeçar o “router” para ver se consigo uma ligação decente, qualquer coisinha melhor do que a ligação que teria caso vivesse no topo do Monte Evereste ou nas tundras da Sibéria. São precisos nervos de aço para não apanhar um esgotamento, e o leitor nem imagina o que vai de caixas de chá de tília vazios pelo chão à volta da secretária de onde vos escrevo estas linhas – que quando a CTM e o seu serviço de caca permitem, consigo publicar. Já cheguei a acordar várias vezes às seis da madrugada para assim poder apanhar menos tráfego e publicar os textos escritos e gravados no Word na noite anterior. Como este, por exemplo.

Com as telecomunicações em regime de monopólio, é evidente que a companhia que o detém não vai querer melhorar os seus serviços, adqurir equipamento moderno, ou sequer perder o sono cada vez que se dá um apagão, seja por burrice de um dos gajos que lá trabalha, ou porque um tubarão mordeu um cabo submarino. E o que interessa, se não podemos optar por outra solução? Bem sei que de nada adianta queixar-me, insultar ou rogar por um serviço compatível com os progressos tecnológicos e com o século onde vivemos, e já seria bom que tivesse metade da qualidade de outros territórios da região, como aqui ao lado em Hong Kong, por exemplo, mas já sei que não dá. O modelo a seguir é, como sempre, o que vem lá de cima, da China, os nossos "tai-lous". Mas pelo menos vou protestar, fazer barulho e bater com o pé. Nem é pela internet mais livre, mais rápida para todos ou algo assim, mas para ter um serviço pelo qual pago pontualmente todos os meses, sem ficar horas tentar conseguir uma ligação decente. Que esta voz do Céu chegue de alguma forma aos burros.

No escurinho do cinema, parte I: era uma vez...


Aproveitando o sucesso da série "Educação Musical", decidi inaugurar aqui outra rubrica, desta vez dedicada ao cinema. Fui roubar o título a um dos maiores êxitos de Rita Lee, "No escurinho do cinema", que diz quase tudo sobre essa experiência mágica que é ficar sentado na escuridão em frente ao grande ecrã. Mais uma vez record que todas as opiniões são pessoais, e não exijo a ninguém que concorde seja no que for. Espero que gostem.

A primeira vez que fui ao cinema terá sido quando tinha os meus 4 ou 5 anos, não me recordo bem, e tenho quase a certeza que o primeiro filme que vi foi “Se a minha cama voasse”. Escusado será dizer que os detalhes do enredo foram varridos da minha memória com a mesma velocidade com que entraram. Mas ir ao cinema é uma das minhas memórias mais queridas da infância. Ir ver um filme no grande ecrã nas tardes de Sábado ou Domingo era o que de mais sofisticado e elegante me aconteceu durante anos. O teatro (literalmente) dos sonhos era no Montijo: o velhinho Cineteatro Joaquim D’Almeida (sem relação com o actor), enorme, sumptuoso, um verdadeiro monumento – e apenas a cinco minutos a pé de casa.

O Cineteatro tinha duas bilheteiras à entrada, uma de cada lado, e no meio uma porta dupla onde um senhor devidamente uniformizado fazia a triagem dos cinemófilos e recebia os bilhetes, que rasgava num canto com as suas distintas luvas brancas. As opções eram Plateia e Balcão, este mais caro mas sempre a minha primeira escolha. Duas batidas de um gongo oculto anunciava que faltavam poucos minutos para o início da sessão, e depois dos “chius” que mandavam calar os mais agitados, abria-se uma lindíssima cortina rebordada em de cor grená, e deparava com o cinzento da tela, de onde no ia tirar os olhos durante mais de uma hora. A única interrupção era o “Intervalo”, dez minutos que os incontinentes usavam para fazer o seu xixi, e os fumadores aproveitavam para ir matar o vício, dirigindo-se ao varandim que dava para a rua, de onde se podia ver a esquadra da PSP do Montijo – inspirador, deveras. Os mais gulosos podiam aproveitar para ir até ao bar – um daqueles bares clássicos que vemos nos filmes dos anos 50 – comprar uns doces para mastigar enquanto viam a segunda parte da fita, e podia-se até beber uma “bica”, para gaúdio daqueles que não passam sem as suas nove ou dez injecções diárias de cafeína. Um simples soar do gongo anunciava o fim da pausa, e lá voltavamos aos bancos de esponja forrados a cabedal com encostos de pau, concluír o cerimonial cinéfilo semanal.

Até aos meus nove ou dez anos ia ao cinema com o meu saudoso pai, que me aturava todos os caprichos. Nunca cheguei a agradecer e ao mesmo tempo pedir desculpa por o ter feito aturar as comédias “spaghetti” com Bud Spencer e Terence Hill, e outros próprios da minha idade mental à altura, que o meu velho era obrigado a ver, mesmo que a muito custo. Recordo-me dos anúncios dos filmes a estrear, que passavam antes do filme propriamente dito, e de lhe dizer “temos que ir ver este”, que eram praticamente todos! Mas nem tudo era mau, e cheguei a ir ver alguns clássicos com o meu pai: “Ben-Hur”, “O Campeão”, com o pai da Angelina Jolie, ou “Victory”, o tal filme sobre os prisioneiros de Guerra que disputam um jogo de futebol com a selecção da Alemanha Nazi, que tinha no elenco Sylvester Stallone, Michael Caine e Pelé, entre outros. Quando o meu pai voltou a casar, dividiu o enfado de me levar ao cinema com a minha madrasta, mas como ela tinha um gosto mais eclético, era com menos sacrifício que o fazia. Entre alguns dos filmes que me lembro vermos juntos estão “E.T.”, “Flashdance” ou “Salteadores da Arca Perdida”.

Quando passei a ir sem os pais ao cinema, tornou-se tudo mais fácil. Como a mesada só dava para uma ida por semana, os critérios da escolha da película eram rigorosos, pois uma “banhada” deixaria um sabor amargo na boca toda a semana. Os filmes “imperdíveis” eram vistos na companhia dos amigos do Ciclo, outros menos consensuais com o meu irmão, ou algumas raras vezes sozinho. Aos 10 anos tive a primeira experiência cinematográfica fora do Montijo, quando fui ao antigo Caleidoscópio do Campo Grande ver o “The Never Ending Story”. Ir a Lisboa ao cinema era um luxo. Cheguei a ir ao Alvalade, ao Quarteto, ao S. Jorge, e ainda me lembro da primeira vez que fui às Amoreiras, com a mãe, o irmão e uma caixa de pizza de atum. Em exibição estava o primeiro filmed a série “Back to the Future”. A minha primeira “infração” cinematográfica foi também nas Amoreiras, quando tinha 12 anos e fui ver “O nome da Rosa”, que era para maiores de 16. Não tive qualquer problema a entrar, mas a escolha valeu-me um raspanete dos pais.

Não custa nada regressar trinta anos no tempo e trazer de volta estas recordações. Ir ao cinema passou a ser tudo menos um momento mágico, um dia que passava toda a semana à espera. Contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que vou ao cinema num ano, pobre de mim. Quando me sento nas cadeiras de avião daquelas salas apertadas recordo-me do majéstico Joaquim D’Almeida, que depois de alguns anos abandonado, é actualmente utilizado para outros espectáculos, inseridos no programa cultural e recreativo da Câmara Municipal do Montijo. É certo que hoje temos 3D, HD, stereo surround system e o diabo a sete, e ainda bem, mas é com nostalgia que recordo os borrões na tela que indicavam a mudança de bobina, os riscos na imagem, o som vindo das colunas do cineteatro, de pobre qualidade, mas sempre era melhor que nada. Hoje os filmes cabem no bolso e nem sequer requerem que alguém fique de olho no projector. Ainda me lembro de quandoa fita encravava e a malta mandava “bocas” ao gajo lá de cima, do outro lado daquele quadradinho de onde saía a poeirenta imagem. Não me acusem de saudosismo. Isto são apenas saudades. E como apertam…